Nos últimos anos, a preocupação com as taxas de natalidade e a necessidade de ter mais filhos passou a ser vista como uma questão conservadora. A esquerda está muito menos preocupada com o declínio demográfico. Salientam que, apesar de a fertilidade ter diminuído, a população mundial continua a aumentar. A maioria dos progressistas argumenta que o fim do crescimento populacional dará ao planeta um novo fôlego e representa uma viragem positiva em direcção à sustentabilidade.

Não deveríamos celebrar a queda da natalidade como uma vitória dos direitos das mulheres? Em todo o caso, não estamos prestes a ficar sem pessoas.

No entanto, um corpo demográfico mais pequeno e envelhecido não é o que a maioria das pessoas pensa que será. Os lugares do mundo que se despovoaram e envelheceram não correspondem à visão progressista de menos pessoas, mas mais saudáveis e mais prósperas. Nem se enquadram na ideia de sustentabilidade.

Em vez disso, os lugares que perdem pessoas são zonas deprimidas, de decadência e de destruição. Sem a vibração da juventude ou um sentido subjacente de progresso, o mundo será mais triste e sombrio, e muito mais pobre.

 

Estabilização? Não é isso que dizem os números.

Quando em 1968 Paul Ehrlich publicou The Population Bomb, a taxa de fertilidade total era de 6,51 nascimentos por mulher na China, 5,76 nascimentos por mulher na Índia e 5,2 nascimentos por mulher no Brasil. Se estas taxas continuassem indefinidamente, teríamos grandes problemas. Seja qual for a capacidade de carga da Terra (e o facto de o mundo estar mais bem alimentado do que nunca mostra que é muito maior do que Ehrlich pensava), não é certamente infinita.

Nesta perspectiva, a diminuição das taxas de natalidade parece ser uma coisa boa. Infelizmente, os dados mostram que ultrapassámos as taxas de natalidade “equilibradas” na maior parte dos países e agora os números estão a cair a pique. Os demógrafos partiram do princípio de que a diminuição das taxas de natalidade se estabilizaria em torno da reposição e depois ficaria por aí. Isso não aconteceu. Quase nenhum país que tenha caído abaixo do nível de substituição está a conseguir uma “aterragem suave”.

 

 

A taxa de fertilidade é actualmente de 1,9 nascimentos por mulher na Índia, 1,57 nascimentos por mulher no Brasil e apenas 1,02 nascimentos por mulher na China, continuando a diminuir rapidamente em todos estes países. Entretanto, países como a Alemanha, o Japão e a Espanha, que caíram abaixo da taxa de substituição há muitas décadas e têm tentado recuperar, continuam em défice demográfico. A fertilidade da Alemanha é de apenas 1,35 nascimentos por mulher, menos de 2/3 da reposição, enquanto no Japão é de apenas 1,20 e em Espanha 1,13. Os países que ficaram abaixo do nível de reposição não estão a estabilizar, continuam a cair.

A fertilidade na América é de apenas 1,6 nascimentos por mulher, apenas 75% a 80% da reposição e muito abaixo dos 2,7 filhos que as mulheres americanas dizem desejar (de acordo com uma sondagem Gallup de 2023). Os Estados Unidos compensam a diferença com a imigração, mas em breve todos os países, excepto uma franja restrita dos mais pobres, enfrentarão um défice demográfico. A reserva de potenciais imigrantes qualificados de todo o mundo está a esgotar-se.

Entretanto, as projecções das Nações Unidas, em que todos confiam, são sempre demasiado elevadas, baseadas na falsa esperança de que as taxas de fertilidade estabilizem instantaneamente após uma queda abrupta, enquanto todos os anos, a fecundidade continua a sua tendência descendente. Por exemplo, eis o quadro Argentino, segundo a ONU:

 

 

De alguma forma, as taxas de natalidade em queda da Argentina estabilizarão magicamente num instante, projecta a ONU com optimismo (spoiler: a taxa de fertilidade da Argentina para o primeiro semestre de 2024 foi de apenas 1,28, já bem abaixo das últimas projecções da ONU e ainda em queda).

 

Um problema oculto.

Uma grande parte do problema reside no facto de pensarmos mal a população. Vemos a população total nos seus níveis mais elevados, ou perto deles, e pensamos que o problema deve ser o excesso de pessoas e não o défice.

Mas a população total é um mau indicador do que está a acontecer. Veja-se o caso da Coreia do Sul.

 

 

A Coreia está a enfrentar um declínio acentuado da taxa de fertilidade que é apenas 1/3 da taxa de substituição. Há tão poucas crianças coreanas a nascer que, por cada 100 coreanos, haverá apenas quatro daqui a três gerações. Mas se olharmos exclusivamente para a população total, o problema está completamente escondido.

 

É difícil haver progresso se a população estiver a diminuir.

Quase todos nós partilhamos algo fundamental na nossa visão do mundo, que é a ideia de progresso, seja qual for a sua definição. Passámos a dar por adquirido que o futuro será melhor do que o passado. A esperança de vida continuará a aumentar. A tecnologia continuará a melhorar. A ciência avançará e as condições de vida continuarão a melhorar.

Com base nisso, partimos do princípio de que o mantra “cada vez melhor” continuará a ser válido. Esperamos que os direitos humanos continuem a expandir-se e que o progresso, tal como o conhecemos, se mantenha.

Todo esse progresso foi conseguido graças ao crescimento demográfico de países que adoptaram novos conhecimentos e investiram no desenvolvimento de novas tecnologias. No entanto, esses países são precisamente aqueles que mostram as taxas de natalidade mais baixas.

 

 

De facto, os países que estão abaixo do nível de substituição são responsáveis por mais de 90% do PIB global e por mais de 95% das patentes e publicações científicas.

Como a população dos países tecnologicamente e cientificamente avançados está a diminuir, muitos imaginam que as coisas vão correr bem porque alguns países pobres ainda têm muitas crianças. Mas alguns desses países nem sequer estão interessados na ideia liberal de “progresso”.

Veja-se o caso do Afeganistão. A receita para a fertilidade do Afeganistão é rejeitar a modernidade, ao ponto de as raparigas serem proibidas de estudar depois do sexto ano. A educação dos rapazes não é muito melhor. O sistema que dá ao Afeganistão a sua elevada taxa de natalidade não tem quase nenhuma relação com os valores do Ocidente ou com o mundo que os próprios progressistas, adeptos da redução demográfica, desejam para o futuro.

Se o objectivo é o ‘progresso’, é improvável que o consigamos procurando nos países menos progressistas a salvação demográfica.

 

Consequências do declínio demográfico.

Há uma visão optimista que muitos alimentam de um mundo futuro com uma população em declínio. Haverá menos pessoas, mas seremos mais avançados tecnologicamente, mais gentis com o planeta, mais saudáveis e mais ricos.

Estes profetas do mito da superpopulação ignoram ou omitem as evidências, porque o declínio demográfico nunca traz consigo paraísos, ao invés, cria cenários infernais. Pensemos em Detroit, por exemplo. Como é que isto é um final feliz para o ambiente ou a humanidade?

 

 

O mesmo se passa em extensas áreas rurais da Virgínia Ocidental ou do Japão.  E, para os portugueses, uma visita ao sudeste alentejano, deserto e deprimido, também será elucidativa.

Tanto mais que as pessoas que vivem nestas regiões despovoadas não estão nada bem. Os locais que estão a perder população têm alguns dos piores indicadores sociais de bem-estar, sendo as mortes por suicídio a métrica mais trágica, mas também são eloquentes as altas percentagem de cidadãos a viverem de subsídios do estado.

Escusado será dizer que raramente são sítios agradáveis para visitar. Os edifícios que estão desocupados deterioram-se, enferrujam e soçobram lentamente. São também locais deprimidos do ponto de vista económico, com muitas empresas fechadas e vendas a diminuir nas que vão sobrevivendo devido ao número insuficiente de clientes.

O que acontece aos preços do imobiliário em zonas que estão a despovoar-se? Quando os vendedores excedem largamente os compradores numa cidade que está a perder pessoas, muitas propriedades não conseguem obter uma oferta seja a que preço. Investir na manutenção de imóveis que ninguém compra ou aluga é uma forma garantida de perder dinheiro e, por isso, uma grande quantidade de propriedades nesses locais é simplesmente abandonada à degradação.

De facto, quase todos os investimentos se baseiam no pressuposto do crescimento. Quem investiria numa loja, fábrica ou empresa se todos os anos as vendas fossem inferiores às do ano anterior?

Isto já para não falar do impacto do declínio demográfico nos mecanismos da segurança social como as pensões e os programas de benefícios sociais, que é devastador. Quando as gerações mais novas são cada vez em menor número e a população sénior domina a pirâmide etária, o sistema implode e os resultados são catastróficos para as pessoas comuns. Na Rússia, na década de 1990, a esperança de vida caiu a pique quando as redes de segurança social desapareceram. Se qualquer país desenvolvido do Ocidente entrar em bancarrota ou deixar de poder suportar as despesas sociais devido ao declínio e envelhecimento da população, o custo humano será assombroso.

 

Os progressistas vão ter que reconhecer a importância das políticas de natalidade. A bem ou a mal.

O declínio demográfico não é um problema inventado, mas sim uma calamidade iminente que qualquer pessoa que entenda de aritmética e de cálculo deveria ser capaz de compreender.

Os nascimentos caíram em média 5% em todo o mundo entre 2022 e 2023. Se os números do PIB caíssem 5% ao ano, não estaríamos a falar de outra coisa e, no entanto, a natalidade continua a decrescer, perante a indiferença de políticos e académicos, da imprensa e dos activistas.

O mundo do futuro será fortemente empurrado na direcção pró-natal. O problema é que os trends demográficos não se corrigem de um dia parra o outro, mas sim no correr de gerações, e quanto mais tarde agirmos no sentido de promover o crescimento demográfico, mais severas serão as consequências sociais, económicas e políticas.

Será que os progressistas tencionam simplesmente negar a crise até que ela seja evidente para todos e muito mais difícil de resolver? Será que os progressistas acreditam que essa missão deve ser entregue aos conservadores? Será que os conservadores estão a seguir o conselho de Napoleão, quando dizia:

“Nunca interfiras com o teu inimigo quando ele está a cometer um erro.”

Mas a demografia é um assunto excessivamente importante para ser jogado no tabuleiro da política e não devia depender da ideologia.

 

É suposto que os progressistas tenham uma visão positiva do futuro.

A visão deprimente de neo-liberais e esquerdistas é que a humanidade deve simplesmente ser impedida de se multiplicar porque a vida não vale a pena ser vivida e porque somos na verdade uma espécie de praga que infesta e corrói o planeta. Esta perspectiva, que assume contornos profundamente niilistas, é surpreendentemente predominante da extrema-esquerda ao centro político. Porque é que estas ideias não são rejeitadas com os factos? Por qualquer medida objectiva, a vida é mais confortável hoje do que foi durante a maior parte da história da humanidade e quase toda a gente está contente por estar viva.

Os progressistas do passado não compreenderiam de todo pessoas como estas. A esquerda do passado teve sempre uma visão positiva de um futuro humano brilhante, mesmo quando as suas receitas políticas realizavam precisamente o contrário. Basta olhar para a propaganda marxista do século XX. Este estranho desespero em relação ao futuro, tão prevalecente na esquerda actual, estaria deslocado em qualquer outra época.

Mas aqueles que se preocupam com o longo prazo terão certamente de defender políticas de natalidade bem mais agressivas.

 

As soluções mais eficazes são culturais e, na cultura, os progressistas têm um poder real.

A esquerda é impotente em relação à queda da natalidade? Não. Foram os progressistas que tomaram a dianteira quando parecia que a sobrepopulação estava a aproximar-se e que têm sido bastante bem sucedidos (demasiado bem sucedidos) na utilização da cultura, da persuasão, da tecnologia e da educação para fazer baixar as taxas de natalidade. Esse poder não desapareceu, infelizmente.

E há muitos vectores que podem ser desenvolvidos para aumentar as taxas de natalidade, se houver essa vontade política:

– Educar os jovens (especialmente nas aulas de saúde do ensino secundário) sobre a janela da fertilidade e a importância de planear os momentos de natalidade no curso da vida. A falta de planeamento e de sensibilização numa fase inicial é a principal razão pela qual as pessoas não conseguem ter os filhos que desejam. Uma vez que a mulher média tem menos filhos do que deseja, é pertinente ajudar os jovens a conhecer o terreno para resolver o problema.
– Encurtar os percursos educativos, criados a pensar nos homens, para se adaptarem aos prazos das mulheres que desejam constituir família.
– Promover o casamento, o veículo privilegiado para constituir família.
– Rejeitar as teses dos apocalipses demográficos e climáticos, ou outras que conduzam a sentimentos anti-natais.
– Relacionar a constituição de família e a natalidade como a responsabilidade social, já que a sociedade precisa de mais crianças para prosperar. A melhor forma de “fazer o bem” no mundo é ter filhos, no seio de uma família estável e duradoura.
– Políticas tributárias que incentivem agressivamente a constituição de famílias com mais de dois filhos.

Como no ContrtaCulturs já foi documentado, a teoria de que o planeta decairá inevitavelmente num inferno superpovoado nunca foi verdadeira. Era falsa quando foi postulada pela primeira vez no século XIX. Era falsa quando “The Population Bomb” foi publicado na década de 1960. É falsa agora. Que esta teoria ainda seja ensinada nas escolas primárias e secundárias de todo o mundo não a torna mais verdadeira. Continua a ser uma teoria falsa.

 

 

AFONSO BELISÁRIO
Oficial fuzileiro (RD) . Polemista . Português de Sagres
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.