É evidente que, hoje em dia, a preocupação é tratada como um mal a ser evitado a todo custo. Seja na clássica e inútil recomendação dos médicos – “Descanse e evite preocupações” – ou mesmo diante da menor sombra de inquietação, a qual impele à busca de refúgios artificiais na forma de distrações fúteis, estímulos constantes ou a anestesia química da farmacologia moderna. O homem contemporâneo não quer pensar demais, quer sentir o mínimo de incômodo possível e a cultura dominante o impele a “virar a página”, antes mesmo de compreender o que estava escrito. Essa obsessão pelo conforto mental, entretanto, tem um preço: a atrofia do espírito, a incapacidade de lidar com o peso da realidade e, em última análise, a degradação da civilização.

A abdicação do conflito interno avilta o comportamento em sociedade e empobrece o pensamento, neutralizando qualquer tentativa de transcendência. Os grandes avanços da história nunca vieram do descanso e da leveza, mas sim da inquietação constante. Isaac Newton, por exemplo, foi obcecado pelas suas investigações, incapaz de aceitar explicações fáceis ou de abandonar problemas aparentemente insolúveis. Nietzsche sofreu, remoendo incessantemente suas próprias contradições, e dali nasceu uma filosofia, digamos, vigorosa. Churchill, nos momentos mais sombrios da Segunda Guerra, não buscou “espairecer”, mas sim carregar o peso da responsabilidade até o fim. Pascal dedicou-se à inquietação da alma, afirmando que “toda a desgraça dos homens provém de uma coisa só: não saberem ficar quietos em um quarto”. Dostoiévski transformou sua própria angústia existencial em obras que mergulham no mais profundo da alma humana. Schopenhauer via no sofrimento uma fonte de crescimento, rejeitando o otimismo superficial e defendendo que a dor molda o caráter e a compreensão do mundo. Em comum, todos esses homens compreenderam que o incômodo intelectual e moral é o fermento das grandes descobertas e a espinha dorsal da resistência.

O que ocorre em nosso tempo, entretanto, é a inversão desse processo. Hoje, a agitação constante, o estímulo sem repouso e a busca desesperada pelo “desligamento” da mente aproximam-se dos sintomas de um distúrbio psicológico coletivo. A sociedade moderna parece agir como um doente de TDAH, incapaz de manter o foco em um problema por tempo suficiente para compreendê-lo. Em lugar de maturar pensamentos, prefere trocá-los por um novo vídeo, uma nova moda, uma nova distração instantânea. A angústia não é mais vista como um processo vital de amadurecimento, mas como uma anomalia a ser medicada ou abafada o mais rápido possível – aliás, reconheçamos que o próprio termo “angústia” carrega, em si, um peso por demais sinistro, nos dias atuais.

Mais do que isso, há uma condenação ativa da sociedade aos que insistem em se preocupar. Quem se recusa a aceitar a superficialidade reinante é tachado de pessimista, de inflexível ou mesmo de doente. “Relaxa!”, “Segue a vida!”, “Deixa pra lá!”, dizem os apóstolos do escapismo, como se a busca pela verdade ou pela resolução de um problema fosse um desvio de conduta. Essa mentalidade cria uma cultura em que a própria reflexão é vista como um incômodo social, pensadores e críticos tornam-se indesejáveis e sua inquietação, agora inconveniente, expõe a mediocridade geral e ameaça a paz artificial dos conformistas.

A psicologia contemporânea – tal como algumas vertentes religiosas – muitas vezes é reduzida a slogans motivacionais e a um marketing barato de autoajuda, reforçando essa mentalidade. A filosofia estoica, por exemplo, que sempre defendeu a resiliência diante do sofrimento, foi deturpada em uma versão de “estoicismo pop” que prega apenas o distanciamento emocional e a aceitação passiva, tal qual os “evangélicos fashion”, que apagaram as preocupações existenciais em troca da ascensão social e financeira. Freud já alertava que a repressão excessiva dos conflitos internos gera neuroses, mas o mundo atual optou por não reprimi-los com reflexão e disciplina, e sim dissolvê-los em prazeres fugazes e distrações sem fim. O conceito de “sociedade do espetáculo“, de Guy Debord (eu não o conhecia. Faça como eu, busque nas redes), explica como a superficialidade e a busca pela distração são mecanismos centrais da mentalidade globalista atual, afastando o homem da reflexão e da autonomia intelectual. Não é coincidência que os índices de ansiedade e depressão jamais tenham sido tão elevados: a fuga permanente da preocupação leva ao vazio, e o vazio, ao desespero.

Essa cultura do alívio imediato, que rejeita qualquer peso moral e existencial, também gera um colapso dos valores tradicionais. Em tempos passados, a preocupação era vista como uma virtude: um pai de família zelava pelo futuro dos filhos, um líder se atormentava com o destino de sua nação, um filósofo consumia-se na busca pela verdade. Hoje, preocupar-se com algo além da própria gratificação imediata é visto como um desvio, uma neurose, um comportamento “tóxico”. A era da futilidade rejeita qualquer reflexão profunda, pois esta implica responsabilidade, dever e sacrifício. A “modernidade líquida” de Zygmunt Bauman descreve esse fenômeno com precisão: em uma sociedade que evita qualquer comprometimento, inclusive com o pensamento, a cultura do descartável se estende às ideias e às próprias inquietações.

Existe, ainda, uma faceta pior: muitos homens e mulheres, ao adentrarem a velhice – erroneamente chamada “terceira idade” – e motivados por tênues justificativas (“Já me preocupei muito nessa vida”) afrouxam sem nenhum pudor o senso moral, de dever e quase abdicam da civilidade, desde que esta renúncia seja a seu favor. Permitem-se comportamentos inconvenientes, abusivos e mesmo imorais, se isso bem lhes aprouver. Valores, princípios, postura? Nada disso importa pois, em suas cabeças, a idade concedeu-lhes uma espécie de “passe-livre” para tudo se permitirem e com nada mais se preocuparem.

O resultado desse culto ao alívio imediato é um amontoado de homens frágeis, sem qualquer condição psicológica de resistir às crises e nenhuns valores e princípios que os escorem. Como esperar que alguém, que nunca enfrentou suas próprias inquietações, saiba encarar as adversidades da vida? Como esperar firmeza moral de quem foi treinado a fugir do incômodo? Como esperar a sabedoria de idosos, se os mesmos ocupam-se somente com seus desejos? A incapacidade de sustentar conflitos internos gera seres humanos volúveis, que abrem mão de seus princípios ao primeiro sinal de desconforto. A resiliência, outrora cultivada como virtude, foi substituída pela necessidade de conforto contínuo. E uma sociedade formada por pessoas assim é uma sociedade condenada à servidão.

A verdadeira grandeza de espírito nasce da preocupação, da incapacidade de aceitar o fácil e o imediato. A não-conformidade com a superficialidade do mundo é virtude, não defeito, e cabe aos que ainda resistem a essa mentalidade efêmera manter viva a chama da inquietação.

Porque é dela que surge o pensamento verdadeiro e a transformação autêntica do mundo.

 

 

WALTER BIANCARDINE
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Walter Biancardine foi aluno de Olavo de Carvalho, é analista político, jornalista (Diário Cabofriense, Rede Lagos TV, Rádio Ondas Fm) e blogger; foi funcionário da OEA – Organização dos Estados Americanos.

As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.