Formalizando a guerra comercial que tinha prometido na campanha eleitoral, o Presidente Donald J. Trump anunciou uma série de novas taxas alfandegárias durante o evento “Dia da Libertação” na Casa Branca, incluindo a imposição de uma tarifa geral de 10% sobre todas as importações estrangeiras. Para além da tarifa geral de 10%, Trump vai impor uma série de taxas comerciais específicas sobre as importações de 60 países – sendo a taxa fixada em metade daquilo que o país visado impõe às exportações americanas, critério qualificado como “um acto de generosidade”.

Em contraste com esse espírito filantrópico, Trump afirmou durante o anúncio da sua iniciativa:

“Meus compatriotas americanos, este é o Dia da Libertação. O dia 2 de Abril de 2025 será para sempre recordado como o dia em que a indústria americana renasceu, o dia em que o destino da América foi reclamado e o dia em que começámos a tornar a América novamente rica. Durante décadas, o nosso país foi saqueado, pilhado e violado por nações próximas e distantes, tanto amigas como inimigas. Os trabalhadores siderúrgicos, os trabalhadores do sector automóvel, os agricultores e os artesãos americanos – temos muitos deles aqui hoje – sofreram realmente muito; assistiram com angústia ao roubo dos nossos empregos por líderes estrangeiros; os batoteiros estrangeiros saquearam as nossas fábricas e destruíram o nosso outrora belo sonho americano. Também estamos a defender os nossos agricultores que são brutalizados por nações de todo o mundo. O Canadá impõe uma tarifa de 250-300% sobre muitos dos nossos produtos lácteos”.

Entre os países e regimes que enfrentam tarifas adicionais acima da taxa de 10% estão a China, o Vietname, Taiwan, o Japão, a Índia, a União Europeia, a África do Sul e a Coreia do Sul. As importações chinesas serão atingidas com uma taxa de 34% e os produtos indianos serão tarifados a 26%

A febre tarifária poupou o Reino Unido, que enfrenta apenas a taxa base de 10%, em vez dos 20% impostos à União Europeia.

 

 

Uma aposta de alto risco.

Se bem que Donald Trump tenha justificação para tarifar certos países, e mandato eleitoral para tomar estas decisões, é questionável a pertinência do tratamento de choque a que vai submeter a economia global – sendo inclusivamente incerto que a economia americana reaja favoravelmente, considerando o impacto que estas medidas terão necessariamente na curva da inflacção. E se o presidente americano quer mesmo que a reserva federal baixe os juros, não é com um aumento de preços que o vai conseguir de certeza.

A este propósito, circula por estes dias a teoria de que a actual administração americana procura precisamente criar uma recessão global que obrigue a Reserva Federal a baixar as taxas de juro, de forma a que a dívida americana seja minimamente sustentável. Os EUA estão a pagar neste momento 1 trilião de dólares em juros sobre a sua dívida soberana.

Seja como for, a linguagem utilizada na declaração, convenhamos, é excessiva. Até porque o primeiro responsável pelo facto histórico das exportações americanas serem tributadas e das importações não o serem é o governo americano, que permitiu e alimentou este desequilíbrio aduaneiro durante gerações.