
A condição humana é ao mesmo tempo terrivelmente depravada e espetacularmente nobre. Somos capazes de crueldades de cortar a respiração como de realizações gloriosas, dignas dos próprios deuses. Estamos condenados a expressar simultaneamente estas duas facetas do nosso carácter; não há outra forma de se ser Sapiens.
Entre as maiores realizações da era moderna, incluindo maravilhas como a sequenciação de genomas e a fissão de átomos, há uma joia muito particular: a exploração do espaço sideral. E entre as mais brilhantes façanhas deste género épico, estão as duas naves Voyager – neste preciso momento a atravessar o vazio interestelar -, a Cassini, a panóplia de rovers marcianos, e a missão New Horizons.
No dia 19 de janeiro de 2006, um foguetão Atlas 5 foi lançado da plataforma 41 da Estação da Força Aérea de Cabo Canaveral. A bordo, uma sonda do tamanho de uma carrinha, com um complexo conjunto de instrumentos, iria, após uma odisseia sem paralelo, transmitir algumas das imagens mais espectaculares que a nossa civilização alguma vez viu. A New Horizons seria lançada, a velocidades verdadeiramente fenomenais, para os confins longínquos do nosso sistema solar. Mesmo com a ajuda da gravidade monstruosa de Júpiter, a sonda demoraria mais de nove anos a chegar ao seu encontro histórico com Plutão. A velocidade alucinante traia porém qualquer esperança de entrar nessa órbita distante. Em vez disso, a New Horizons faria um voo rasante, passando a menos de 7.800 milhas (muito, muito perto) do planeta anão. Depois, com o seu objectivo cumprido, seria remetida para sempre à deriva através da escuridão sem fim.

Assim, em meados de julho de 2015, viajando a cerca de 36.400 quilómetros por hora e após uma viagem de uma década que atravessou mais de 3,2 mil milhões de quilómetros, a New Horizons passou por Plutão. Tudo funcionou mais ou menos na perfeição.
Até então, os pormenores da superfície de Plutão tinham permanecido inacessíveis. Mesmo o poderoso Hubble não conseguia revelar quase nada. Os seus melhores esforços pouco mais produziam do que uma mancha indistinta e desfocada. A New Horizons deu-nos uma nova janela para aquele que é o mais distante dos mundos no nosso sistema solar. O que esperávamos encontrar era uma rocha estéril e esburacada, algo muito parecido com a nossa própria lua ou, na melhor das hipóteses, com um dos asteroides mais interessantes que navegam pelo sistema Solar. Mas no entanto, quando as imagens, que nos chegaram a um ritmo dolorosamente lento, foram assembladas na Terra, fomos brindados com uma dádiva inesperada. Uma dádiva incomensurável.
As imagens que recebemos são um tesouro, um tesouro genuinamente inestimável. Plutão provou não ser uma rocha estéril, mas sim um mundo dinâmico de uma complexidade e subtileza totalmente inesperadas. Quando vemos essas imagens, ainda hoje, e depois de alguns momentos de reflexão e estudo dos detalhes, convivemos com sensações de espanto, veneração e consolação. O Professor Jacob Bronowski falou uma vez da Música das Esferas e, embora não seja bem isso que ele queria dizer, as imagens da New Horizons são como uma partitura escrita por Deus. As palavras não têm serventia, quando somos confrontados com a alta resolução da astronáutica.

A gravidade de Plutão é demasiado fraca para compactar uma atmosfera relativamente densa e fina, como a da Terra, apresentado muitos estratos nubelosos que a luz remota do nosso Sol atravessá, incidindo sobre uma superfície de gelo de nitrogénio. Cadeias de montanhas extensas feitas de gelo de água, encimadas por cornijas de metano desmaiam sobre vastas planícies geladas, sem crateras, e glaciares colossais, com padrões poligonais, que sugerem sublimação e potenciais oceanos subterrâneos. Criovulcões que expelem lama a -229 ºC constituem uma das características únicas encontradas em Plutão que, vistas de cima, parecem pele de cobra ou casca de árvore. Regiões mais antigas, perturbadas por múltiplos impactos, salpicadas por tolinas – moléculas formadas pela acção de radiação ultravioleta solar em compostos orgânicos simples como metano e etano, que conferem a Plutão alguns contrastes extremos de cor. Tudo isto é agregado por um índice gravítico tão baixo, e por pressões tão modestas, que as cadeias montanhosas podem tornar-se gigantescas em relação à orbe como um todo, fazendo com que Plutão pareça uma espécie de versão de brinquedo congelado dos planetas mais convencionais.

O feito tremendo e monumental que a missão New Horizons alcançou, fazendo avançar significativamente a nossa compreensão do Sistema Solar, tem de ser directamente atribuído à NASA e aos cientistas e engenheiros do programa New Frontiers. A agência espacial americana é um instituição que, ao longo das décadas, tem decaído para uma espécie de sindicato político do establishment académico e tecnológico, e sempre foi uma organização com tendência para mentir, ocultar e omitir muita da informação relacionada com a sua actividade. Mas abundam também na sua história os casos de excelência científica e tecnológica que devem ser exaltados. As imagens da New Horizon são um resultado fascinante desse engenho e desse labor e promovem, de facto, a civilização no sentido mais grandioso que lhe podemos atribuir.
Usando dados reais da New Horizons e modelos digitais de de Plutão e da sua maior lua, Caronte, os cientistas da missão criaram animações vídeo que oferecem novas e espectaculares perspectivas de muitas características incomuns que foram descobertas e que remodelaram a nossa visão deste quadrante do Sistema Solar. Este dramático vôo sobre a superfície de Plutão começa nas terras altas a sudoeste da grande extensão de planície de gelo de nitrogénio informalmente chamada Sputnik Planitia. O passeio segue para o norte, passando pelas terras acidentadas e fracturadas da Voyager Terra e, em seguida, vira para o sul sobre a região de Pioneer Terra – que exibe abismos profundos – antes de concluir a rota sobre o terreno ondulado de Tartarus Dorsa no extremo leste do hemisfério.
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