Um dos mais intrincados problemas da astrobiologia contemporânea é este: a vida, como a conhecemos, precisa de água como um cortador de relva necessita de gasóleo. E é apenas sensato pensar que, onde há água, haverá um qualquer bichinho vivo, nem que seja a porcaria de uma bactéria. Mas, por fatalidade, a água corre apenas num infinitésimo intervalo de temperaturas: abaixo dos 0ºC transforma-se em gelo, acima dos 100ºC passa ao estado gasoso. Ora, tendo em conta as abissais amplitudes térmicas dos sistemas cósmicos, as hipóteses de dar de caras com o diabo de um planeta onde se verifique a existência de água são ainda mais improváveis do que descobrir a agulha logo à entrada do palheiro, certo? Errado.
Um oceano, na quinta lua de Saturno.
Lançada em 15 de outubro de 1997, a Cassini-Huygens, uma sonda não-tripulada enviada para Saturno pela NASA, a ESA e a ASI (Agência Espacial Italiana), entrou na órbita do planeta dos anéis a 1 de julho de 2004, depois de uma viagem interplanetária de quase sete anos, na qual sobrevoou Vénus e Júpiter. A sonda esteve em operação até 15 de setembro de 2017, estudando Neptuno e os seus satélites naturais. Entre as muitas descobertas da missão estão ambientes potencialmente habitáveis nas luas de Saturno, incluindo um oceano subterrâneo em Enceladus.
A Cassini registou a erupção daquilo que tem todas as possibilidades de ser, nada mais, nada menos, um magnífico geiser no polo sul de uma geladíssima e quase irrelevante lua de Saturno. A notícia surgiu na altura como uma chapadona sonora, pesadinha e certeira na cara macilenta da comunidade científica mundial. Se existe água em Enceladus, é porque, mesmo em sistemas dominados por condições ambientais extremas, são criadas condições para o evento de temperaturas amenas, do género das que conhecemos na Terra. Se existe água em Enceladus, não é nada imbecil supor que, de facto, a vida orgânica manifesta-se para além do que temos por garantido no terceiro calhau a contar do sol. Se existe água em Enceladus, é justo especular sobre a existência de condições propícias à vida noutros locais do sistema solar, como por exemplo em Io, uma exótica lua de Júpiter que tem dasafiado a imaginação, até agora delirante, de um bom número de astrofísicos. Se existe água em Enceladus, podemos finalmente respirar de alívio: não somos os exclusivos detentores do impulso biológico no universo. Se existe água em Enceladus, deus esqueceu-se de nos dizer a verdade.

Mas o que na altura não passavam de suposições levantadas pelas imagens da Cassini, hoje são certezas da física: há água em estado líquido no núcleo de Enceladus. Um pequeno mar, com condições térmicas – e químicas – propícias à existência de vida. Não precisaremos assim, muito provavelmente, de sair do nosso sistema solar para encontrar a prova definitiva de que a vida não é um exclusivo terráqueo, produto aberrante do caos cósmico. Sabemos agora que a vida é de tal forma fecunda que se pode manifestar, num só sistema solar, em dois ecossistemas planetários diferentes. A matemática disto é absolutamente explosiva. Por exemplo, as probabilidades de encontrarmos formas de vida inteligente num raio de 100 anos luz, aumentam drasticamente. Principalmente quando cruzamos os cálculos com descobertas recentes no âmbito da detecção de exo-planetas.
Esta é a boa notícia. A má notícia é que não se vê jeito de levarmos uma qualquer espécie de broca até Enceladus, para poder estudar o seu pequeno oceano. Não nos próximos 50 anos.
A belíssima obra de Deus Nosso Senhor.
Ao contrário das desinteressantes missões a Marte, a sonda Cassini, nos seus quase 20 anos de missão, 13 deles na órbita de Saturno, conseguiu imagens de uma beleza recordista. Reparem bem no poder cinemático desta compilação:
E em termos científicos, há aqui mais conteúdo do que em cem viagens ao planeta vermelho. As fascinantes e sobrenaturalmente belas imagens do trânsito de Enceladus estão carregadas de informação científica.
E na sua épica viagem até Saturno, a Cassini ainda conseguiu recolher imagens de transcendente beleza de Júpiter e de duas das suas luas: Europa e Io.
Europa & Io moons orbiting Jupiter, captured by the Cassini space probe
Credit: NASA-JPL’s @kevinmgillpic.twitter.com/OeV73S35UM
— Space Explorer Mike (@MichaelGalanin) September 4, 2022
Um final épico.
Esgotado o combustível, a Cassini foi colocada numa trajetória de impacto com Saturno. A 15 de setembro de 2017, depois de uma órbita a apenas três mil quilómetros da superfície, a sonda mergulhou na atmosfera do planeta a cerca de 10 graus do equador, a uma velocidade aproximada de 34 km por segundo, terminando a sua odisseia como um meteorito incendiado pelas leis da natureza. Os fragmentos que sobreviveram às altas temperaturas, acabaram comprimidos e inteiramente dissociados pela imensa pressão da atmosfera saturniana.
A decisão de destruir o artefacto de maneira a não deixar vestígios deveu-se à preocupação de evitar uma possível contaminação com material terrestre de alguma das luas, se porventura acabasse colidindo com uma delas. Após 20 anos, quase 300 órbitas e descobertas pioneiras, o contacto com a sonda foi definitivamente perdido pouco antes das 5h00 PDT (hora do Pacífico) de 15 de setembro. Durante a queda a Cassini enviou dados para a Terra em tempo real, utilizando as suas valiosas capacidades até o último segundo.
A Cassini-Huygens foi uma das mais bem sucedidas missões espaciais da história da ciência humana. E a primeira sonda a descobrir água numa geografia não terrestre. Vale por toda a fábrica de foguetões do sr. Musk.
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