A indústria de propaganda dos media corporativos está em modo de cuidados intensivos. O corte de custos devido à queda nas audiências e à correspondente diminuição das receitas publicitárias, tem conduzido a despedimentos e “reestruturações”, que estão a acontecer por todo o lado, e não só nos EUA (em Portugal a morte tem sido lenta, mas incontornável). Ainda assim, por uma questão de economia, este texto fecha o enquadramento no que se está a passar na América.
No início desta semana, o LA Times demitiu 120 funcionários, cerca de 20% de sua redacção.
Seasonal adjustments. https://t.co/zyvIar3Q1X
— zerohedge (@zerohedge) January 25, 2024
Enquanto isso, o BuzzFeed e a Vice Media – dois antigos queridinhos dos media digitais, estão a desviar activos. O BuzzFeed, que perdeu mais de 97% de seu valor desde que se ofereceu ao capital anónimo, em 2021, pretende vender os seus sites de comida, Tasty e WeFeast. E o Fortress Investment Group, que assumiu o controle da Vice que a empresa estava em processo de falência no ano passado, pretende vender o seu site de estilo de vida feminino Refinery29.
A Fortress está em negociações para vender a Refinery29 após uma tentativa fracassada de encontrar um comprador para a Vice na sua totalidade, que inclui a marca de notícias homónima, o estúdio de produção e a agência criativa, entre outros activos. A Fortress está também em discussões com possíveis licitantes para a Refinery29, que sofreu uma redução nas receitas para 20 milhões de dólares no ano passado.
A Vice comprou a Refinery29 por 400 milhões em 2019, enquanto a Tasty foi uma tentativa do BuzzFeed de gerar fluxos de receita além da publicidade, com vendas directas de utensílios de cozinha.
(Pausa para nos escangalharmos a rir).
Estes títulos juntam-se ao Jezebel (“Sex. Celebrity. Politics. With Teeth”), que foi fechado em Novembro pela G/O Media, e ao Business Insider, que agora está a despedir 8% de seu pessoal.
A insuportável revista Time também demitiu 30 pessoas da sua redacção, na semana semana.
Memo to staff from Time magazine CEO Jess Sibley announcing the cuts, saying the company has “diligently reduced our expenses” but “there is still more work to be done.” https://t.co/Sarjuf7GsX pic.twitter.com/xiX16mgdAg
— Max Tani (@maxwelltani) January 23, 2024
Em 2023, houve mais de 30.000 propagandistas despedidos pelas empresas de comunicação social. Este é o maior número de cortes no emprego desde 2020, quando a propósito da Covid-19 foram para o olho da rua outros tantos 30.000 apparatchiks.
O número é seis vezes superior às perdas de emprego em 2022, quando muitas das grandes empresas de comunicação social, incluindo a Warner Bros. Discovery e a Disney, entre outras, desencadearam uma série de despedimentos que afectaram milhares de trabalhadores.
Taylor Lorenz chora, para nos fazer felizes.
Opinando sobre o triste estado do “jornalismo”, a grande campeã de Jeff Bezos e célebre activista neoliberal do Washington Post, Taylor Lorenz, disse esta semana que “toda a indústria do jornalismo está basicamente em queda livre” e que os problemas do LA Times se seguem a “meses e meses de demissões na indústria dos media.” E prossegue num tom fúnebre que nos enche o peito de alegria:
“E não são apenas sites de media digital. Os órgãos noticiosos locais foram destruídos, a indústria jornalística está em crise, a rádio está essencialmente morta – com exceção da NPR, que foi destruída. Enquanto isso, centenas de trabalhadores da Conde Nast, a empresa-mãe de praticamente todas as grandes revistas, da GQ à Vogue e do New Yorker à Vanity Fair estão em greve.”
Quando aquilo que produzes não interessa a ninguém, a melhor maneira de não seres despedido é fazeres greve. Faz sentido.
Good morning. Taylor Lorenz has some great news for you today:
pic.twitter.com/xRP4SALnbv— Carl Benjamin (@Sargon_of_Akkad) January 25, 2024
Apesar das suas alegações de que é uma repórter genuína que subiu a pulso dos media independentes para os corredores do jornalismo estabelecido, Taylor Lorenz representa a essência do propagandista que infecta as salas de redacção da imprensa actual. Conhecida pela sua defesa cega e e muitas vezes ridícula da administração Biden, bem como pelos seus constantes ataques aos meios de comunicação alternativos e a contas conservadoras das redes sociais, Lorenz ganhou fama, ou caiu na infâmia, após um trabalho de investigação “jornalística”, também conhecido como labor pidesco, sobre a fundadora do Libs of TikTok, Chaya Raichik, no que muitos argumentaram ser uma tentativa de convidar à violência e intimidar uma pessoa que criticava os activistas woke apenas por postar no X (na altura Twitter) aquilo que os tresloucados colocavam no Tik Tok. A história inicial publicada por Lorenz continha um link para o endereço de trabalho de Raichik e outros detalhes sobre a sua vida privada (Lorenz foi obrigada, numa versão posterior da história, a retirar alguns desses links).
A comissária da Gestapo de Washington também foi acusada de mentir descaradamente num artigo sobre a cobertura do julgamento de Johnny Depp v. Amber Heard, quando alegou que havia contactado alguns YouTubers para comentarem a “reportagem” antes de a publicar. O texto constituía um ataque soez a esses canais e todos os visados negaram a alegação O Washington Post, meio envergonhado da sua própria vilania, foi forçado a editar discretamente o artigo.
A questão é que Lorenz deixou claro, através das suas ações, que vê os jornalistas cidadãos de forma negativa, se estes não fizerem parte da esquerda radical. Ela tentou sabotá-los usando métodos duvidosos, cumprindo, ironicamente, o tipo de comportamento dos jornalistas corporativos que levou directamente à morte da sua indústria. É precisamente esta falência da ética, esta forma tendenciosa de agir, que obrigou o público a procurar os meios de comunicação alternativos e a abandonar as plataformas mainstream.
Por muito odiados que sejam os “jornalistas”, nunca é suficiente.
Numa sondagem de 2022 da Pew Research, feita junto de “jornalistas” corporativos dos EUA de todas as idades, mais de 55% afirmaram não acreditar que todos os lados de uma determinada história mereçam cobertura igual. Entre os comissários mais jovens (com idades entre os 18 e os 29 anos), 63% afirmaram que não concordavam com uma cobertura imparcial. Lorenz reflecte exactamente esse sentimento ao revirar os olhos diante da noção de objectividade na redacção de notícias.
Como o Contra já documentou, as redacções mainstream decidiram de uma vez por todas assumir aquilo que já há muito tempo é evidente e estão a proclamar abertamente que a imprensa abandonou a “objectividade” porque, na opinião desta gente doente, tal critério é uma relíquia racista das “redacções brancas”.
A desnudada assumpção do axioma encontra referência numa série de entrevistas conduzidas pelo antigo editor executivo do Washington Post, Leonard Downie Jr., e pelo antigo presidente da CBS News, Andrew Heyward, das quais resultaram afirmações deste calibre deontológico:
“Os jornalistas devem incluir as suas próprias crenças, preconceitos e experiências para transmitir a verdade, já que a objectividade jornalística é irrealista ou indesejável.”
Downie Jr. argumentou que a objectividade distorce as notícias porque
“O padrão foi ditado ao longo de décadas por editores masculinos em redacções predominantemente brancas e reforçou a sua própria visão do mundo”.
Emilio Garcia-Ruiz, editor-chefe do San Francisco Chronicle, foi ainda mais explícito afirmando que
“A objectividade tem de ir à vida”.
Numa sondagem semelhante à da Pew Research, mais de 76% do público em geral afirmou querer uma cobertura objectiva dos factos pelos meios de comunicação social. A desconexão entre as fontes de notícias do establishment e o que o seu público deseja é imensa. Dado que a ideologia progressista está sobre-representada na maioria dos meios de comunicação social corporativos, o público simplesmente procurou o outro lado da história.
Lorenz argumenta que não gostaria de viver num mundo onde as pessoas recebessem notícias de TikToks de sessenta segundos (enquanto postava o seu apelo no TikTok, sem mostrar quaisquer sinais de consciencializar a ironia), mas ela sabe muito bem que não é o jornalismo TikTok que está a cortar as pernas de organizações como o Washington Post – É a crescente prevalência dos media alternativos que ela combateu durante grande parte da sua carreira.
E quando fala da morte da rádio, a comissária de Bezos finge que não está a falar apenas das estações dominadas pela esquerda radical do seu país e que vivemos hoje até um apogeu da Talk Radio, em formato podcast, de que Joe Rogan será o máximo exemplo.
I can’t get past this line: “Radio is essentially dead aside from NPR.” Talk radio is thriving. 8 in 10 Americans listen to the radio. But because the vast majority of talk radio is conservative and its audience is working class, it simply does not exist to leftist journalists. https://t.co/io9nBGpSAa
— Batya Ungar-Sargon (@bungarsargon) January 25, 2024
Dito isto, em última análise, a imagem que Lorenz pinta é na verdade positiva (embora ela não perceba isso, claro). A implosão da comunicação social tradicional é uma expressão do mercado livre. O público ainda manda qualquer coisa e finalmente estas pessoas estão a sofrer as consequências das suas actividades desonestas, para não dizer outra coisa.
E para sermos claros: viver num mundo sem a imprensa corporativa é o que milhões de pessoas no Ocidente já fazem todos os dias. E ninguém teve tromboses epistemológicas por causa disso.
Os apparatckiks das salas de redacção não são especiais nem essenciais para a saúde social, política ou económica dos povos e das nações, graças a Deus. A imprensa corporativa não é “grande demais para falir” e o seu colapso deve ser aplaudido após décadas de desinformação e propaganda. Esta gente merece um funeral festivo e o mundo vive muito melhor na sua ausência.
E Tim Pool faz, muito adequadamente, o velório feliz.
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