
O Universo tem qualquer coisa entre 13 e 17 biliões de anos.
A Via Láctea tem 10 a 13 biliões de anos.
O Sistema Solar terá 5 ou 6 biliões de anos.
O planeta Terra, 4 ou 5 biliões de anos.
A vida biológica surgiu há cerca de 3 biliões de anos.
Os mamíferos habitam a Terra há coisa de 200 milhões de anos.
Os primeiros hominídeos surgiram há 7 ou 8 milhões de anos.
O Homo Sapiens é velho de 60 a 100 mil anos.
A civilização, como a entendemos hoje, soma 4 ou 5 mil anos.
As democracias ocidentais datam de há 300 atrás.
O conforto material que conhecemos actualmente e que é historicamente recordista não conta mais que 70 anos.
A sociedade da informação é um fenómeno com 30 anos, ou coisa que o valha.
Eu estou aqui – em Lisboa, Portugal – e agora – a 28 de Novembro de 2021.
Estou de saúde. Vivo em paz.
Experimentei, na maior parte dos meus 55 anos de existência, o apogeu do liberalismo ocidental, a mais livre, próspera, inventiva e tolerante forma de governar os povos na história da humanidade.
Daqui a 10 ou 20 anos o conceito de democracia liberal será definitivamente erradicado.
Daqui a 20 ou 30 anos, a cultura ocidental de base judaico-cristã estará extinta.
Daqui a 40 ou 50 anos, o conteúdo demográfico global cederá enfim à imensidão das etnias asiáticas.
Daqui a 50 ou 60 anos a inteligência artificial dominará todas as facetas da actividade humana, empurrando o Sapiens para um papel secundário no seu próprio cosmos funcional.
Daqui a 100 anos, as biotecnologias e as nano-ciências vão transformar o Sapiens numa versão 2.0, trans-humana.
Daqui a 500 ou 1000 anos a maior parte desses zombies estarão a viver na Lua, em Marte, em Io, em Enceladus, locais infernais de colonização difícil, geografias hostis à natureza humana, mesmo para quem a transcendeu em grande medida.
Daqui a dois biliões de anos o sol iniciará o processo de transformação para anã branca, tornado o sistema solar num lugar gelado e inóspito.
Daqui a 3 biliões de anos o universo irá desagregar-se, num silencioso e difuso fim do espaço-tempo.
Assim sendo, foi preciso ter mesmo muita sorte para ter nascido quando nasci e onde nasci.
Para ter vivido como vivi, sem ter conhecido a necessidade da trincheira, sem ter sofrido a tortura da fome, sem ter sido submetido à fúria dos elementos ou à rapina de predadores.
É na verdade sorte em excesso para ser apenas sorte e dou graças a Deus Nosso Senhor, e peço perdão por qualquer queixa que possa ter feito sobre o destino.
Não estava, definitivamente, a ver bem a coisa.
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