Esta é uma rubrica muito pessoal, que introduz a banda sonora de uma vida. Não há grandes regras a não ser a de seguir uma sequência (mais ou menos) cronológica, escolher não mais que um disco por banda ou autor e inserir não mais que um videoclipe por álbum, para que a coisa mantenha um tom adequadamente telegráfico.

 

1984 – Van Halen

É complicado eleger um disco entre a épica discografia dos Van Halen. Eu escolho este, o último com o estridente e saltitante David Lee Roth (que foi a seguir substituído por outro grande maluco, Sammy Hagar). Para além da embalagem, que é fabulosa, o vinil lá dentro bomba que nunca mais acaba e introduz, pela primeira vez na história da banda, a utilização de sintetizadores. O resultado não deixa de ser uma cena típica dos Van Halen – eléctrica, virtuosa e primordial – mas traz um sabor novo, mais sofisticado e onírico, que só eleva a fasquia de qualidade que a banda já trazia no seu recorde de belas e gritantes óperas rock.
Tenho a sensação de que se me tivesse limitado a enumerar 10 discos apenas, este “1984” estaria lá, nessa lista impossível para mim.

 

Eliminator – ZZ Top

Dê lá por onde der, estes hipsters antes do tempo, estes grandes e bem dispostos malucos, têm que constar desta lista-armadilha de que nunca mais vou escapar. Claro que a maior parte dos fans de ZZ Top preferirá o iniciático “Tres Hombres”, residência paleolítica e lendária de “La Grange”, mas eu voto em “Eliminator”, de 1983. Por causa do que os senhores conseguiram fazer com um Ford Coupe muito velhinho que tinham para lá a enferrujar na garagem, claro, mas também porque é um poço sem fundo de grandessíssimas malhas. Nunca dois barbudos tinham até aqui conseguido fabricar tanto bom barulho eléctrico, desta maneira incessante. De “Gimme All Your Lovin” a “Legs” há toda uma juke box a rebentar com a escala cromática que vibra entre o folk e o hard rock. Sim, este disco é bastante comercial. Mas eu não gosto de música por ser comercial ou alternativa. Eu gosto de música. E gosto de ZZ Top. É como é.

 

Born In The USA – Bruce Springsteen

Todos os verdadeiros fãs do patrão de New Jersey vão discordar de mim, mas eu acho que “Born In The USA” é o melhor disco de Bruce Springsteen. E acho isto por um conjunto de razões muito simples: este disco é mais consistente que todos os outros (todos os temas são excelentes temas). É mais descomprometido que todos os outros (o Bruce sempre gostou de pensar que é um rocker de intervenção e às vezes isso tornava-o bastante aborrecido). É mais dançável que todos os outros (“Dancing in the Dark” é um clássico da pista de dança, e foi composto para ser isso mesmo, quer queiram quer não). Além disso, inclui a musiquinha de namoro mais erótica que Bruce alguma vez criou – ou que é possível criar, dada a intrincada combinação de referências (a que consta no clip).
Este disco faz completamente parte da minha vida, sim. E tele-transporta-me para a adolescência a uma velocidade assustadora. A música, quando atinge um certo grau de magnificência, tem esse poder sobre o espaço-tempo. E “Born In The USA” é magnificente. Ontem, hoje e amanhã.

 

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