Para um tradutor ocidental, não deve haver desafio maior do que verter um poema chinês para a sua língua natal. E porquê? Porque os chineses, como os japoneses e os sul coreanos, não usam vocábulos, como os entendemos. Usam logogramas (ou sinogramas), símbolos que denotam um conceito concreto ou abstracto da realidade.
As origens desta escrita são remotas, possivelmente anteriores à dinastia Shang, no século XIII a.C., quando aparecem os primeiros registos, em ossos de animais. Confúcio faz referência à existência de um sistema de escrita na China anterior a 2000 a.C.
Os logogramas são chamados hànzì em mandarim, kanji em japonês, hanja ou hanmun em coreano. Uma das suas características é poderem ser lidos de diferentes formas, pois representam conceitos. Assim, através da escrita, um falante de mandarim pode comunicar com um falante de cantonês, embora os dialectos sejam mutuamente ininteligíveis. Aliás, na China, há uma enorme variedade de dialectos, pelo que a escrita tem sido um símbolo de unidade cultural.
Um poeta competente do período clássico chinês teria também que ser designer gráfico (ou tipográfico, se quisermos ser mais precisos) e um erudito, porque a lírica sinogramática é metalinguística por definição: para além de conceptual, o texto teria que valer pelo seu valor proverbial e referencial a tradições históricas e literárias, bem como construir um corpo visual elegante, que apresentasse por si só valor artístico.

Neste contexto, a tradução da poesia escrita em logogramas está muito dependente da interpretação do tradutor e enquanto um determinado poema pode ser de leitura muito clara para um erudito chinês, para o ocidental, que tem que procurar uma estrutura frásica pela articulação dos conceitos em presença, muitas vezes enigmáticos e tricotados intrincadamente com subtilezas semânticas e referências culturais, é uma tarefa extremamente árdua e, sobretudo, subjectiva. Para além disso, a componente gráfica e tipográfica do poema perde-se completamente, como é óbvio. Tudo o que o tradutor pode – e deve – fazer é substituir esse conteúdo formal por outro: o ritmo, a aliteração ou a rima, por exemplo.
Seja como for, o tradutor ocidental está condenado ao simulacro, à recriação, à especulação. Não falamos aqui na verdade de uma técnica de tradução, mas da (arriscada) arte da versão.
Para este exercício das Variações do Contra escolhemos um breve poema de Li Bai (701-762), também grafado como Li Po ou Li Bo, considerado o maior poeta romântico da dinastia Tang e um os mais respeitados autores da história da literatura chinesa. Famoso pelo rigor visual das suas composições, pela criatividade das figuras de estilo que empregava e pela filosofia taoísta que impregnava a sua escrita, transportou pela vida a reputação de boémio e a maldição de um espírito livre e inconstante, que o levou a vários períodos de exílio político. Diz a lenda que morreu afogado no rio Yangzi, quando, embriagado e tentando abraçar o reflexo da lua, caiu do barco.
De forma a que o leitor se aperceba das nuances técnicas e da arbitrariedade do processo, deixamos uma transliteração dos logogramas, uma versão do poema em português de António Izidro, outra versão, em português brasileiro, por José Jorge de Carvalho, e a versão do Contra.
A MONTANHA JINGTING
Caracteres originais e transliteração
独坐敬亭山 Sentado sozinho na montanha Jingting
众鸟高飞尽 As aves voam alto
孤云独去闲。 Nuvem solitária sozinho
相看两不厌, Não me importa o olhar de um para o outro
只有敬亭山。 Apenas a montanha Jingting
Versão de António Izidro
Sentado sozinho na montanha Jingting
Um bando de aves nas alturas do céu,
uma nuvem espreguiça-se solitária.
Nunca o nosso olhar se farta do outro:
eu e a montanha Jingting.
Versão de José Jorge de Carvalho
Bando de pássaros revoaram alto e distante;
um floco solitário de nuvens cruzou o azul.
Eu me sento sozinho com o Pico Jingting,
imponente em seu cume.
Jamais nos cansamos um do outro,
a montanha e eu.
Versão do Contra:
Sento-me a sós contigo, Jingting.
Do céu passaram os pássaros já
E a única nuvem voou também.
Não me canso de te olhar e só há
uma montanha que me olha, Jingting.
Relacionados
8 Dez 25
Cândido no melhor dos mundos ou o erro de Voltaire.
A odisseia de Cândido tenta demonstrar que a realidade está longe de constituir um ideal arquitectado pela providência divina. Mas o que sabemos hoje sobre o cosmos favorece mais a filosofia de Leibniz do que a prosápia de Voltaire.
14 Nov 25
“Romance”, de Hélder Macedo: poesia para redimir amantes.
Poetas clandestinos da Literatura Portuguesa: “Romance” é um poema complexo, cifrado pela erudição e pela ambição lírica de Hélder Macedo. Uma cantiga de amigo de longa duração, que parece ter sido escrita pela salvação de um amor perdido.
11 Out 25
“Inferno” ou August Strindberg versus Dante Alighieri.
Biblioteca do Contra: “Inferno” será, muito provavelmente, um dos livros mais estranhos - e arrepiantes - alguma vez escritos; literatura de viagem pelos abismos da alma humana.
21 Set 25
Os Deuses e a Origem do Mundo: sete mitos criaccionistas, comparados.
Cosmogonias do Contra: uma breve mas incontornável antologia de António de Freitas, que reúne e compara os textos iniciáticos dos mais influentes aparelhos mitológicos na história das religiões.
18 Jun 25
A Rosa Rubra de Burns, reinventada para português.
Uma variação mais focada no ritmo do que na literalidade, pecado pelo qual encarecidamente rogamos que nos perdoem os escoceses, e que Robert Burns permaneça tranquilo, no seu túmulo de poeta imortal.
31 Mai 25
3 biografias de Fernando Pessoa, parte 3: João Pedro George e o Super-Camões.
A virtude do biógrafo está em perceber a virtude do biografado. E João Pedro George tem, pelo menos, o mérito de respeitar o homem cuja vida e obra tenta retratar. Considerando exercícios análogos dedicados ao imortal poeta, isto não é dizer pouco.






