Uma das questões mais intrigantes – e interessantes – que podem ser colocadas sobre a natureza humana é esta: porque raio é que pessoas vulgares, funcionais, racionais, civilizadas, emocionalmente capazes de amarem a sua família e moralmente disponíveis para serem solidárias com amigos ou estranhos, culturalmente aptas a apreciar os Concertos de Brandenburgo ou uma novela de Goethe, cumprem simultaneamente tarefas sinistras, como enfiar judeus em câmaras de gás, fuzilar milhares de civis ou matar à fome milhões de camponeses?
No âmbito da filosofia, Hannah Arendt é provavelmente a grande autoridade nesta matéria e já aqui no ContraCultura foi sucintamente documentado o seu inestimável contributo, mas no que respeita à psicologia e à sociologia é Stanley Milgram o homem-mestre deste intrincado assunto.
Em 1962, Milgram conduziu na Universidade de Yale aquela que é talvez a mais polémica experiência da história das ciência sociais. A experiência explica-se assim (texto adaptado da Wikipédia):
Os voluntários foram recrutados para uma experiência de laboratório de investigação em “aprendizagem”. Os participantes, 40 homens com idades entre 20 e 50 anos, cujas profissões variavam entre não qualificadas e especialistas, foram pagos pela sua participação (4,50 USD).
No início da experiência, foram apresentados a outro participante, que na verdade era um actor, cúmplice do estudo, e convidados a tirar o palito maior para determinar o seu papel na experiência – “aluno” ou “professor” – embora o sorteio fosse um logro, já que o cúmplice era sempre o “aluno”.
Participava também no estudo um “assistente”, vestido com uma bata cinzenta, interpretado por um discípulo de Milgram. Foram usadas duas salas do Laboratório de Interacção de Yale – uma para o “aluno”/actor, onde existia uma “cadeira eléctrica”, e outra para o “professor”/sujeito da experiência, com um gerador que, em teoria, libertava corrente eléctrica para a cadeira da outra sala.
Depois que o “aluno” tivesse memorizado uma lista de pares de palavras que lhe foi dada para aprender, o “professor” iria testar a sua memória, dizendo por um microfone a primeira palavra e pedindo ao “aluno” para recordar a sua parceira (fazer o par) de uma lista de quatro possíveis escolhas.
O “professor” teria que administrar um choque eléctrico de cada vez que o aluno cometesse um erro, aumentando a intensidade do choque progressivamente. Existiam 30 botões no gerador de choques eléctricos, que accionavam cargas entre 15 volts (ligeiro choque) e 450 volts (choque muito intenso). Logo depois das primeiras perguntas, o “aluno” começava a dar respostas erradas. A dada altura, o “professor” ouvia o “aluno” a gritar de dor e – mais à frente” – a pedir para ser solto da cadeira eléctrica e a apelar para o fim da experiência. Quando o “professor” hesitava em administrar um choque, era estimulado pelo assistente a continuar com o procedimento. Os estímulos eram os seguintes:
Estímulo 1: Por favor, continue.
Estímulo 2: A experiência requer que você continue.
Estímulo 3: É absolutamente essencial que você continue.
Estímulo 4: Você não tem outra escolha, a não ser continuar.Resultados: 65% (dois terços) dos participantes (ou seja, “professores”) continuou até o mais alto nível de 450 volts. Todos os participantes continuaram até 300 volts.
Perante os resultados absolutamente deprimentes, ficou claro que existe no ser humano uma tendência assustadora para a obediência irracional, para a cedência à pressão social e para agir em conformidade com o papel funcional. Os sujeitos sofriam com cada choque que infligiam ao “aluno”, protestavam com o assistente, mordiam-se todos, riam de nervosismo e desespero, suavam as estopinhas, mas continuavam a infligir o suplício do qual tinham sido incumbidos. Todos eles chegaram ao nível de descarga de 300 volts. E a larga maioria completou a experiência, que só terminava na descarga de 450 volts (!). Isto apesar do actor na pele de “aluno” gritar de dor a cada choque, de forma bem audível para o “professor”, e confessar até, a partir do momento em que as descargas atingiam valores superiores a 250 volts, que tinha problemas cardíacos e que a experiência estava a colocar a sua vida em risco.
Esta capacidade de torturar consistentemente um estranho, até ao ponto extremo de arriscar a sua vida, apenas porque um assistente de laboratório insiste, calmamente e sem qualquer ameaça para além das frases de estímulo, que a experiência deve continuar, é arrepiante; explica muito sobre os instintos básicos que governam o comportamento individual e psicossocial e fundamenta a tese da banalidade do mal: uma pessoa dita normal pode de facto cometer crimes hediondos, dado um contexto social específico.
Talvez por isso, a experiência de Milgram foi alvo de acesas críticas e a sua carreira académica foi severamente prejudicada por causa disso. As pessoas não gostam de ser confrontadas com os seus demónios. Mas deviam sê-lo mais vezes. Se não estivermos conscientes de quem somos, e do mal que vive dentro de nós, dificilmente o poderemos aplacar.
E as lições do psicólogo social americano não podiam ser mais pertinentes na actualidade, depois de, a propósito da pandemia, termos testemunhado, um pouco por todo o planeta, a exclusão social e retirada de direitos elementares a que foram submetidos os cidadãos não vacinados, o carácter desumano e ilegal, mas aprovado socialmente, dos confinamentos e, em casos extremos, o tratamento repulsivo a que foram submetidos os infectados.
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