“Two possibilities exist: either we are alone in the universe or we are not. Both are equally terrifying.”
Arthur C. Clarke

 

Para além dos equívocos e das fraudes, dos mitos e das apropriações culturais, a presença de objectos voadores não identificados na atmosfera da Terra está hoje bem documentada, pelo que as questões prévias e fundamentais referem-se à sua origem, natureza e propósito. Este primeiro artigo sobre o enigmático assunto, dedicar-se-á a articular esses preâmbulos. Os que se irão seguir farão registo de alguns dos episódios OVNI mais intrigantes e solidamente documentados de que temos conhecimento.

 

1. Sobre a origem do fenómeno.

a) Balões meteorológicos e alucinações colectivas, histerias de grupo ou perturbações mentais individuais, fenómenos climáticos ou astrais não justificam os episódios que mais à frente serão reportados, pelo que nem vale a pena analisar a sua pertinência ou desadequação. Não é que estes equívocos ou estes desvios cognitivos não aconteçam e não possam constituir uma boa parte da fenomenologia, mas simplesmente não podem ser aplicados ao que será escrito nesta série de artigos.

b) Por isso, a primeira e mais conservadora hipótese é que a de que o fenómeno OVNI decorre da actividade humana e de tecnologia secreta actual (experiências e testes da aeronáutica e/ou balística, drones, satélites, etc.). Este linha de raciocínio não explica porém comportamentos deveras bizarros dos objectos, registados em radar e testemunhados por pilotos, que implicam avanços científicos e técnicos que estão muitas gerações à frente do que aceitamos como convencional. Há uma ruptura epistemológica nas leis da física por justificar quando são documentadas mudanças de direcção de 90 graus a velocidades superiores a Mach 3 ou locomoção sem aparelho propulsor. Tratam-se de realidades disruptoras de uma ideia de progresso tecnológico mais ou menos homogéneo. Qualquer nação que dispusesse destas tecnologias dominaria militarmente o mundo no imediato.

c) A origem destes objectos pode ser terreste, ainda assim, mas resultante de tecnologia futura, interpretada por seres descendentes do Sapiens contemporâneo que, num quadro cronológico mais ou menos distante, tenham descoberto uma forma de viajar no tempo, o que nem sequer é estranho às especulações teóricas da física contemporânea. Mas considerando que qualquer alteração ao passado, por pequena que seja, terá teoricamente consequências no futuro, a ideia de visitantes humanos oriundos do porvir implica perigosas implicações no tecido da realidade destes crononautas, uma vez regressados ao seu tempo de partida. Esta questão do trânsito sobre as eras, muito acarinhada pela ficção científica, é de qualquer forma extremamente complexa e aniquiladora de qualquer tentativa sensata de fazer luz sobre o fenómeno, pelo que não podemos fazer mais que enunciá-la e escapar a profundidades conceptuais que queimam os fusíveis a qualquer mortal.

d) O fenómeno será de origem extraterrestre. Esta alternativa implica a existência no universo de vida inteligente e civilizações com graus de conhecimento científico e operacionalidade tecnológica extremamente avançados e terá consequências filosóficas e teológicas incalculáveis no contexto da ontologia humana. Neste caso, ainda assim, os objectos não identificados poderão ser sondas não tripuladas (hipótese mais solidamente documentada) ou veículos tripulados (conjectura mais difícil de demonstrar à luz dos factos). Mesmo no caso em que os engenhos sejam tripulados, a sua equipagem poderá não ser constituída por formas de vida orgânica, como as entendemos actualmente no nosso planeta, mas por entidades robóticas/cibernéticas ou até por híbridos biológicos/cibernéticos.

Convém salientar ainda nesta alínea que apesar dos esforços científicos e do dinheiro investido nessa demanda, não foi ainda possível à ciência  confirmar a existência de vida fora do âmbito terrestre. Nem sondas, nem telescópios conseguiram descobrir no sistema solar ou no universo qualquer prova material de vida biológica. Muito menos de vida biológica inteligente.

 

2. Sobre a natureza e o propósito do trânsito interestelar.

a) A ser plausível a alinea d do anterior parâmetro, a intrusão na nossa atmosfera de objectos de origem extraterrestre poderá decorrer da prospecção resultante da volição comercial e/ou científica, mas também de um simples impulso de conquista e/ou civilizador, como aconteceu historicamente entre os seres humanos à superfície da Terra. É de notar que estas circunstâncias implicaram historicamente o conflito, a actividade militar e o extermínio das populações tecnologicamente menos avançadas, muitas vezes até por motivos que não derivam directamente do confronto bélico (pestes, fomes, etc.).

b) Segundo as leis da física estabelecida actualmente, as viagens no espaço sideral são caras, perigosas e longas, principalmente quando se trata de trânsito interestelar. À velocidade da luz, demoraríamos 4,22 anos a chegar à estrela que está mais perto da Terra, a Proxima Centauri. Mas a velocidade da luz só é possível aos fotões, que não têm massa. Qualquer objecto com massa, mesmo lançado a velocidades próximas da luz, demorará invariavelmente muito tempo – e consumirá quantidades enormes de energia – a transitar entre sistemas solares. Assim sendo, a difícil relação custo/benefício de uma viagem interestelar (já para não falar de viagens intergalácticas) não deve ser menorizada no âmbito desta temática.

No contexto destas duas alíneas, eis um parágrafo eloquente retirado de uma entrevista da Wired a Ernie Cline:

“[In movies] they just come down and begin to conduct a World War II-style ground invasion against us, with ship-to-ship combat, because it’s all really great and cinematic and a lot like Star Wars. But why would the aliens do that? They could just hurl a meteor at Earth if they wanted to exterminate us. Or why do they even come to Earth to begin with? The idea is always that Earth is this perfect, rare, blue world, but it’s perfect for us because we evolved to live here, but for any other alien they always have to terraform Earth. Well why not terraform a lifeless world that’s not inhabited by nuke-wielding monkey boys who are going to fight back? … And if an intelligent species has the technology to travel light years across interstellar space with these massive warships, then they’ve probably reached the Singularity, and they’d be beyond the need for anything that we have.”

c) Não devemos porém circunscrever a operacionalidade das viagens interestelares às leis da física que dominamos. Se uma civilização encontrar maneira de deformar o tecido do espaço-tempo, abre-se a caixa de pandora do livre trânsito cósmico. Fantasistas de todo o mundo têm chamado “Warp Drive” a esta possibilidade impossível. Acontece que, como muito bem explica Sabine Hossenfelder, professora de física teórica no Frankfurt Institute for Advanced Studies, o Warp Drive é, entre os sonhos mais loucos da ficção científica, o mais sensato, já que tem sustentação matemática e encaixa no modelo standard da física contemporânea. Mais a mais, um paper recente de Alexey Bobrick e Gianni Martire, do Advanced Propulsion Laboratory at Applied Physics, resolve uma boa parte dos problemas que a hipótese levantava (entre os quais as forças G a que seriam submetidos os tripulantes de uma nave que se desloque a velocidades insanas deste género), contribuindo decisivamente para levarmos a sério a possibilidade de viajar no espaço como quem vai ali e já volta.

 

3. Sobre a probabilidade de vida inteligente no universo.

Dada a imensidão do cosmos e o número incontável de galáxias, sistemas solares estáveis e planetas habitáveis que alberga, é relativamente fácil e tentador um cálculo estatístico, como o de Fermi, que demonstre a alta probabilidade de existência de vida inteligente no universo. Essa probabilidade estatística não produz, por si só, o facto. Apesar de todos os anos investirmos biliões em métodos de detecção de vida alienígena e sinais de civilizações de base tecnológica, permanece que ainda não encontrámos qualquer vestígio definitivo da sua existência. Há até quem defenda, e também com argumentos estatísticos, que as condições que levaram à eclosão da vida inteligente na Terra são muito difíceis de replicar numa outra qualquer geografia sideral, dada a multiplicidade de variáveis e contingências inerentes ao processo.

Podemos trabalhar ainda sobre uma hipótese mais sombria: como já foi referido, dentro do contexto das equações de Einstein é plausível projectar que no futuro a tecnologia humana poderá criar condições para as viagens no tempo. Assim, o facto de não termos provas concretas de que somos visitados por humanos do futuro pode significar que a humanidade não tem porvir. Que, a certa altura, será extinta por sua própria acção ou por acção de cataclismos externos ao seu contexto ontológico. A mesma conclusão pode aliás ser generalizada para fora do âmbito terrestre: o facto de não conseguirmos encontrar qualquer vestígio de civilizações alienígenas pode querer dizer que a vida inteligente está condenada à autodestruição, aconteça ela onde e como acontecer.

 

4. Sobre a probabilidade da vida alienígena assumir formas humanoides.

No consciente colectivo, o visitante de outro mundo é um ser de características marcadamente antropomórficas. Tem um crânio, dois olhos, duas narinas, uma boca, tronco e pélvis; dois braços, duas mãos, duas pernas e dois pés e por isso assume a posição bípede. Mas, a não ser que o Sapiens seja geneticamente familiar de uma outra qualquer espécie extra-terrestre, as probabilidades de seres alienígenas apresentarem uma morfologia semelhante à humana estará muito próxima do zero.

A simples e muito ligeira alteração da força gravítica presente na Terra implica soluções fisiológicas, massas corporais e densidades celulares radicalmente diferentes. Mas as variáveis em jogo – e sua respectiva interacção no intrincado processo da evolução – são de tal forma múltiplas e complexas que estão para além da nossa imaginação.

Uma equipa dirigida por Beate Kraft e Nico Jehmlich publicou na Science um paper que revela a existência de bactérias que geram oxigénio em ambientes desprovidos de luz, ou seja: sem o recurso à fotossíntese. Esta descoberta aponta para soluções de criação de vida e de produção de oxigénio muito diversas daquelas que consideramos essenciais e faz pensar sobre as possibilidades da biologia em ambientes radicalmente diferentes daqueles que conhecemos no nosso planeta.

As caracterísitcas do Bolor Limoso e do seu comportamento emergente abrem também o campo de hipóteses em que a vida inteligente pode eclodir. Este fungo sabe tomar decisões estratégicas, escolher soluções matematicamente eficientes para satisfazer as suas necessidades alimentares – e lembrar-se delas no futuro – detectar elementos químicos à distância, multiplicar-se ou unificar-se em função do ecossistema em que é inserido e sacrificar-se para o bem colectivo, sem ter aquilo a que podemos chamar um cérebro ou mesmo um centro de processamento de informação.

O Polvo, por outro lado, sendo um dos animais mais inteligentes entre a fauna do nosso planeta, encontrou soluções anatómicas completamente diferentes dos mamíferos, apresentando uma rede neuronal assimétrica e espalhada por todo o corpo.

Convém ainda lembrar que o ser humano existe numa realidade tridimensional (ou  tetradimensional se incluirmos o Tempo), mas essa não terá necessariamente que ser a parametrização existencial de outras espécies. A matemática, a geometria não euclidiana e a física lidam com projecções que chegam a abranger dezenas de dimensões possíveis (a Teoria das Cordas obriga à permanência de 26). A existência, meio fantasmagórica, de entidades inteligentes no interstício labiríntico de dimensões que o nosso aparelho sensorial não percepciona e que a nossa parafernália tecnológica não regista, não deve ser colocada de lado.

A hipótese dos “deuses astronautas”, em que a raça humana seria um produto de manipulação genética por parte de civilizações extra-terráqueas, que acompanharam a sua evolução desde a pré-história até aos dias de hoje, é intelectualmente interessante, dá resposta fácil à apresentação antropomórfica dos alienígenas e a alguns enigmas da arqueologia, relacionados principalmente com obras monumentais da engenharia da antiguidade e sua respectiva iconografia, mas não tem, até ver, substância factual que funcione como evidência definitiva.

 

5. Sobre as dificuldades decorrentes da heterogeneidade biológica e cultural.

Na sua longa metragem de 2016, “The Arrival”, talvez o único produto de Hollywood que aborda seriamente as intrincadas questões culturais, biológicas e antropológicas de um eventual contacto com uma civilização provinda de outro sistema solar, Denis Villeneuve coloca uma filóloga como líder da missão, de forma a estabelecer fundamentos linguísticos que permitam um entendimento minimamente funcional entre humanos e alienígenas. Esta é uma questão primordial. A comunicação entre inteligências com origens ecossistémicas diversas será sempre prejudicada por ruídos, equívocos e obstáculos inumeráveis ao nível da língua, da psicologia, da fisiologia, da sensibilidade e da sensualidade, que com certeza vão separar seres provenientes de localidades antípodas e de estágios de evolução que poderão diferir em milhões de anos.

A comunicação nunca será fácil e as probabilidades dessa dificuldade impedir o sucesso de qualquer tentativa de diálogo pacífico e frutífero para ambas as partes são significativas.

 

6. Sobre a probabilidade da coexistência em tempo real de várias civilizações em geografias cósmicas diferentes.

A questão da simultaneidade é muito pertinente neste contexto, ou seja: quais são as probabilidades, num universo com pelo menos 17 biliões de anos, de duas civilizações oriundas de localidades siderais muito diferentes, estabelecerem contacto num exacto ponto da sua história? Mesmo que a vida inteligente seja mais ou menos comum, as épocas de apogeu tecnológico podem durar, relativamente à idade do cosmos, muito pouco tempo. O Sapiens existe há cerca de 80.000 anos e a civilização humana tem apenas cinco mil. A emissão de sinais para o espaço que sejam reconhecidos como vestígios de inteligência por outra civilização só acontece desde as primeiras emissões de rádio, no princípio do Século XX. Pode muito bem acontecer que, no momento em que foram detectadas por uma outra civilização alienígena, a raça humana já nem exista. O fenómeno é comparável com a luz que recebemos de estrelas muito distantes de nós: estamos a ver essa estrela como era no passado, não como é agora. A estrela até pode não existir, quando a sua luz chega à Terra.

Uma civilização pode assim florescer num momento da história do Universo em que, nas suas imediações cósmicas, nenhuma outra se encontre num estágio de evolução técnica que possibilite o contacto. Ou exista sequer.

Não sabemos, porque não temos factor comparativo, quanto tempo, em média, duram as civilizações de base tecnológica. Mas considerando que a civilização humana demorou apenas 5000 anos a produzir armas nucleares, podemos considerar que, a existirem outras manifestações de vida inteligente no Universo, uma boa parte acabe por se auto-aniquilar.

Por outro lado, o progresso tecnológico não é necessariamente um movimento contínuo. Como observámos após a queda do Império Romano, a Europa passou por um processo de declínio epistemológico, do qual só recuperou já na alta Idade Média.

Há por último que equacionar que a evolução de uma espécie pode não traduzir um crescimento exponencial dos seus índices tecnológicos e científicos, mas sim um movimento de aperfeiçoamento espiritual e sensorial, que pode até tornar a tecnologia redundante. Ninguém nos diz que uma espécie inteligente com milhões de anos de civilização na sua história não possa manipular a matéria como nós manipulamos a informação, por exemplo.

 

7. Implicações do contacto com civilizações extraterrestres.

Para além das ameaças mais óbvias, enunciadas no ponto 2 deste texto, há que considerar outras consequências da convivência factual com civilizações alienígenas. O seu impacto na teologia e na filosofia seria de grande poder transformador, obrigando a humanidade à criação, necessariamente súbita, de novos axiomas existenciais e paradigmas ontológicos. Talvez uma das primeiras e mais pertinentes perguntas que se poderiam formular a um embaixador alienígena, seria esta:

“Acredita V. Exa. – e a civilização que representa – num Deus criador do universo?”

Por outro lado, as assimetrias resultantes de diferentes patamares tecnológicos em presença neste encontro de civilizações teriam certamente consequências difíceis de prever no equilíbrio geo-político do nosso mundo. O acesso a índices de conhecimento técnico e científico muito superiores aos dominados pela humanidade criaria graves crises diplomáticas entre as nações, que facilmente poderiam escalar em conflitos militares entre potências nucleares. A hipótese, muitas vezes propagada, de que um encontro com seres de outros planetas poderá fomentar a união entre os povos da Terra pode ser conveniente para estruturar as narrativas cinematográficas, mas é algo irrealista.

O impacto económico de uma relação comercial com civilizações extraterrestres também traz, à partida, problemas intrincados. Basta pensar no que aconteceria ao valor do Ouro, na Terra, se este metal fosse abundante no planeta de proveniência da embaixada extra-terráquea.

Por estes e por muitos outros motivos, que seria exaustivo enumerar e que a imaginação humana não tem como projectar, é legítimo equacionar que civilizações com apurado sentido ético possam tentar evitar, a todo o custo, uma exposição pública, mesmo que, por curiosidade científica ou cuidado preservacionista, mostrem interesse na espécie humana e visitem com maior ou menor regularidade, o nosso planeta.