Quando era adolescente já existiam maricas. Chamávamos-lhes maricas. Só depois de os maricas se tornarem homossexuais, com manifestações na avenida da Liberdade, é que lhes começámos a chamar homossexuais. As fufas eram fufas ou eram lésbicas e assim foi durante décadas. Os travestis, foram travestis durante imenso tempo. Não interessava realmente ao bem comum, à razão substantiva e à proficiência da gramática se o travesti tinha pirilau ou não tinha pirilau (ninguém tem nada a ver com isso, na verdade). Era um tipo que, no mínimo, já tinha tido um e que gostava de se vestir de mulher. E até existiam umas ruas em Lisboa onde homens vestidos de mulheres entravam dentro de carros de homens vestidos de homens e isso também parecia mais ou menos normal porque nessa era paleolítica já sabíamos que há gente para tudo, até para o carnaval de Torres Vedras.
Nesses distantes anos do Século XX, chamávamos velhos aos velhos e bêbados aos bêbados e drogados aos drogados e atrasados mentais aos atrasados mentais e paralíticos aos paralíticos e isso tornava a vida mais fácil para os que eram idosos, alcoólicos, tetraplégicos ou retardados e para os que não tinham esses problemas. Os que não tinham esses problemas, bem entendido, tinham outros, porque a espécie humana é mesmo assim: problemática.
De qualquer forma, esta maneira explícita de chamar os bois pelos seus naturais substantivos próprios reduzia bastante a latitude necessária à geração de falsas expectativas: um atrasado mental sabia à partida que não ia ser engenheiro aeronáutico, um bêbado aprendia a conviver bem com a improbabilidade de uma carreira como neurocirurgião e um paralítico não sonhava com uma posição activa no regimento dos bombeiros voluntários lá da terra. Além disso, quando os drogados eram apenas drogados, não dependiam de ninguém. Conseguiam drogar-se com total independência. Quando passaram a tóxico-dependentes começámos a perceber que estavam reféns de montes de pessoas e de instituições de quem deveras necessitavam para se drogarem convenientemente, o que não faz sentido nenhum: se uma pessoa até ali tinha conseguido drogar-se sem chatear ninguém, para quê complicar?
Creio que hoje temos imensos atrasados mentais em lugares de poder na sociedade portuguesa precisamente porque deixámos de os tratar por atrasados mentais. Começámos a utilizar linguagem técnica e indecifrável até para as pessoas sãs, quanto mais para os doentes do cérebro. Se chamamos a um atrasado mental “pessoa com dificuldades cognitivas associadas a patologias regressivas de ordem psicossomática”, como é que o atrasado mental consegue perceber quem é? Pode até acontecer que, dada a extensa, sonora e pomposa nomenclatura, se julgue amado pelos deuses ao ponto de poder vir a ser um advogado de sucesso, um deputado eloquente ou um carismático primeiro-ministro.
A questão da raça também estava mais ou menos definida. Se um sujeito era preto, correspondíamos apropriadamente com o substantivo adequado: este sujeito é preto. Se era branco, a mesma coisa. Se estava entre o branco e o preto, para não lhe chamarmos cinzento, chamavamos-lhe mulato, que é uma bela palavra parida pela Língua Portuguesa. Já a malta do Índico era monhé ou patrícia e ninguém ficava com problemas de estômago por causa disso. É certo que as coisas começaram a ficar complicadas quando, algures nos anos 80, caiu em moda dizer que os pretos eram “de cor”.
Esta denominação tinha um problema sério: quando dizemos que alguém é de cor, ou essa pessoa está presente, manifestando a sua evidência cromática, ou é necessário estabelecer previamente o contexto sócio-linguístico. Caso contrário, a pergunta de volta será inevitavelmente esta: mas essa pessoa de cor, de que cor é? E isto, gentil leitora, paciente leitor, é redundante o suficiente para corromper o bom fluxo do complexo processo da comunicação humana.
Estranhamente, não aconteceu o mesmo com os brancos. Não começámos a falar de pessoas brancas como se fossem pessoas de nenhuma cor, ou ausentes de cor, ou descoloridas. Os brancos continuaram a ser brancos. Ainda hoje são brancos, embora agora sejam brancos supremacistas, brancos colonialistas, brancos opressores, brancos patriarcais ou brancos sexistas. E parece que já não há mulheres brancas, muito simplesmente porque as mulheres não podem ser sexistas, nem opressoras e muito menos patriarcais. São, sim, vítimas do homem branco e, como vítimas, não podem ser brancas. Na mesma ordem de razão, começam também a rarear os homens negros, porque os homens negros são vítimas do homem branco e, como vítimas, não podem ser homens.
Nessa era da minha puberdade, o sexo não tinha consciência de classe e a raça não tinha preocupações de género. E esta ingenuidade taxonómica funcionava razoavelmente bem. As mulheres percebiam perfeitamente que eram mulheres, os homens que eram homens e os outros que eram diferentes. As crianças não tinham os confusos problemas fenomenológicos dos nossos tempos: chamavam mãe à mãe e pai ao pai e não esperavam ter dois pais ou duas mães ou dois pais e uma mãe ou uma mãe e dois pais ou o diabo que os carregue.
O problema contemporâneo de podermos ter 65 substantivos para distribuir fundamentalmente entre dois sexos biológicos, ou de termos 155 termos técnicos para qualificar alguém que é pura e simplesmente atrasado mental, não é tanto político como é existencial. Porque se dividimos as pessoas numa miríade de categorias, o que acontece é que acabamos por não identificar ninguém. Um tipo que é branco, drogado e burro, já não é branco, drogado e burro: é um cidadão alegadamente do sexo masculino, caucasiano, heterossexual ortodoxo, opressor de povos e tóxico-dependente com dificuldades cognitivas de largo espectro. A rapariga que é preta, paralítica e inteligente já não é preta, paralítica e inteligente: é uma cidadã de origem africana, vítima ancestral do colonialismo do homem branco, que apresenta desafios motores e traumas psíquicos decorrentes da exposição dos seus ascendentes ao esclavagismo, traumas esses que lhe garantem capacidades intelectuais acima da média e altos índices de inteligência emocional.
Convenhamos: esta nomenclatura não é nada efectiva nem é nada ética. Tem um problema funcional, porque a hiper-categorização conduz à igualização, roubando o individual ao indivíduo, a diversidade ao diverso e a humanidade ao humano. Tem um problema ético, porque toda a ética é uma estética e imaginem, por exemplo, a dificuldade que terá o poeta da segunda metade do século XXI quando quiser escrever uns cândidos versos de amor dedicados a um ser cuja identidade sexual é de “Terceiro Género”. Ou de género “Não Binário”.
O esforço concertado no sentido de igualizar géneros e raças e religiões e civilizações e histórias e filosofias e classes sociais, arrasando tudo ao zero absoluto, é, para além de irritante, completamente inútil: não é por inventarmos géneros até ao infinito que as crianças vão deixar de nascer como sempre nasceram: umas com pilinha, outras com pi-pi. Não é por forçar a homogenia que as pessoas vão ser mais ou menos pálidas, mais ou menos coloridas, mais ou menos vis, mais ou menos virtuosas.
Que raça de mania.
Relacionados
16 Jan 26
Carta-Aberta aos Candidatos à Presidência da República Portuguesa
António Justo dirige-se aos candidatos às eleições presidenciais com a convicção de que a democracia pode ser mais do que um exercício formal, e que os governantes podem verdadeiramente servir o seu povo.
15 Jan 26
Este papa é um globalista pavoroso, como foi o anterior. E como será o próximo.
Robert Prevost é um traidor de todos os católicos. Em vez de proteger o seu rebanho, está interessado em expo-lo aos predadores. Ao invés de propagar a fé, está focado em dissipá-la. É o logótipo vivo de uma igreja defunta.
13 Jan 26
Dois (plausíveis) cenários de pesadelo.
Na terceira década deste século, é muito possível que um Mohamed jihadista tenha acesso ao botão nuclear francês e que um radical de esquerda comande a maior e mais bem financiada força militar que o mundo já conheceu.
12 Jan 26
A Europa entre o esquecimento do ser e a sacralização da guerra.
A verdadeira resistência, hoje, já não pode ser militar nem ideológica. A resistência terá de ser cultural, ética e espiritual, uma recusa silenciosa mas firme em aceitar a mentira como norma e a guerra como destino. Uma crónica de António Justo.
11 Jan 26
Venezuela 2026: A operação que não foi pelo petróleo, mas pela geopolítica do século XXI
A narrativa sobre a operação militar dos EUA na Venezuela, centrada em torno do petróleo e do combate ao narcotráfico, não resiste a uma análise criteriosa. A realidade é bem mais intrincada e infinitamente mais perigosa. Uma crónica de Francisco Henriques da Silva.
9 Jan 26
A verdade nua e crua:
a III Guerra Mundial é agora inevitável.
Estamos a caminhar definitivamente para mais uma grande guerra. E os povos no Ocidente não vão poder dizer que não foram avisados. Neste momento ninguém esconde que um conflito global é o objectivo último e que, para muitos dos líderes ocidentais, será até desejável.






