Os livros guardam muitas camadas de histórias. Às Páginas Tantas é um projecto dedicado ao género de escavação que procura por essas rábulas secundárias que vivem no subsolo das narrativas primeiras. Temos muito que escavar. E muito para descobrir.

 

O velório do inspector vivo.

No livro de suas memórias, conta o bom Professor Adriano Moreira que, tendo morrido um familiar homónimo do director adjunto da PIDE, muitos se apressaram, equivocados, para o velório de Sua Autoridade Majestática. Quando o inspector entra, vivinho da silva, na câmara ardente do seu tio, a estupefacção é geral, sendo desfeito o mal entendido entre protestos do cardeal e alívio da plateia. O problema sobrou para aqueles que decidiram não comparecer ao velório, calculando talvez que o cadáver de S. Exa. não iria fazer registo de últimos respeitos. Conta o Professor que estes, na presença futura do PIDE, não se coibiam de lhe protestar suas desculpas, justificando a desconsideração:

“V. Exa. perdoará a minha ausência no seu velório. Estava caída de cama a senhora minha mulher, e bem vê que fiquei obrigado ao cuidado das crianças.”

O medo é uma ilha rodeada de lama humana por todos os lados.

 

Teatro Romano em Orange, sul de França

A arte de ir ao teatro

A acreditar nas recomendações de Tito Mácio Plauto (254-184 a.C.), o teatro romano da sua época era uma espaço algo indisciplinado e barulhento, onde seria desconsiderado o estatuto social de cada um. O poeta aproveita um momento de inspiração mais autoritária para recomendar a ordem sobre o caos, num poema incisivo e hilariante.

Que o arrumador não passe na frente dos outros
nem vá levar ao lugar, enquanto um actor estiver em cena.
Os que estiveram em casa que tempos a dormir, sem nada fazer,
têm que aguentar agora de pé com coragem, ou de cortar ao sono.
Os escravos que não ocupem os lugares, para que os tenha quem é livre,
Ou então que paguem o seu resgate.
As amas que tratem das criancinhas pequeninas
em casa, e não as tragam para o espectáculo.
Assim nem elas têm sede, nem as criancinhas morrem de fome,
nem vêm para aqui berrar como se fossem cabritos.
As matronas que vejam em silêncio, que riam em silêncio,
que moderem o retinir da sua voz esganiçada,
que levem para casa as suas conversas,
para não maçarem os seus maridos aqui e em casa.

 

O condenado que se demorou a morrer.

“I didn’t want to harm the man. I thought he was a very nice gentleman. I thought so right up to the moment I cut his throat.”
Perry Smith

Não deixa de ser uma coincidência do diabo, mas ao iniciar um novo género de romance – a que chamou non-fiction novel – Truman Capote deparou logo com dois dos mais intrincados problemas da epistemologia da literatura. O problema número um foi ter-se apaixonado pelo personagem central da sua história, coisa indigna de um romancista direito e fraqueza que lhe tolheu a criatividade para nunca mais (“In Cold Blood” foi a última coisa que conseguiu terminar). O problema número dois foi Perry Smith não estar disposto a morrer exactamente quando Capote precisava que ele morresse. De tal forma que a obra-prima estava pronta, sem que, lamentavelmente, se lhe pudesse dar um fim.

É claro que uma dor de cabeça derivou da outra, já que foi a imprudente paixão do autor que possibilitou ao condenado os recursos para ir protelando a inevitabilidade da forca. Mas a moral da rábula é mais paradoxal que prosaica: no limite da transcendência novelesca encontramos um conflito de interesses entre o amor e a morte. Que é como quem diz: entre a literatura e a vida.

 

Lu Mong, o sábio analfabeto.

Os provérbios chineses não são bem um equivalente dos provérbios como os entendemos em Portugal. Os nossos têm origem na sabedoria popular. Os chineses resultam da erudição histórica. Por exemplo, para dizer que não se deve julgar alguém de forma definitiva, sem ter em conta a sua capacidade de evoluir no tempo, um chinês recorre ao seguinte provérbio:

“Ao fim de três dias sem ser visto, um homem deve ser olhado com outros olhos”.

A máxima tem origem numa história que decorre entre os anos 20 e 80 da nossa era, no chamado Período dos Três Reinos. Um general analfabeto, Lu Mong, valente mas intelectualmente desconsiderado, é destacado pelo seu rei para um palco operacional de grande complexidade. Três anos depois é visitado por Lu Su, o Ministro da Guerra, que verifica, espantado, que Lu Mong tinha resolvido os problemas militares com mestria táctica, inovando sobre a doutrina da guerra. Perante o pasmo do ministro, Lu Mong contrapõe a frase proverbial, que fica para a posteridade.

 

Heinrich von Kleist . 1801 . Otto Krug

O destino segundo Kleist.

No seu conto “Terramoto no Chile”, Heirich von Kleist (1777 – 1811) leva o protagonista a uma situação limite, e a um desenlace que é revelador sobre o ponto de vista um tanto cínico com que o autor encarava a condição humana: Jeronimo Rugera encontra-se preso numa cela em Santiago do Chile. Quando sabe que a sua amada foi condenada à morte, pelo adultério que num mosteiro os dois haviam praticado, desespera e pretende enforcar-se. Feitos os preparativos, sobe a um banco que coloca o seu pescoço à altura da forca e prepara-se para o impulso final quando se dá um terramoto. Perdendo o equilíbrio, Jeronimo esquece o desespero e agarra-se, para se salvar, à corda da forca que no instante anterior o iria matar.

Kleist, que acabou até e de facto por se suicidar, mostra através deste pequeno mas grandiloquente episódio que mesmo quando tudo o que queremos é morrer, não queremos morrer por vontade dos deuses. Queremos morrer por livre arbítrio. Bem vindos ao romantismo alemão.

 

Quanto devem os mendigos à nobreza.

Reportam “As Farpas” que o acontecimento elegante do mês de Agosto do ano de 1871 foi uma tourada que a mocidade fidalga de Sintra organizou em favor dos pobres daquela vila. Assistiu El-Rei e a Corte. Os touros eram bravos e os lidadores destemidos. A imprensa fez escândalo por causa dos resultados financeiros do evento, que achou parcos:

Conta da nobreza com os mendigos de Sintra:
Produto do espectáculo – 1.082$440
Despesa feita – 945$980
Deve a nobreza aos mendigos – 136$460

O autor deste artigo d’As Farpas (ou Eça ou Ramalho) não percebe a ira nos jornais. Suponhamos que a audiência tivesse registado metade dos números.

Conta dos mendigos de Sintra com a nobreza:
Produto do espectáculo – 541$220
Despesa feita – 945$980
Devem os mendigos à nobreza – 404$760

Neste caso, sim, poderia a imprensa clamar por sangue!

 

Retrato de Joachim Murat . François Gérard . 1804 (detalhe)

Murat e os elefantes de Troia.

“A Sombra da Águia”, que Arturo Pérez-Reverte publicou em 1993 nas páginas do El País sob a forma de folhetim, é uma das obras que melhor espelha o virtuosismo literário do seu autor e o seu afiado sentido de humor. A narrativa é baseada num acontecimento real: em 1812, durante a Campanha da Rússia, num combate adverso para as tropas napoleónicas, um batalhão de antigos prisioneiros espanhóis, alistados à força no exército francês, tenta desertar, fugindo para a frente russa.

Interpretando erroneamente o movimento, o Imperador encara-o como um ato de heroísmo e envia em seu auxílio uma carga de cavalaria. A certa altura, Pérez-Reverte inventa um diálogo delicioso entre Napoleão e Joachim Murat, um dos generais mais destacados das guerras revolucionárias, mas não propriamente o mais letrado, fragilidade que o romancista leva ao limite caricatural. Murat tenta relatar da forma mais colorida possível o resultado da equivocada carga de cavalaria, só para se espalhar ao comprido do seu truncado domínio lexical e das suas pobres referências literárias.

O caso, Sire – continuou – É que carregámos juntamente com eles contra os canhões, quer dizer, daquela maneira, e depois, enquanto eu reagrupava os meus cavaleiros, eles continuaram a correr como lhes apeteceu em direcção à povoação, mesmamente atrás dos russos, e atravessaram-na de ponta a ponta, assim, abaloando dois esquadrões de cavalaria cossaca.
– Abalroando, Murat.
– Bom, Sire. Abalroando ou abaloando, o caso é que limparam o sebo aos russos. Foi, quer dizer… – O caracóis franziu o sobrolho, procurando uma frase que resumisse graficamente o espectáculo – Foi osmérico.
– Osmérico?
– Sim. Sabeis, Sire: Osmero. Aquele general zarolho que conquistou Tróia. O dos elefantes.