Num paper recentemente publicado na Nature é revelado aquilo que toda a gente que tem interesse pela Ciência e que acompanha os seus desenvolvimentos já pressentia, mesmo que secretamente: a perseguição pela natureza da realidade está, no Século XXI, em declínio de relevância e produtividade.
As teorias do progresso científico e tecnológico consideram a descoberta e a invenção como processos endógenos, em que o conhecimento acumulado anteriormente proporciona avanços no futuro, permitindo aos investigadores, nas palavras de Newton, “colocarem-se aos ombros de gigantes”. As últimas décadas testemunharam um crescimento exponencial no número de cientistas, universidades, professores e também do volume de trabalho produzido, criando assim condições óptimas para avanços significativos no conhecimento humano. No entanto, contrariamente a esta visão, estudos sugerem que o progresso está a abrandar em vários domínios importantes.
O paper de Michael Park, Erin Leahey e Russel J. Funk analisa estas alegações num trabalho de pesquisa de largo espectro, que abrange as últimas seis décadas, utilizando dados sobre 45 milhões de trabalhos e 3,9 milhões de patentes, no quadro de uma nova métrica quantitativa – o índice CD12 – que caracteriza a forma como os trabalhos e patentes mudam as redes de citações em ciência e tecnologia.
“A pesquisa verifica que os documentos e patentes são cada vez menos susceptíveis de romper com o passado de formas que levam a ciência e a tecnologia para novas direcções. Este padrão é universal em todos os campos e é robusto em várias métricas diferentes baseadas em citações e textos publicados. Os resultados sugerem que a diminuição das taxas de disrupção epistemológica pode reflectir uma mudança fundamental na natureza da ciência e da tecnologia.”
Embora o século passado tenha testemunhado uma expansão sem precedentes do conhecimento científico e tecnológico, existem preocupações de que a actividade inovadora esteja a abrandar. Os estudos documentam o declínio da produtividade da investigação em semicondutores, produtos farmacêuticos e em muitos outros campos. Documentos, patentes e mesmo pedidos de concessão tornaram-se menos inovadores em relação a trabalhos anteriores e menos susceptíveis de ligar áreas díspares do conhecimento, precursoras da inovação. O fosso entre o ano da descoberta e a atribuição de um Prémio Nobel também aumentou, sugerindo que as contribuições de hoje não estão à altura do passado. Estas tendências têm atraído cada vez mais a atenção dos decisores políticos, uma vez que representam ameaças ao crescimento económico, à saúde e bem-estar dos seres humanos, à segurança das nações e aos esforços desenvolvidos pelas elites, pelas academias e pela imprensa em convencer as populações sobre as alegadas alterações climáticas.
Numerosas explicações para este abrandamento têm sido propostas e são descritas no paper. Uma delas, é a dimensão crescente do corpo do conhecimento: cientistas e inventores requerem cada vez mais formação para alcançar as fronteiras dos seus campos, deixando-lhes menos tempo para fazer avançar essas fronteiras. Àquelas que o paper não denuncia, o Contra acrescenta: a politização das academias, o fascismo woke que por lá impera e que consome energias, destrói carreiras e oblitera o livre arbítrio; a impreparação que as gerações mais novas evidenciam para enfrentar o risco e a adversidade; a tendência crescente para o uníssono em todas as áreas do conhecimento, que rejeita a dissidência, a dialéctica e o debate e promove o condicionamento mandatório aos cânones e a idolatria da “ciência estabelecida”; a visão distorcida da missão da ciência, que é descritiva e não explicativa; o endeusamento da figura do cientista, o enriquecimento de professores e cientistas e a opulência das academias e dos institutos científicos, que criam desvios de carreirismo e ganância e pressões de manutenção do status quo, são factores que não podem, neste contexto, ser ignorados.
Por outro lado sabemos que a qualidade intrínseca das publicações científicas está em declínio: num famoso ensaio que até já data de 2005, John P. A. Ioannidis demonstrou estatisticamente que a maioria dos papers que são publicados apresentam falsos resultados. É difícil de projectar a disfunção cognitiva que este facto desencadeia na comunidade científica.
Ainda assim, permanecem insondáveis muitos dos factores que contribuem para o abrandamento da actividade inovadora, e é difícil avaliar a profundidade e amplitude do fenómeno.
Num recente clip sobre o assunto, Anton Petrov começa por fazer algum humor com as conclusões do paper da Nature, mas rapidamente percebemos que o declínio do conhecimento científico não é para brincadeiras. É mais um eixo de queda civilizacional.
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