“The reason I do it is because if you do it wrong it will kill you.”
Guy Martin
Não há corrida de motos como a Isle of Man Tourist Trophy. Aliás, não há em todos os desportos motorizados um corrida como esta, ponto. Na verdade podemos até dizer que não existe à superfície da Terra outro evento desportivo que se compare, porque nos seus 115 anos de história, que contabilizam 101 corridas, o célebre traçado de estradas públicas com 60 kms de extensão matou 265 pilotos, considerando motos e sidecars.
Mas convém talvez dar um contexto ao texto: a Ilha de Man é uma dependência da Coroa do Reino Unido, que inclui a ilha principal, do mesmo nome, e algumas ilhotas adjacentes. O território faz parte do conjunto geográfico das Ilhas Britânicas, e situa-se no mar da Irlanda, aproximadamente equidistante do oeste da Inglaterra, do sul da Escócia e do leste da Irlanda do Norte. Tem cerca de 48 km de comprimento e entre 13 e 24 km de largura, com uma área de 572 km². As duas áreas montanhosas são divididas por um vale central. O extremo norte da ilha é excepcionalmente plano. Vivem aqui cerca de 80.000 almas.
O Isle of Man TT é uma corrida de motos e sidecars realizada anualmente nas ruas e estradas da ilha, que são fechadas ao público por um acto legislativo de Tynwald, o parlamento local. O evento dura duas semanas, entre sessões de treino e corridas. Na “Mad Sunday” cumpre-se uma tradição iniciada nos anos 20 do século passado, em que qualquer pessoa pode fazer o percurso em mota, num evento informal e não oficial sancionado no Domingo entre a semana de treinos e a semana de corridas.

O Isle of Man TT é a corrida de motas mais antiga do mundo, mas também a mais perigosa. Entre 1946 e 2022, a única edição do Troféu em que não morreu ninguém foi a de 1982. Em 2022 morreram quatro pilotos e um tripulante. O repórter da Sports Illustrated Franz Lidzda chamou-lhe os “60 quilómetros de terror”. Os pilotos percorrem um percurso extenuante ao redor da ilha em estradas sinuosas e irregulares, normalmente usadas pelo tráfego quotidiano, atingindo velocidades superiores a 300 kms/h.
Quando não estão preocupados com sulcos, lombas, sarjetas e desníveis vários, os pilotos tentam evitar animais vadios e detritos, casas, muros de pedra, árvores, paragens de autocarro, postes eléctricos e cabines telefónicas que se alinham nos sectores urbanos do circuito. E quando sobem à montanha, os declives, as ravinas e a geada são uma ameaça constante.
Cumprir uma volta rápida, numa moto de competição, ao Snaefell Mountain Course é um exercício apenas acessível a tresloucados ou virtuosos ou as duas coisas ao mesmo tempo. Nos segmentos urbanos, a sensação de velocidade é assustadora, porque a pitoresca mobília citadina funciona como delimitador da pista e o efeito de túnel é brutal. No descampado, a vertigem dos declives montanhosos acaba com a valentia de qualquer ser humano que carregue um mínimo de sensatez na consciência. Mais a mais, há muitos ganchos e roscas, uma boa quantidade de esquinas de 90º e várias mudanças de direcção que não mostram o seu fim, o que, num circuito com muitas dezenas de quilómetros e mais de duas centenas de curvas, exige do piloto boa memória, reflexos extraterrestres e uma dose desmedida de auto-confiança.
A competição é estruturada no formato de contra-relógio, mas os pilotos são lançados em pista de dez em dez segundos, o que leva na práctica à competição directa entre os concorrentes. Realizam-se várias provas em diversas categorias, sendo que na categoria sénior, a principal, a corrida dura cerca de uma hora e quarenta e cinco minutos e obriga homens e máquinas a seis duras voltas ao circuito. Há sempre muitas desistências, já que o desafio é também muito exigente com as máquinas.
Para além das volumosas baixas em pilotos e tripulantes de sidecars, os acidentes também matam os comissários de pista e espectadores. Para além disso, durante todo o ano os amadores que fazem o circuito são vítimas da sua traiçoeira extensão. Não existem registos fiáveis de fatalidades para as dezenas de milhares de visitantes que anualmente dão uma voltinha pelo circuito lendário, mas uma estimativa local calcula a taxa de mortalidade tão alta quanto três para um: três mortes de amadores para cada morte profissional. Essa proporção colocaria o número de óbitos entre os visitantes em mais de 700.
O Isle of Man Tourist Trophy é um desafio alucinante e anacrónico, num momento da história em que a segurança é uma das preocupações dos desportos motorizados em particular, e das sociedades em geral. Mas talvez porque o risco seja, nesta corrida de doidos, uma realidade estatisticamente significativa, a glória dos vencedores é directamente proporcional aos perigos que enfrentam, e os fãs do motociclismo veneram como deuses os grandes nomes desta corrida, como Joey Dunlop, John McGuinness, Dave Molyneux ou Ian Hutchinson.
E para além de tudo mais, trata-se de um evento realmente espectacular, em que o público, por estar tão perto da pista, consegue de alguma forma experimentar a adrenalina da velocidade e, na verdade, correr também alguns riscos. Afinal, dos espectadores aos pilotos, dos comissários de pista aos mecânicos, toda a gente que no mês de Setembro se reúne nesta ilha sofre da mesma doença: a febre da velocidade.
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Dados estatísticos:
Pilotos com dez vitórias ou mais:
Joey Dunlop – 26; John McGuinness – 23; Michael Dunlop – 21; Dave Molyneux – 17; Ian Hutchinson – 16; Mike Hailwood 14; Bruce Anstey, Ben Birchall, Tom Birchall – 12; Steve Hislop, Phillip McCallen – 11; Giacomo Agostini, Robert Fisher, Ian Lougher, Stanley Woods – 10.
Recordes:
O recorde de volta para a corrida Sénior TT é de 16 minutos e 42,778 segundos, a uma velocidade média de 217,989 km/h, estabelecida por Peter Hickman em 2018. O recorde da corrida também é de Hickman: 1 hora, 43 minutos e 08.065 segundos; à velocidade média de 211.951 km/h, alcançada durante a mesma corrida.
O recorde de volta para a corrida Sidecar TT é de 19 minutos e 22,928 segundos, a uma velocidade média de 187,968 km/h, estabelecida por Ben Birchall e o tripulante Tom Birchall, durante a corrida Sidecar TT 1 de 2016. O recorde de corrida para o Sidecar TT é de 58 minutos e 24,971 segundos, à velocidade média de 187,101 km/h, recorde obtido pela mesma equipa, mas em 2015.
Nos treinos de TT de 2006, o neozelandês Bruce Anstey alcançou o recorde de velocidade máxima, 332 km/h, no final da reta Sulby, aos comandos de uma Suzuki 1000cc.
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