O Vento Sopra de Longxi, a série dramática chinesa de 2022 dirigida por Lu Yang, é um produto que não tem grandes paralelos na produção televisiva contemporânea. Cinemática e cenograficamente deslumbrante, técnica e criativamente sofisticada, a série encanta e confunde, vicia e tortura, numa épica, arrebatadora e multidimensional história de espionagem que decorre no período dos 3 Reinos.
A acção desenrola-se no ano de 228, um momento da história da China, entre 220 e 280, marcado pela confrontação, ora declarada, ora dissimulada, de três estados rivais – os reinos de Wei, Shu e Wu.
Uma batalha decisiva entre as forças de Shu e de Wei, com desfecho favorável para estes últimos, acaba de eclodir. Mas os líderes militares no estado de Shu acreditam que o resultado do confronto foi influenciado por uma campanha de desinformação que levou a um erro crítico de julgamento no tempo real da contenda. Eles acreditam que essa operação foi planeada e desenvolvida por Chen Gong, um poderoso espião Wei. Os líderes da agência de inteligência de Shu respondem enviando para território inimigo um ás da contra-inteligência, Xun Xu. Mas quando Xun Xu persegue a identidade de Chen Gong, descobre que o responsável pela operação de desinformação pode na verdade ser um espião conhecido como o Dragão da Vela e que, ao invés de ser um espião inimigo, Chen Gong é um agente infiltrado que trabalha para a sua agência. Pior ainda, o Dragão da Vela colocou em prática planos que podem colocar nas mãos das forças de Wei os projetos secretos de uma poderosa besta de repetição. Se o inimigo capturar esses projetos, o seu exército poderá ser equipado com a arma, virando a maré da guerra a seu favor… de uma vez por todas. Xun Xu e Chen Gong não têm escolha a não ser unir forças. E a dupla de espiões deve agir rapidamente, decifrando códigos e fugindo de armadilhas a cada passo, de forma a salvar seu reino da ruína.
O argumento é intrincado ao ponto de ensandecer o espectador, da mesma forma que condena os personagens a um percurso errático entre a virtude e a vilania, a fidelidade e a traição, o dever e o sacrifício. Aqui, ninguém confia em ninguém: a polifonia das identidades é labiríntica, a disparidade de motivações é fractal, numa espiral de verdades e mentiras em que somos envolvidos e que está constantemente a desafiar as escassas referências e vagas coordenadas a que nos conseguimos agarrar para decifrar a trama de espelhos a que somos submetidos. A verdade é que apenas nos derradeiros momentos das 20 horas que dura a primeira época conseguimos enfim construir uma imagem íntegra do drama a que, de qualquer forma, ficámos agarrados logo nos primeiros minutos da episódio primeiro.
O Vento Sopra de Longxi é por isso uma experiência exigente para o espectador, que não é poupado a equívocos e a desorientações várias, mas que compensa pela imersão e pelo mistério, como se os densos e poligonais enigmas do enredo tivessem que ser resolvidos não apenas pelos personagens, mas também por quem, do outro lado do monitor, testemunha as suas desventuras.
Não há, nos 24 episódios da produção, um momento de descuido: os planos são cuidadosamente trabalhados e os enquadramentos são belos como obras de arte, os diálogos são burilados até à mais irrepreensível economia semântica, a correcção de cor projecta-nos para um universo coerente de sombras e contrastes que intensificam o carácter complexo do drama, e a direcção de actores está a um nível que só encontramos, no Ocidente, em momentos de excepção performativa, sem nunca ceder ao exibicionismo ou à sobre-representação.
Uma série que recusa facilitismos, que exige entrega e concentração máxima por parte do espectador, mas que lhe oferece consolação estética e intelectual como poucas produções actuais se mostram capazes de materializar. Disponível no Youtube e na plataforma de streaming Viki, com legendas em inglês nos dois casos, O Vento Sopra de Longxi é uma produção que o ContraCultura recomenda vivamente.
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