Donald Trump tem uma mensagem para os americanos que desconfiam dos centros de dados e rejeitam a sua proliferação absurda: estão a cometer um erro tolo.

Numa bizarra entrevista ao seu antigo advogado, Michael Cohen, divulgada pela Forbes, o presidente fez questão de defender a obsessão da indústria da IA ​​pelos data centers, contrariando a opinião da grande maioria dos eleitores norte-americanos.

Durante a entrevista, o presidente dos Estados Unidos, afirmou a este propósito, com a sua característica eloquência de especulador imobiliário:

“Francamente, as comunidades que não aceitam um centro de dados estão a cometer um erro. Há muitas comunidades que os querem. São espertas.”

Por consequência: as comunidades que não querem receber mostrengos industriais altamente poluentes e consumidores de recursos que fazem não se sabe bem o quê, servem não se sabe bem que agenda transhumanista e criam, que se saiba, nenhuma prosperidade, não são espertas.

O seu discurso não é propriamente inspirador, ou particularmente verossímil, recorrendo a noções falaciosas de que a IA criará novos empregos (!!!) e trará “enormes receitas fiscais” às cidades que sofrem de décadas de pobreza e negligência.

 

 

Apesar da ampla reacção negativa que os construtores de centros de dados enfrentam de todos os lados do espectro político e social, Trump intensificou o seu apoio aos esforços da indústria de IA para levantar ainda mais destas abominações industriais.

Isto num contexto em que o Partido Republicano enfrenta uma possível reconfiguração política durante as eleições intercalares nos EUA, em Novembro. Na semana passada, os estrategas do partido no Ohio emitiram um memorando preocupado, implorando à indústria tecnológica que resolvesse a sua crise de relações públicas em torno dos centros de dados, por temerem que os democratas obtivessem uma grande vitória explorando o sentimento público.

 

 

É provável que as manobras do presidente a favor dos centros de dados prejudicarão o seu próprio partido em Novembro, mas é evidente que ele não recebeu o recado (ainda não passou na Fox News). O importante é mostrar serviço aos patrões do eixo Wall Street-Silicon Valley.

Há ainda um detalhe nesta notícia que deve ser sublinhado. O entrevistador na circunstância da citação que destacámos é Michael Cohen, um ex-advogado do magnata de Queens que em 2019 foi testemunha de acusação perante o Comité de Supervisão e Reforma da Câmara dos Representantes, na altura dominado pelos democratas, no processo de destituição que visava cessar o primeiro mandato presidencial de Donald Trump. No seu depoimento, Cohen classificou o seu antigo cliente como “racista, vigarista e trapaceiro”, acusando-o de más práticas, incluindo pagamentos a Stormy Daniels para que mantivesse a boca fechada, negociatas manhosas a propósito da Trump Tower em Moscovo, sobrevalorização de activos e outros comportamentos de baixo índice ético.

O simples facto de Trump permitir ser entrevistado por esta espécie viscosa de ser humano é só por si um outdoor 8×3 de cor magenta que informa a navegação sobre o processo radical de reversão ontológica a que foi submetido o actual inquilino da Casa Branca.