Introdução: o paradoxo do ruído.
A sociedade de hoje vive uma ironia histórica. O mundo cabe agora nos dispositivos portáteis. Mesmo assim, a sensação de desorientação nunca foi tão forte. O acesso rápido à informação global não resultou em cidadãos mais informados. Pelo contrário, aumentou o cinismo e o cansaço das pessoas. A crise do jornalismo vai além do fim de modelos de negócio ou da mera mudança tecnológica. Patenteia uma fratura profunda na forma como todos veem a realidade. A antiga ‘Ágora’, um espaço de debate baseado em factos partilhados, deu lugar a um cenário fragmentado. Hoje, a verdade tornou-se algo disputado entre algoritmos e ideologias.
1. A ditadura do engajamento: quando o algoritmo devora o editor.
A figura do jornalista como guardião (gatekeeper), mediador responsável por filtrar o ruído e escolher o que é vital para a saúde da esfera pública, perdeu espaço para a desordem digital.
Com a passagem para o mundo das plataformas digitais, a escolha do que merece atenção deixou de ser feita sobretudo por jornalistas e editores e passou a depender dos algoritmos. O problema é que estes sistemas têm dificuldade em distinguir o que é realmente importante do que é apenas superficial ou sensacionalista.
Hoje, aquilo que ganha mais visibilidade nem sempre é o que tem maior qualidade ou interesse público. É, muitas vezes, aquilo que consegue provocar emoções fortes — sobretudo indignação, medo ou revolta.
Os algoritmos não avaliam se uma informação é verdadeira ou falsa. O que lhes interessa é saber se ela chama a atenção, gera cliques, comentários e partilhas. Assim, a indignação tornou-se uma espécie de moeda em circulação no debate público, favorecendo a polémica, a divisão e a polarização da sociedade.
Conteúdos que causam raiva, indignação ou medo ganham o maior destaque. Ao mesmo tempo, temas importantes, mas considerados “pesados”, como mortes de migrantes, crises humanitárias e perseguições a grupos étnicos ou religiosos ficam amiúde invisíveis.
Nesse cenário, o cuidado jornalístico muitas vezes parece atrapalhar a velocidade. A importância do conteúdo é abandonada em favor do apelo emocional. Com isso, surge uma ordem de destaque distorcida. Os conteúdos mais sensacionalistas isolam as pessoas em “bolhas” de confirmação.
2. O complexo industrial da fantasia: a verdade como crachá ideológico.
A desinformação de hoje não vem só de erros de leitura ou de pouca literacia mediática. Ela é o motor de um complexo industrial da fantasia. Espalhar notícias fake news (notícias falsas) ou apresentar versões distorcidas tornou-se uma forma de afirmar uma ideologia. Isso funciona como símbolo de pertença a certos grupos. O conteúdo circula não porque seja verdadeiro, mas porque serve como marca identitária.
Neste ambiente de pós-verdade, as pessoas rejeitam os factos como “falsos” assim que e vão contra a história principal do grupo (a ‘narrativa’). O perigo não está só na mentira direta. Também está na perda constante de confiança.
O objetivo da desinformação não é apenas fazer alguém acreditar em algo falso (fake). Busca também espalhar dúvida e desconfiança.
Ao minar a autoridade de árbitros científicos e jornalísticos, a desinformação impede a sociedade de reconhecer mediadores legítimos. Isso deixa as pessoas sem referências comuns e vulneráveis a líderes que oferecem soluções baseadas em ficções reconfortantes.
3. O diagnóstico terminal: a crise da autoridade epistemológica.
Vivemos uma época em que a confiança no conhecimento especializado está em queda. Muitas pessoas questionam o valor da ciência, da pesquisa universitária e dos especialistas. Isso se deve, em parte, ao acesso fácil à informação na internet. Hoje, qualquer um pode opinar sobre temas complexos, o que faz parecer que todas as opiniões têm o mesmo peso. Em suma, abundam os “tudológos”.
Antes, a autoridade epistemológica ficava nas mãos de quem estudava ou trabalhava em áreas específicas. Agora, vemos uma mistura de ideias provenientes de fontes variadas. Essa mistura enfraquece o papel dos especialistas. As redes sociais agravam essa crise. Notícias falsas e teorias da conspiração espalham-se rapidamente, confundindo quem procura entender o mundo.
Essa situação torna difícil separar factos de opiniões. O excesso de informações, muitas vezes sem filtro, leva à dúvida e ao cepticismo. Como resultado, cresce a desconfiança não só das instituições, mas também das pessoas que dedicam a vida ao estudo e à pesquisa.
A sociedade de hoje vive um paradoxo importante. Nunca foi tão fácil produzir informação, mas nunca foi tão difícil encontrar informação confiável. Essa situação não é um problema passageiro. É um sinal de uma crise profunda que se manifesta em três áreas importantes.
– Crise Económica: O colapso do modelo de financiamento tradicional, com a publicidade a fugir para o duopólio tecnológico, resultou em redações precarizadas. O tempo de investigação foi substituído pela pressão por conteúdos instantâneos e baratos.
– Crise Epistemológica: A perda da capacidade coletiva de distinguir factos de opiniões. Quem, hoje, poderá dizer com legitimidade o que aconteceu? O cientista, o algoritmo ou o cidadão com um smartphone e uma conta numa rede social? O conflito entre autoridades provoca paralisia cognitiva no espaço público.
– Crise Institucional: A ideia de que os meios de comunicação deixaram de ser árbitros independentes e passaram a ser partes interessadas cresce tanto por ataques populistas quanto por falhas reais de transparência e de distanciamento crítico.
4. A canibalização digital: IA e a expropriação de valor.
A Inteligência Artificial Generativa é mais do que uma ferramenta comum. Ela funciona como um mecanismo que adquire valor intelectual. Essas plataformas enchem o mercado com conteúdo sintético e barato. Elas são treinadas com o trabalho de verificação e contextualização realizado por jornalistas, sem pagar nada nem pedir permissão. Isso enfraquece ainda mais uma estrutura já frágil. Esses sistemas usam o legado do jornalismo para se alimentar e depois brigam pela mesma atenção do público.
Esta crise traz consequências graves para as pessoas. Redações cansadas e com poucos recursos não conseguem proteger os seus profissionais. Vemos campanhas de assédio online e intimidação digital, muitas vezes com foco maior em mulheres jornalistas. Com o colapso da estrutura do jornalismo, a fiscalização do poder cai. Os grupos mais vulneráveis ficam com menos voz.
5. A última fronteira: o jornalismo contra a máquina de conteúdos.
É urgente fazer uma distinção clara. A indústria de conteúdos oferece ao cidadão o que este quer consumir, como entretenimento, confirmação de preconceitos e catarse emocional. O jornalismo, por outro lado, foca-se no que é preciso saber: contexto, investigação e contraditório.
No entanto, o jornalismo enfrenta o desafio de competir com a rapidez das redes sociais ou de ser usado politicamente para garantir a sua sobrevivência. Quando as redações adotam discursos ideológicos ou passam a perseguir o poder, em vez de agir como fiscais independentes, perdem a sua principal vantagem competitiva: o rigor. O jornalismo do futuro deve priorizar o ritmo mais lento, recuperando a exatidão perdida na era digital.
A rapidez tornou-se rival da precisão.
A sobrevivência do jornalismo não depende do número de cliques. Depende, outrossim, da sua capacidade de atuar como árbitro confiável. Se se tornar apenas uma voz no meio da polarização, perde o motivo de existir.
Conclusão: a reconstrução da Ágora.
A sociedade de hoje vive numa Ágora fragmentada. A divisão do espaço público vai além das ideias e envolve também questões tecnológicas e existenciais. A democracia não exige que todos tenham a mesma opinião, pois isso acabaria com o pluralismo político. No entanto, precisa de um acordo sobre os factos essenciais. Sem uma base comum de realidade, o debate civilizado dá lugar a conflitos constantes entre mundos paralelos que não se comunicam.
A questão central deste período é urgente: será possível reconstruir instituições de confiança e um espaço público em que pessoas com opiniões divergentes reconheçam os mesmos factos? Ou estará a sociedade destinada a permanecer em bolhas de fantasia, nas quais a verdade é definida exclusivamente pela vontade do grupo? A resposta a esta questão determinará se os indivíduos serão cidadãos de uma realidade partilhada ou apenas utilizadores em constante conflito.
FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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