A “singularidade” chegou, segundo Sam Altman. Mas a afirmação tem um motivo escondido, com o rabo de fora.

 

O CEO da OpenAI anunciou esta mudança de paradigma revolucionária no podcast Relentless no fim de Julho, afirmando:

“Estamos agora, tipo, na singularidade.”

As definições variam, mas a singularidade é geralmente definida como o momento em que a capacidade de processamento (Altman diria ‘de pensamento’) de um dado sistema de inteligência artificial começa a acelerar a um ritmo fora do controlo da humanidade, levando possivelmente à criação de uma superinteligência de poder transcendente.

Se isso está realmente a acontecer agora é duvidoso. Mas Altman não tem nada a perder com a promoção desta ideia, e já o faz há muito tempo. Numa publicação de blogue intitulada “A Singularidade Suave”, publicada há quase exactamente um ano, afirmou que a humanidade “ultrapassou o horizonte de eventos; a descolagem começou”, jurando a pés juntos que estávamos perto da tão apregoada entidade supra-algorítmica.

No episódio já referido do Relentless, afirmou:

“Agora estamos realmente a viver o momento sobre o qual costumávamos falar de forma muito descontraída durante o almoço. Esperei por isto toda a vida e acho que será incrível, extremamente positivo, fantástico para o mundo”.

Para o mundo? Talvez. E para os seres humanos? Dificilmente, considerando que vamos ser submetidos, teoricamente, aos desígnios de uma inteligência superior, omnipotente e omnisciente, mas sem nada parecido com uma alma…

Os comentários de Altman surgem dias depois de a OpenAI ter afirmado que vários dos seus modelos de IA, incluindo o GPT-5.6 Sol e, enigmaticamente, um “modelo ainda mais capaz em fase de pré-lançamento”, escaparam do seu ambiente de investigação, obtiveram acesso à Internet e invadiram uma base de dados para encontrar as respostas aos testes de cibersegurança.

A Hugging Face, plataforma de IA de código aberto cuja base de dados foi alvo do ataque das unidades de IA da empresa de Altman, confirmou ter sofrido uma intrusão “executada por uma estrutura de agentes autónomos que realizou milhares de acções individuais”.

Aparentemente, este foi um alerta urgente sobre o quão poderosos os sistemas de IA se tornaram. O incidente foi amplamente aclamado como o “momento Mythos” da OpenAI, uma referência à forma como a sua concorrente, a Anthropic, foi noticiada meses antes, quando o seu modelo Mythos escapou ao controlo dos engenheiros de forma semelhante. Esta comparação não é necessariamente um elogio: a Anthropic foi fortemente criticada por utilizar o incidente como uma forma de marketing baseada no medo, e há quem especule que a OpenAI esteja a tratar o evento como uma jogada publicitária semelhante.

De qualquer forma, os incidentes corroboram as afirmações de Altman de que estamos a viver um momento em que os avanços na IA poderão em breve sair do controlo humano. Se os modelos forem tão poderosos como os seus criadores afirmam, são capazes de destruir as nossas frágeis medidas de cibersegurança. A Anthropic também tem martelado nesta tecla: no mês passado, apelou a uma “pausa” global no desenvolvimento da IA, alegando que a tecnologia estava a caminho de alcançar o auto-aperfeiçoamento recursivo, ou seja, a capacidade de se melhorar constantemente por moto próprio.

Claro que Altman afirma que a sua intenção não é a de assustar as pessoas. E numa crítica velada à Anthropic afirmou:

“Também acho que algumas das visões alternativas apresentadas por outras empresas são bastante assustadoras. Vou garantir que isso é combatido e que não acontece.”

Não vai garantir coisa nenhuma, claro. Este é o homem que está a trabalhar para o fim do Homem, e que certo dia reconheceu:

“Acho que a IA, muito provavelmente, vai levar ao fim do mundo. Mas entretanto, vão ser criadas excelentes empresas.”

O momento em que Altman fez este sansacionalista anúncio também não é casual. A Open AI está a preparar-se para abrir o seu capital ao investimento público, enquanto faz pressão sobre o governo federal americano para que assuma 5% da empresa.

Marketing. Toda esta história da ‘singularidade’ é marketing puro e duro.

Quando a Open AI apresentar ao mundo um sistema de IA que descobriu a cura para o cancro do pâncreas voltamos a falar.