No sábado, o imperador Pogacar foi de cara ao chão, quando viajava a uns bons sessenta quilómetros por hora, na etapa oito da Vuelta. Partiu-se todo e abandonou, deixando a última corrida de três semanas do calendário ciclístico completamente em aberto, de tal forma que, antes da partida para a nona etapa, seria possível fazer uma lista credível com uns bons onze ou doze corredores capazes de levar a camisola vermelha para casa, daqui a quinze dias.
E a primeira etapa sem Pogacar foi uma coisa completamente insana. Um bordel, mesmo. Depois de quatro horas de corrida mais ou menos aborrecidas, apesar de terem implicado várias subidas de suplício, a malta acordou a 21 quilómetros do fim, que era a extensão maluca da ascensão de primeira categoria que levava à meta no Alto de Aitana. Desde o princípio da subida até ao seu término, houve para aí uns dez ciclistas que atacaram a etapa. Sivakov atacou. Mühlberger atacou. Gall atacou (várias vezes). Carapaz atacou. Roglic atacou. Cristián Rodriguez atacou. Buitrago atacou (várias vezes). Onley atacou. Widar atacou. Toda a gente que ainda tinha pernas, mesmo que bambas, atacou. Num dado momento, meio surrealista, Skjelmose, que se tinha atrasado deveras antes até da última escalada e que já ninguém via no monitor da televisão há que tempos, surge de trás e passa os líderes como se tivesse um motor de combustão interna alimentado a etanol – whooosh!
Todos contra todos, num feroz combate montanha acima, os ciclistas que podem (e devem) sonhar com o patamar mais alto do derradeiro pódio de Granada, a 13 de Setembro, desfizeram-se em esforços. Mesmo Felix Gall, que pode ter sido, dos candidatos à vitória final, o que deitou mais a perder neste exercício épico de dar ao pedal, fez figura de herói enorme.
No fim, o primeiro a cortar a meta foi o atleta que, neste momento, parece de facto ser o mais forte, entre o pelotão alucinado: Enric Mas.
E há aqui uma ironia, daquele género retorcido e mordaz que os deuses do ciclismo gostam de servir com entretida recorrência à plateia global: o cabeça de fila da Movistar, sendo um ciclista de primeira água, é psicologicamente fraco, na sua melhor forma um eterno segundo, errante montanhista que teima em passar ao lado da glória, para desespero de todos os espanhóis que sintonizam a modalidade ciclopédica.
Mas foi logo nesta etapa, espécie de epopeia de cinco horas a subir e a descer, que terminou com fogo de artifício e rebentamento de todas as forças físicas humanamente possíveis, que Mas recolheu a vitória mais bonita da sua carreira. O homem que nunca tinha carregado nas costas o peso da liderança de uma volta de três semanas, e que tinha herdado essa posição de liderança por desistência do extraterrestre da Eslovénia, ministrou um verdadeiro mestrado em força bruta e delicada inteligência, que o projecta para um combate final com Roglic, que por quatro vezes já venceu esta prova, e que estando agora a um minuto e vinte do espanhol, tem vantagem grande no contra-relógio da terceira semana.
Mas por aquilo que se viu ontem, ninguém na verdade terá coragem para apostar tudo nesse duelo. Há muita gente de qualidade a menos de quatro minutos do Camisola Vermelha e faltam dois terços da prova para fecharmos as contas.
E se tivermos apenas mais uma etapa que seja apenas um bocadinho parecida com aquela que se correu no domingo, já vai valer a pena seguir a Vuelta do primeiro ao último quilómetro. Porque é como diz o Lanterne Rouge: isto que vimos acontecer, não acontece todos os dias.
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