Como é que Tim Dillon escapa aos tribunais, às turbas woke e ao complexo industrial de censura depois de fazer no seu podcast afirmações arriscadíssimas como a de que os Obama assassinaram uma escrava sexual? Algumas afirmações são politicamente incorrectas, outras são difamatórias e outras ainda são totalmente ilegais. Para a mais acutilante voz satírica da América, vale tudo. Alegadamente.
Durante quase uma década, o comediante tem proferido aqueles que podem ser considerados alguns dos discursos públicos mais ofensivos alguma vez publicados. Sem pagar o preço. Excêntrico, gordinho, maricas, acutilante e hilariante, Dillon diz exactamente aquilo que pensa, geralmente em tiradas construídas de improviso, disparando em todas as direcções e sem ter medo de ninguém, já que ninguém o consegue cancelar. Até porque o que não falta na América é gente que subscreve o que ele diz.
Nada a perder
Não por acaso, foi a partir de 2020 que Dillon decidiu levar o seu discurso a inauditas profundidades de mal dizer, sugerindo que Bill e Hillary Clinton devem ser respeitados “mesmo que sejam assassinos”.
A forma prolixa e cómica de Dillon namorar os assuntos acaba sempre com um tiro certeiro, apesar dele não estar disposto a revelar as suas cartas de imediato. Em primeiro lugar, o público precisa de saber que Hillary é um negociadora fomidável, ou como as mães americanas veneraram Bill durante o seu percurso político e o seu período como governador do Arkansas.
Após cerca de oito minutos de resenha biográfica mais ou menos inofensiva, os espectadores estavam prontos para ouvir o relato da decadência, da podridão e da corrupção espiritual daquele que já foi o casal mais poderoso da América, com afirmações nuas e cruas como a de que Hillary terá cometido assassinatos e que “organizou o suicídio de muitos dos seus agentes dos Serviços Secretos”.
O podcast de Dillon é como ouvir as notícias ditas por um âncora que está no corredor da morte e não tem nada a perder.
Com este método brutal, Dillon acumulou mais de 23 mil subscrições pagas no Patreon, que lhe renderam 1,5 milhões de dólares em receitas. Em 2021, o seu programa foi considerado o sétimo podcast mais rentável da América.
Em 2023, a produção de Dillon tinha perdido todas as restrições, como mostram excertos intitulados “O Desabafo do Meu Filho Sobre a Vagina”, por exemplo. Ao tentar abordar as controvérsias sobre as pessoas transgénero, o pundit de 41 anos fez uma introdução adequadamente ambivalente: “Não quero viver numa teocracia cristã de direita”, preparando o terreno para a parte conservadora do seu público, que, apesar do vernáculo e dos conteúdos gráficos da sua prosápia, constitui a maior fatia da sua audiência.
Depois de lembrar os seus espectadores que estes temas devem sempre ser tratados com tacto, Dillon expressou que é contra procedimentos farmacológicos e cirúrgicos de mudança de sexo em crianças de forma deveras irónica, que se percebe mais pelo tom do que pelo texto:
“Seremos melhores a fazer uma vagina a partir do intestino de alguém? Espero que sim. Literalmente, não estou a brincar. Sonho com um futuro onde tais cirurgias se tornem tão fáceis como ir ao dentista.”
Típico Dillon: levar o discurso neo-liberal a um ponto que percebemos a sua falência moral.
Licença para mal dizer
Esta não foi a primeira vez que Dillon abordou “com tacto” os excessos da comunidade MMIWG2SLGBTQQIA+. Num vídeo de 2019 intitulado “O problema com strippers de 10 anos”, o comediante informou os ouvintes que “se eu for uma mulher e disser ‘Eu sou um rapaz’, ainda assim a coisa não funciona”.
Grande parte do programa de Dillon consiste em descobrir o que não deve ser dito em circunstância nenhuma e, depois, dizê-lo na mesma. “Podes dizer isso porque és gay”, disse Joe Rogan a Dillon em 2020, alegando que a sua mulher não acredita que Dillon seja realmente homossexual. Mas mesmo que o comediante tenha carta verde para abordar temas LGBT, como afirma Rogan (de forma equívoca, porque há muitos homossexuais que foram cancelados pela turba da ideologia de género), ninguém lhe deu um livre trânsito para dizer o que diz sobre outros temas da vida social e política da América. Ele inventou essa licença com carradas de talento e coragem.
Dillon admitiu a Rogan que pode “parecer demasiado racista” por dizer certas coisas (a palavra “demasiado” aqui já é altamente ofensiva, no contexto cultural dos EUA), mas que gosta de as dizer, ainda assim. E di-las mesmo quando corre o risco de ir parar a um tribunal, acusado de difamação.
Exemplo disso é o episódio nº 355 do seu podcast. Dillon conta aos espectadores a sua viagem a Denver, onde fez espetáculos de comédia e se divertiu imenso. Depois de divulgar as datas da sua digressão e de falar sobre as suas observações na cidade de Denver, o nova-iorquino fez mais uma das suas famosas transições da comédia para a política. Após cerca de quatro minutos de monólogo, culminando com a ingestão de um burrito de pimenta verde, Dillon declarou:
“Durante esse tempo em que estive longe de vocês, imagino que tenham ouvido falar, foi no Verão, os Obama mataram uma escrava sexual.”
Um outro célebre momento, mais recente, foi aquele em que aproveitou, claramente de improviso, o segmento de um patrocinador do programa para criticar de forma corrosiva o comportamento de ‘viúva alegre’ de Erica Kirk (a mulher do assassinado Charlie Kirk), vendendo à sua audiência a ideia de que o suplemento alimentar em causa era de tal forma eficiente que permitia à viúva destruída pelo desgosto de ter perdido o seu companheiro e pai dos seus filhos a exuberante performance em grandes palcos da vida política norte-americana, apresentando-se com vestidos de lantejoulas e sorrisos triunfantes entre apoteóticos espectáculos de fogo de artifício e glamorosas campanhas de merchandising.
Língua solta
Seja acusando a família Obama de homicídio, a administração Trump de ser uma organização mafiosa ou o vice-presidente JD Vance de agir como se Jeffrey Epstein nunca tivesse existido, o pano de fundo de todo o podcast tem sido, e sempre será, a liberdade de expressão.
Dillon defendeu veementemente o seu direito ao discurso perante pessoas que realmente o queriam silenciar. Quando foi corrido do Festival de Comédia de Riade por piadas em que dizia que a Arábia Saudita alimentava um sistema económico de natureza esclavagista, o comediante disse em sua defesa que, na verdade, estava a elogiar o regime islâmico:
“Os escravos são provavelmente trabalhadores esforçados e, na sua maioria, dóceis”.
Este é um truque que usa com frequência: a lâmina satírica não está literalmente no texto, mas nas entrelinhas do contexto social, na componente subliminar do tom e da pose, e na própria esquizofrenia daquilo que relata.
Dillon confessa frequentemente que a sua equipa de produção o adverte sobre certos assuntos que não deve abordar porque podem prejudicar a sua carreira, mas a verdade é que parece rejeitar essas cautelas:
“No meu próprio programa, no meu próprio país, onde tenho a liberdade de falar e dizer o que quero, vou ser engraçado e vou ser quem sou. Podes não concordar com isso, mas não tens o direito de me dizer o que fazer no meu próprio programa.”
Neste espírito, Dillon pode criticar o “Good Morning America” por promover uma “drag child” de 11 anos, poder ser “o gay que odiamos”, pode acusar de homicídio ou (no caso de Biden e Trump) de demência sanguinária as figuras mais poderosas da América. O seu livre-trânsito é o seu público.
“A indústria mainstream já não tem poder. Não me podem dizer o que fazer ou dizer. Como assim? Pois se não oferecem nada em troca.”
Afinal, que canal dos meios de comunicação convencionais lhe possibilitaria esta espécie radical de livre discurso, já para não falar do acesso a audiências que contam mais de três milhões de visualizações por podcast? Nenhum, claro. É como ele diz: Só retardados sem sentido de humor é que ainda vêem televisão.
Casos de estudo
Nos últimos dois ou três anos, o Blogville tem vindo a partilhar alguns dos mais assertivos e hilariantes momentos do podcast de Tim Dillon. Desses que destacámos, deixamos quatro, para evitar exaurir a audiência.
Neste clip de 2024, o humorista desmonta a monumental máquina absurda em que se transformou o New york Times, que enquanto Israel matava cerca de dez mil civis por mês em Gaza, se entretinha com relatos de espanto sobre a qualidade da engenharia dos túneis que o Hamas perfurou.
Neste segmento de 2026, que é triste e genial ao mesmo tempo, Tim Dillon constata o óbvio: em teoria, vivemos no melhor dos mundos que a civilização alguma vez ofereceu ao ser humano. Na prática, vivemos no pior dos infernos da história universal.
Sete minutos de terrível lucidez.
Neste segmento de um outro episódio, o comediante norte-americano liberta um corrosivo exercício satírico sobre a aparente predisposição do regime Epstein para desencadear a III guerra mundial, explorando com espírito aquela que é talvez a mais preocupante de todas as teorias da conspiração: o objectivo último das elites ocidentais é o da redução drástica e substancial da população mundial.
Tem piada. Até ao ponto em que percebermos que a teoria da conspiração pode, como tantas outras, estar entrincheirada na realidade dos factos.
E neste recente podcast, emitido em Julho deste ano, Dillon parte completamente a loiça da grande cozinha Epstein, ao rejeitar a retórica da administração Trump, que se desculpa com e se queixa do Estado profundo, quando neste momento é a mais pura representação desse mafioso conglomerado de luciferinas intenções.
“Continuam a tentar jogar este joguinho de passarem por gente comum, com quem as pessoas se identificam, do género ‘pois, estas elites malditas estão a roubar-te o dinheiro’. O quê? Quem? Vocês é que estão a fazer isso. Vocês são os responsáveis. E contam com alguns dos vossos apoiantes mais fervorosos, aqueles que não estão a ser pagos directamente, que são as pessoas mais estúpidas do mundo. Então, isto ainda funciona com eles. Ficam tipo: ‘É, a Hillary. A Hillary Clinton.’ Mas são eles que estão na Casa Branca! Eles controlam o Congresso! Eles controlam o Senado! Eles controlam o Supremo Tribunal. São eles. Agora, são eles. Não quero ouvir falar mais do Estado profundo. Vocês estão a fazer-me de parvo. Estão a fazer todo mundo de parvo. Vocês trouxeram o Cash Patel. Vocês trouxeram aquele outro tipo, o Dan Bongino. (…) Vocês trouxeram a Pam Bondi e depois correram com ela. Estou farto de ouvir toda a gente a falar desse Estado profundo. É preciso ser uma das pessoas mais estúpidas do mundo para acreditar nisto, por esta altura. O Estado profundo são vocês. Odeio usar esta palavra, mas isto é constrangedor. É literalmente constrangedor. Assistimos a isto e pensamos: ‘Sinto tanto nojo de que ainda achem que as pessoas vão acreditar nisto.’
A revolta é partilhada por milhões. E é difícil calar essa concórdia.
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