Em agosto de 2026, o mapa da Ucrânia transmite uma sensação enganadora de imobilidade. As linhas da frente parecem relativamente cristalizadas e as alterações territoriais são, em termos comparativos, marginais. Mas, sob essa aparente paralisia, a natureza do conflito está a mudar profundamente. A guerra de movimento deu lugar a uma guerra de atrição, na qual a capacidade de resistência industrial, económica, demográfica e institucional passou a ser tão importante — ou mais — do que a conquista de território. É esta realidade que deverá determinar o curso de 2027.
É essencial, neste contexto, distinguir entre capacidade de resistência e capacidade de vitória. A primeira significa dispor dos recursos necessários para evitar o colapso e continuar a combater; a segunda pressupõe reunir uma massa de manobra suficiente para infligir ao adversário uma derrota militar capaz de produzir uma capitulação política. Ora, tudo indica que nenhum dos contendores dispõe actualmente dos meios necessários para alcançar uma vitória militar decisiva. A guerra transformou-se, assim, numa equação de exaustão, em que o problema fundamental deixou de ser saber quem conquista mais território e passou a ser saber quem consegue suportar durante mais tempo o custo humano, económico e material do conflito.
A Rússia parte de uma posição aparentemente mais favorável. Possui uma população muito superior à ucraniana, uma base industrial de defesa considerável e capacidade para canalizar uma parcela muito elevada dos seus recursos económicos para o esforço de guerra. Beneficia ainda do apoio, directo ou indirecto, de países como a China, o Irão e a Coreia do Norte. Mas também Moscovo começa a confrontar-se com a inexorável lei dos rendimentos decrescentes. A estratégia de evitar uma mobilização geral, politicamente arriscada, tem levado o Kremlin a recorrer cada vez mais ao recrutamento de voluntários mediante incentivos financeiros extremamente elevados, enquanto procura preservar a normalidade nas grandes cidades.
O problema é que a guerra exige um fluxo permanente de efectivos. Quando o número de homens incorporados se aproxima ou fica aquém do número de baixas, feridos e efectivos retirados da frente, a capacidade de regeneração das unidades começa a deteriorar-se. A Rússia tem conseguido compensar parte dessas dificuldades através de salários e prémios de recrutamento extraordinariamente elevados e de uma crescente pressão sobre o mercado de trabalho. Mas essa política tem custos: retira trabalhadores à economia civil, agrava a escassez de mão-de-obra e aumenta a pressão inflacionista. A questão que se coloca a Moscovo é, por isso, cada vez mais difícil: até onde poderá prolongar a guerra sem ter de escolher entre uma mobilização social mais profunda e uma redução dos seus objectivos estratégicos?
Mas se a Rússia luta sobretudo contra as suas limitações demográficas e económicas, Kiev enfrenta uma dependência crescente do apoio financeiro e militar ocidental. Trata-se de um verdadeiro sufoco económico insustentável. A economia ucraniana continua a funcionar, mas em condições excepcionais, com um enorme défice orçamental e uma parte substancial das despesas do Estado dependente do financiamento externo. O esforço de defesa absorve recursos que, em circunstâncias normais, seriam destinados à reconstrução e ao desenvolvimento económico.
Mais grave ainda é o problema dos recursos humanos. A Ucrânia dispõe de uma população muito menor e sofreu perdas demográficas importantes desde o início da guerra, agravadas pela emigração. A mobilização prolongada tem consequências económicas e sociais que se acumulam com o tempo. E existe uma dependência particularmente sensível: a defesa aérea. Sem o fornecimento continuado de sistemas e munições ocidentais, a Ucrânia fica muito mais vulnerável aos ataques russos contra a rede eléctrica, infra-estruturas críticas, indústria e centros urbanos.
É neste momento que surge o verdadeiro ponto de Arquimedes da guerra: Washington. A sobrevivência militar da Ucrânia não depende apenas da capacidade dos seus soldados ou da sua indústria; depende, em larga medida, da continuidade do apoio americano e europeu. A Europa aumentou substancialmente o seu esforço, mas continua a enfrentar limitações industriais e dificuldades em substituir rapidamente determinadas capacidades fornecidas pelos Estados Unidos. Por isso, qualquer mudança significativa na vontade política de Washington poderá alterar o equilíbrio estratégico muito mais rapidamente do que uma alteração de alguns quilómetros na linha da frente.
A guerra ucraniana é, neste sentido, também uma guerra política travada no interior do próprio Ocidente. Enquanto os governos europeus insistirem na necessidade de continuar a apoiar Kiev, terão de explicar aos seus eleitorados durante quanto tempo estão dispostos a suportar os custos financeiros e económicos de uma guerra sem uma vitória claramente alcançável. E quanto mais prolongado for o conflito, maior será a pressão para responder à pergunta que permanece sem resposta: qual é exactamente o objectivo final da estratégia ocidental?
É impossível analisar o horizonte de 2027 sem regressar às negociações de Istambul, em 2022. Aquelas negociações demonstraram que, nas primeiras fases da guerra, existia pelo menos um espaço diplomático que posteriormente se foi estreitando. Continua, porém, a ser objecto de controvérsia o papel desempenhado pelos diferentes intervenientes externos e, em particular, o significado da visita de Boris Johnson a Kiev. A postura ocidental então adoptada — de que o antigo Primeiro-Ministro britânico foi um dos mais visíveis protagonistas — terá privilegiado o objectivo de “enfraquecer a Rússia” em detrimento da procura de um compromisso diplomático precoce. Johnson encontra-se hoje afastado da vida política e, apesar da controvérsia que continua a rodear a sua intervenção, parece não lhe serem atribuídas responsabilidades políticas relevantes pelo prolongamento do conflito e pelo fracasso das negociações de 2022.
Transformar essa questão numa explicação simples segundo a qual o Ocidente teria deliberadamente impedido uma paz já praticamente concluída seria, contudo, uma simplificação histórica. As negociações estavam longe de resolver todas as questões fundamentais, e não existe consenso sobre a razão exacta pela qual fracassaram.
O que é indiscutível é que, desde então, o preço de qualquer compromisso aumentou exponencialmente. Morreram centenas de milhares de pessoas, cidades foram destruídas, milhões de ucranianos abandonaram o país e a Rússia consolidou o controlo de territórios que agora considera parte integrante da Federação Russa. As posições políticas endureceram e qualquer concessão passou a ter um custo interno muito maior para as respectivas lideranças.
É precisamente por isso que 2027 poderá representar uma janela de oportunidade — não necessariamente para uma paz definitiva, mas para uma mudança de natureza do conflito. A guerra poderá aproximar-se de uma situação de paridade de exaustão, em que nenhum dos lados dispõe de recursos suficientes para alcançar os seus objectivos máximos, mas ambos continuam a dispor de capacidade suficiente para impedir a vitória do adversário.
As vulnerabilidades são diferentes. A Rússia poderá enfrentar uma crescente erosão das receitas energéticas e maiores dificuldades decorrentes dos ataques ucranianos à sua infraestrutura petrolífera e às refinarias. A Ucrânia, por sua vez, continuará confrontada com a escassez de efectivos, a destruição da infraestrutura e uma dependência estrutural do apoio financeiro e militar externo. E, no centro de tudo isto, estará a capacidade dos dois blocos de sustentar a produção de munições, drones, mísseis e sistemas de defesa aérea necessários para alimentar uma guerra industrial de longa duração.
Neste contexto, o cenário de uma vitória militar total de qualquer dos lados parece cada vez menos plausível. A Rússia dificilmente conseguirá conquistar toda a Ucrânia; a Ucrânia dificilmente conseguirá recuperar militarmente, num horizonte previsível, todos os territórios ocupados. A alternativa começa, por isso, a desenhar-se não como uma solução perfeita, mas como uma solução possível: um armistício que congele a linha de contacto sem resolver definitivamente a questão territorial.
É aqui que surge o chamado “modelo coreano”. Não se trataria necessariamente de um tratado de paz nem do reconhecimento jurídico das anexações russas. Seria antes uma suspensão das hostilidades, acompanhada por uma linha de separação de facto e por negociações prolongadas sobre o estatuto dos territórios ocupados, as sanções, a reconstrução da Ucrânia e as garantias de segurança. A guerra terminaria militarmente sem que o conflito político ficasse verdadeiramente resolvido.
Tal solução seria profundamente insatisfatória para ambos os lados. A Ucrânia teria de aceitar, pelo menos temporariamente, a perda de controlo sobre parte do seu território. A Rússia não obteria necessariamente o reconhecimento internacional das suas anexações nem o levantamento imediato de todas as sanções. E a Europa teria de viver durante muitos anos com uma nova fronteira de segurança altamente militarizada.
Mas a história demonstra que as guerras nem sempre terminam quando um dos contendores é derrotado; muitas vezes terminam quando ambos percebem que o custo de continuar a lutar ultrapassou o benefício de tentar alcançar objectivos adicionais.
É essa possibilidade que poderá tornar 2027 particularmente importante. Não porque exista uma data predeterminada para o fim da guerra, mas porque a acumulação dos custos económicos, demográficos, militares e políticos poderá reduzir progressivamente o espaço para a continuação indefinida do conflito.
O paradoxo da guerra de atrição é precisamente este: pequenos ganhos territoriais podem tornar-se cada vez mais caros à medida que os recursos necessários para os obter se tornam mais escassos. A questão decisiva deixa então de ser quem consegue avançar alguns quilómetros e passa a ser quem consegue preservar durante mais tempo a sua capacidade de combater.
Por isso, o fim da guerra provavelmente não será decidido por uma grande batalha nem por uma súbita vitória militar. Será determinado por uma combinação de factores: a resistência demográfica russa, a sustentabilidade económica ucraniana, a capacidade industrial dos dois lados e, sobretudo, a vontade política dos Estados Unidos e da Europa de continuar a financiar uma guerra sem uma solução militar decisiva à vista.
A Europa enfrenta, assim, um dilema estratégico de enorme dimensão. Se Washington reduzir o seu envolvimento, estará preparada para assumir uma parcela muito maior do esforço necessário para sustentar a Ucrânia? E, se a guerra continuar sem perspectivas realistas de vitória, estará disposta a aceitar um armistício imperfeito, com uma fronteira de facto semelhante à que existe na Península da Coreia?
A resposta poderá determinar não apenas o futuro da Ucrânia, mas a arquitectura de segurança europeia das próximas décadas.
Em última análise, a guerra poderá não terminar porque um dos lados ganhou, mas porque ambos chegaram ao limite do que podem continuar a pagar, produzir e sacrificar. A política poderá continuar a adiar o compromisso; a realidade material, porém, acabará por impor os seus limites.
FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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