Os serviços anti-corrupção ucranianos lançaram buscas sob o nome de código “Operação Forrest Gump”, tendo como alvo, entre outros, a vice-chefe do Gabinete do Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. A acção alarga a investigação em curso, que levou vários altos funcionários do gabinete do presidente ucraniano a fugirem para Israel pouco antes de a polícia invadir as suas casas.
O Gabinete Nacional Anti-Corrupção da Ucrânia (NABU) e a Procuradoria Especial Anti-corrupção (SAPO) anunciaram que estão a conduzir uma operação especial que envolve uma organização criminosa liderada por um membro actual e um antigo membro do parlamento, com a participação de altos funcionários do Gabinete da Presidência da Ucrânia.
Os serviços anti-corrupção anunciaram no Telegram:
“O NABU e a SAPO estão a conduzir uma operação especial com o objectivo de expor uma organização criminosa que operava sob a liderança de um membro actual e de um antigo membro do Parlamento ucraniano, com a participação de altos funcionários do Gabinete da Presidência da Ucrânia e outros indivíduos. Mais detalhes em breve.”
Fontes do Ukrayinska Pravda e de outros órgãos de comunicação social informaram que o NABU e o SAPO estão a realizar buscas, no âmbito desta operação especial, em imóveis pertencentes ao deputado Vadym Stolar, eleito para o parlamento pelo partido Plataforma de Oposição – Pela Vida, actualmente banido. Stolar confirmou as acções de investigação em sua casa e afirmou estar a cooperar plenamente sem obstruir a investigação.
Além disso, Iryna Mudra, a vice-chefe do Gabinete Presidencial da Ucrânia, também é alvo das buscas.
Outras figuras ligadas à investigação, segundo fontes dos media e da polícia, incluem o ex-deputado Maksym Mykytas, funcionários do Ministério da Justiça e a administração do banco estatal Sense Bank. Foram também relatadas buscas nas dependências do banco.
O NABU divulgou excertos de conversas interceptadas.
Os excertos fazem referência a “sacos de dinheiro”, discussões sobre o registo de bens ou rendimentos em nome de crianças, incluindo custos elevados de propinas escolares. O nome “Forrest Gump” é mencionado num contexto de ocultação de roubo e menções ao Gabinete da Presidência.
O nome diz tudo.
A operação recebeu o nome de código “Forrest Gump”, porque aparentemente os implicados conduziam as suas acções fraudulentas de uma forma de tal maneira flagrante que lembram a ingenuidade do célebre personagem interpretado por Tom Hanks, no filme de Robert Zemeckis.
Como escreve o EuroMaidan:
“A operação recebeu um nome irónico, Forrest Gump, inspirado nas próprias palavras dos suspeitos. Numa gravação de 47 segundos de conversas interceptadas, um homem relaciona o nome com a forma como o grupo alegadamente escondia o dinheiro”.
O suspeito ironiza com o facto de um dos conspiradores ter usado o nome dos próprios filhos para registar o dinheiro roubado.
“Temos ‘O Resgate do Soldado Ryan’, certo? Mas só um idiota é que registaria o roubo de dinheiro — e a propina da escola deles também — em nome dos próprios filhos. Isso é ‘Forrest Gump’.”
Os investigadores anti-corrupção ucranianos terão escolhido o nome “Forrest Gump” para destacar estas declarações por parte dos criminosos que estão a investigar.
Outros excertos da conversa fazem referência directa ao dinheiro e à presidência. Uma voz gravada afirma:
“Bem, estão ali quatro sacos de dinheiro.”
Outra voz recomenda:
“Podem ir para o Gabinete do Presidente.”
Um banco no centro da fraude.
Os investigadores alegam que o grupo obteve o controlo efectivo do Sense Bank por volta do início de junho de 2026. De acordo com os detalhes divulgados pela NABU/SAPO no âmbito da operação, o grupo organizou o branqueamento de capitais no valor de 3,5 milhões de dólares em espécie (UAH 150 milhões).
Os fundos foram introduzidos em circulação legal através de contas de empresas de fachada e do Sense Bank para pagar a caução de um dos arguidos no caso “Midas”, que estava ligado ao ex-ministro da Energia e da Justiça, Herman Halushchenko.
O dinheiro terá sido entregue em prestações, processado através de entidades controladas e parcialmente direcionado para a conta de fiança do Tribunal Superior Anti-corrupção. As alegações incluem a expectativa de que Iryna Mudra ajudasse a organizar a angariação destes fundos e que indivíduos não identificados do Gabinete da Presidência a encarregaram de esforços relacionados com um controlo apertado do Sense Bank..
Os investigadores apreenderam também um documento descrito como um manual de comunicação anti-crise, que delineava passos e mensagens para moldar a opinião pública em torno de uma comissão de investigação temporária da Verkhovna Rada, apresentando-a como uma “auditoria, não um ataque”, ao mesmo tempo que protegia o Presidente Zelensky e o seu gabinete.
A investigação também documentou alegadas tentativas de colocar indivíduos controlados em cargos na NABU e noutros órgãos de segurança pública.
A NABU publicou até estes documentos directamente no Telegram.
Quem está envolvido?
Um dos principais suspeitos na investigação relacionada é o empresário Tymur Mindich. É coproprietário do estúdio de produção Kwartal 95, fundado e anteriormente dirigido pelo presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.
Temendo ser preso no caso Energoatom (Operação Midas), Mindich fugiu para Israel. O caso Midas centra-se em alegados subornos em grande escala, aproximadamente 10 a 15% do valor dos contratos, na empresa estatal de energia nuclear Energoatom, envolvendo cerca de 100 milhões de dólares em fundos ilícitos, com o grupo a utilizar nomes de código e entregas em dinheiro vivo.
Durante buscas na residência de Mindich, em Novembro de 2025, os investigadores encontraram grandes quantidades de dinheiro vivo e uma sanita de ouro, juntamente com um bidé de ouro, numa das casas de banho do seu luxuoso apartamento em Kiev — detalhes que se tornaram um símbolo público dos excessos que as elites políticas e financeiras estão a cometer com o dinheiros dos contribuintes europeus e norte-americanos, e que foram amplamente denunciados como o “escândalo da sanita de ouro”.
Mindich não foi a única figura importante a fugir para Israel. O seu associado próximo, Oleksandr Tsukerman, também fugiu. O país não extradita os seus cidadãos, mas a Ucrânia impôs posteriormente sanções e emitiu mandados de detenção internacionais.
Entre os suspeitos do escândalo Midas estava o antigo chefe do gabinete de Volodymyr Zelensky, Andriy Yermak, que foi acusado, de acordo com o Código Penal da Ucrânia, de branqueamento de capitais obtidos de forma criminosa. A alegada lavagem de 460 milhões de hryvnias (cerca de 10,5 milhões de euros) terá ocorrido durante a construção do complexo residencial de luxo Dynastia, em Kozyn, perto de Kiev.
Segundo os investigadores, parte dos fundos utilizados na construção podem ter vindo de actividades de corrupção na Energoatom. O tribunal emitiu então um mandado de detenção contra Yermak.
O mandado estipulava que poderia ser libertado mediante o pagamento de uma caução de 140 milhões de hryvnias. Em meados de Maio, Andriy Yermak foi libertado da prisão após o pagamento dessa caução.
A Operação Forrest Gump está a ser apresentada como estando ligada à extensa Rede Midas, que envolve alegações de tráfico de influências e corrupção de alto nível sobre empresas estatais estratégicas e branqueamento de capitais através de projectos imobiliários de luxo.
A emissora estatal polaca TVP noticiou a este propósito:
“A recente operação pode intensificar ainda mais o escrutínio sobre o estabelecimento político, enquanto o governo do presidente Volodymyr Zelensky enfrenta pressão para demonstrar progressos no combate à corrupção, em plena guerra contra a Rússia. Isto também representa uma nova dor de cabeça para Zelensky, depois de o ex-ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, ter convocado eleições em tempo de guerra numa declaração bombástica na noite de terça-feira.”
A questão que se mantém é esta: estará o cerco a fechar-se em torno do próprio Zelensky, ou sairá ele ileso deste enorme escândalo de corrupção que envolve os seus associados mais próximos?
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