
Miguel Carvalho, jornalista com décadas de carreira e autor de um livro sobre o Chega, decidiu que o melhor contributo para o debate sobre a lei da autodeterminação de género é transformar três profissionais de saúde mental em caricaturas. No artigo da TSF de 24 de Agosto de 2026, coloca aspas em “especialistas”, associa-os a Salazar, à PIDE e a conspiratas, e apresenta o PSD como cúmplice de um “retrocesso”.
O problema? Os três homens em causa têm currículos clínicos e académicos que o activista-jornalista não tem — e a evidência internacional sobre intervenções em menores aponta exactamente no sentido contrário ao que ele defende.
Comecemos pelo Dr. Abel Matos Santos, psicólogo clínico e sexólogo.
Trabalha desde 1998 com pessoas transexuais no Hospital de Santa Maria. É especialista avançado pela Ordem dos Psicólogos, tem publicações e vasta experiência clínica. Carvalho mete-lhe aspas. O próprio responde com clareza: tirem as aspas. Tem direitos cívicos e políticos como qualquer cidadão. Fundou no CDS a única tendência formalizada (conservadora e soberanista). Desconhece as “dirigentes do Chega” a quem alegadamente promoveu filiação — e acha estranho que alguém, estando num partido, promova a filiação noutro. Combate a ideologia de género (sem aspas) porque ela existe e está à vista de todos. Elogiou Salazar e o Estado Novo nas suas luzes e sombras; nunca elogiou Castro, Che, Mao ou Estaline. Quanto à PIDE, nunca afirmou que foi “uma das melhores polícias do mundo”: limitou-se a comentar o que o próprio SIS escreveu no seu site de História. Sobre Aristides de Sousa Mendes, reconhece o papel inegável na salvação de judeus; o comentário nasceu de uma crítica ao então embaixador de Israel, que afirmou que Portugal não salvou nem acolheu judeus — afirmação que Paulo Portas, ministro dos Negócios Estrangeiros, considerou ofensiva e que mereceu resposta pública (incluindo um artigo de Pedro Lomba no Público). Nunca foi convidado para coordenar a Saúde no Chega. Se tivesse sido, não seria vergonha nenhuma. A campanha que o afastou da direcção do CDS nasceu de três exigências de transparência (cartão a Manuel Monteiro, auditoria às contas e investigação à sede do Porto). O resultado foi uma infame campanha contra o seu bom nome e pessoa, incluindo ameaças físicas para o afastar da Direcção Executiva do partido. Foram bem-sucedidos no afastamento, mas o Dr. Abel Matos Santos também ganhou: recuperou tempo para a família, para a saúde e para fazer cruzeiros — que, aliás, recomenda a todos e, em particular, a Miguel Carvalho, para ver se areja aquela cabeça preconceituosa e consegue, finalmente, vir a ser um jornalista a sério.
Passemos ao Dr. Ricardo Gusmão.
Médico pela Universidade de Coimbra (1989), mestrado em Saúde Mental e doutoramento em Psiquiatria e Saúde Mental pela Universidade Nova de Lisboa, agregação no ICBAS da Universidade do Porto. Professor de Saúde Mental Pública na Faculdade de Medicina do Porto, investigador sénior no ISPUP, coordenador do laboratório de literacia em saúde mental, bem-estar, depressão e prevenção do suicídio. Tem trinta anos de prática clínica em psiquiatria comunitária e de ligação. É membro-fundador da European Alliance Against Depression e presidente da EUTIMIA. Soma publicações científicas, projectos internacionais e décadas a tratar sofrimento real — incluindo jovens com disforia de género, depressão, perturbações da personalidade e do neurodesenvolvimento.
Quando diz que a identidade de género, tal como é usada politicamente, subverte princípios básicos da biologia e que a evidência para cuidados afirmativos em adolescentes é fraca, não está a fazer posts de “macho alfa digital”: está a alinhar-se com as revisões sistemáticas que levaram o Reino Unido (Cass Review), a Suécia, a Finlândia e a Noruega a restringir drasticamente bloqueadores de puberdade e hormonas em menores.
Carvalho prefere focar-se num comentário em rede social sobre uma divergência de opiniões. Curioso critério de avaliação de um currículo destes.
E o Dr. Pedro Afonso?
Licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra (1993), especialista em Psiquiatria pelo Hospital Júlio de Matos, mestre em Ciências do Sono e doutorado em Psiquiatria e Saúde Mental pela Faculdade de Medicina de Lisboa. Assistente graduado/consultor, exerce no grupo CUF. Foi professor convidado na FMUL e na Universidade Católica (onde coordenou a Pós-Graduação em Saúde Mental) e lecciona na AESE Business School. É autor e coordenador do Manual de Psiquiatria Clínica e de várias outras obras científicas e de ética. Quando alerta para o risco de transformar crianças e adolescentes em “cobaias” de uma engenharia social e critica a lei que criminaliza a exploração clínica séria de disforias (muitas vezes transitórias e comórbidas), está a dizer o mesmo que os países nórdicos e o Cass Review já concluíram: a evidência é de baixa qualidade, a desistência é elevada e o dano potencial é irreversível.
Prefaciou um livro de Maria Helena Costa? Pois foi. E foi convidado para o fazer exactamente por causa do seu currículo profissional. Também escreveu manuais usados em formação médica. Carvalho escolhe o prefácio e ignora o resto.
Miguel Carvalho tem carteira de jornalista, mas é activista a tempo inteiro. Tem prémios, uma carreira longa e um livro de investigação sobre o Chega baseado em entrevistas — que depois adaptou ao que pretendia passar (pelo menos no meu caso) — e documentos. Isso dá-lhe legitimidade para escrever sobre partidos e redes de poder? Dá. Pelos vistos, quando se trata de denegrir o Chega não lhe faltam incentivos. Mas não lhe dá legitimidade para avaliar, com aspas irónicas e insinuações de salazarismo, o trabalho clínico e científico de médicos e psicólogos com décadas de experiência, doutoramentos, agregações e prática hospitalar.
O debate sobre autodeterminação de género e menores não se resolve com ataques ad hominem. Resolve-se com evidência: taxas de desistência, comorbilidades (autismo, trauma, depressão), riscos de infertilidade e saúde óssea, e o fracasso das guidelines da WPATH perante revisões independentes.
O PSD, o CDS e o Chega, ao quererem ouvir estes profissionais, estão a fazer o mínimo que se exige num Estado de direito: ouvir quem trata doentes todos os dias e quem lê a literatura científica, não apenas quem escreve opinião. Proteger crianças de intervenções experimentais e irreversíveis não é “ódio”. É medicina. E o “Portugal Futuro” de que Carvalho fala só será melhor se deixar de ser refém de activistas que preferem a caricatura à clínica.
Quanto a Salazar: houve um. Faz parte da História de Portugal, goste-se ou odeie-se. O que faz falta são especialistas que não tenham medo de dizer o óbvio — e jornalistas que, de vez em quando, saiam do conforto ideológico e confrontem a realidade dos factos. Até porque, sejamos francos, o que não falta no jornalismo actual são activistas como Miguel Carvalho, escasseando os jornalistas que informam em vez de formatar.
MARIA HELENA COSTA
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Maria Helena Costa nasceu em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas. Preside à Associação Família Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de várias obras publicadas, entre as quais: #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020), Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no Observador (2023), Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025) e Genocídio Silencioso (2026)
As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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