O ContraCultura defende firmemente a tese de que devemos ler as afirmações dos líderes políticos com um protocolo de descodificação muito simples: tudo o que dizem significa exactamente o contrário ou representa exactamente o contrário da realidade dos factos.
Se não, vejamos.
Ursula e a guerra na Ucrânia.
Na Quinta-feira, Ursula von der Leyen publicou um post no X em que afirmava:
“A Rússia está a perder a guerra que começou.
E está a retaliar atacando civis e infraestruturas civis.
Estamos a trabalhar com os Estados-Membros e os nossos parceiros para apoiar as capacidades anti-balísticas da Ucrânia.
Para que a Ucrânia tenha os meios para evitar a perda de vidas.
É a prioridade mais urgente.”
Russia is losing the war it started.
And it is retaliating by targeting civilians and civilian infrastructure.
We are working with Member States and our partners to support Ukraine’s anti-ballistic capabilities.
So that Ukraine has the means to prevent the loss of lives.
— Ursula von der Leyen (@vonderleyen) August 20, 2026
Mas o que a senhora está de facto a dizer aqui é isto:
“A Ucrânia está a perder a guerra que a NATO começou e estamos aqui em Bruxelas a entrar em pânico.
É por isso que, em desespero de causa, incentivamos Kiev para que atinjam infraestruturas civis na Rússia.
Estamos a trabalhar com os estados membros para entregar aos ucranianos mais mísseis e drones para que morram mais russos e ainda mais ucranianos.
É a nossa mais urgente prioridade: que morram mais russos e ainda mais ucranianos.”
O que é dramático é que há muita gente, a maior parte dos europeus, por certo, que ainda não conseguiu perceber como descodificar o discurso político no Ocidente e – pior – acreditam até no que diz Ursula, no que diz Macron, no que diz Merz, no que diz Burnham, seja sobre que assunto for. É aflitivo.
Dizem que querem salvar a democracia, e o que estão a fazer é cancelá-la. Dizem que querem proteger as crianças, enquanto estão a proteger os pedófilos. Dizem que acreditam na liberdade de expressão enquanto encarceram cidadãos por crimes de opinião. Apelam à paz enquanto trabalham em favor da guerra e assim sucessivamente até à inversão semântica de tudo, num trabalho exaustivo de transformismo sobre a realidade dos factos e a verdade das suas intenções.
Trump e o vício da falácia.
Donald Trump é de tal forma medíocre e falacioso que começo a ganhar respeito por leninistas-globalistas como Mike Carney. E a ter por verdadeiras fontes tão manhosas como a NBC News: é que é difícil mentir tanto como o inquilino da Casa Branca, pelo que a imprensa corporativa passa por fidedigna, até, mentindo apenas um pouco menos. E o primeiro-ministro canadiano, que tem por missão última acabar com aquilo que ainda resta do Canadá, é um menino de sacristia, comparado com o que o Regime Epstein está a fazer nos Estados Unidos de Telavive.
Este episódio em baixo, para além de confirmar a inabilidade diplomática da actual administração americana (elefantina em loja de porcelanas) e o zero absoluto da célebre “arte do negócio” de que o magnata de Queens tanto se gabou, tem ainda por cima uma agravante: há coisa de 24 a 36 horas atrás, Trump tinha dito que o acordo comercial com o Canadá estava praticamente fechado (da mesma maneira que já afirmou fechados dezenas de acordos com o Irão).
Uns dias antes, Trump já tinha batido todos os recordes do regime Pinóquio ao afirmar:
“Depois de derrotarmos o Irão, irei declarar o Estreito de Ormuz território americano”.
US President Trump on Iran:
“After we finish defeating Iran, I will be declaring the Strait of Hormuz an American territory.” pic.twitter.com/chuOiHcDJF
— GC24 (@GlobalChannel24) August 14, 2026
Eis como devemos ler estas delirantes palavras, à luz da realidade dos factos:
“Depois de termos sido derrotados pelo Irão e perdido o controlo sobre o Estreito de Ormuz,, teremos que reduzir drasticamente a presença militar no Golfo Pérsico.”
Ou seja: de cada vez que o homem abre a boca, temos que entender o que ele diz ao contrário. O que nem seria complicado, se não fosse deveras deprimente, considerando que se trata da criatura que ocupa o cargo político mais proeminente da hierarquia ocidental, não é?
Alguém devia despejar meio quilo de pimenta na língua de Mark Rutte.
Na Cimeira da NATO de Julho último, Mark Rutte, o chefe civil da mafiosa organização, teve o desplante de dizer isto:
“…. Eu acredito firmemente que no século XXI não se deve atacar outro país como os russos fizeram com a Ucrânia. É uma loucura fazer isso. É um guião do século XIX ou do século XX. Não fazemos mais isso nas democracias maduras no século XXI. Isso é um aspecto, mas também porque estão em jogo valores, a democracia. E a democracia não é só o voto livre, a democracia é também vocês, a imprensa livre. Que possam noticiar, que possam tentar descobrir o que se passa nos bastidores.”
“Because I strongly believe that in the 21st century, you should not attack another country… it’s kind of crazy to do that… There are values at stake. Democracy… Democracy is you. The free media…” —NATO Secretary General Mark Rutte
We truly live in an Orwellian universe.… pic.twitter.com/JeoinzOJ5Y
— American Screed (@american_screed) July 9, 2026
O parágrafo é excessivamente grotesco para que não enfureça qualquer pessoa que caminhe acordada na curvatura da Terra. Se Rutte acredita “firmemente que no século XXI não se deve atacar outro país”, como é que consegue liderar uma aliança dependente em boa conta dos Estados Unidos da América, que em Abril deste ano, sem pelo Irão serem atacados, atacaram o Irão? Não “é uma loucura fazer isso”? Não são os Estados Unidos uma “democracia madura”?
E a Venezuela, e a Nigéria, e a Síria, e o Iraque, e a Somália, e o Iémen, que a actual administração norte-americana, em apenas um ano e meio, atacou sem ter sido atacada?
E o que têm feito nos últimos 35 anos e o que fazem agora a NATO e as super-estruturas liberais do Ocidente que não tenha sido atacar a Rússia, a sua esfera de influência, os seus interesses estratégicos, a sua cultura e identidade, a sua religião?
Quanto aos “valores” de que fala Rutte, o espalhanço a todo o comprido da sua falaciosa retórica é assombroso. Quais são os valores do Ocidente, exactamente? Armar e financiar o Estado genocida de Israel? Lançar operações de pirataria para roubar petróleo a países não alinhados com o programa? Criar golpes de estado em todo o lado em que não existam marchas do orgulho gay e horas do conto LGBT para infantes de cinco anos de idade? Violar crianças, torturá-las e devorá-las e fazer com que os aparelhos governamentais protejam os violadores, os carrascos e os canibais? Permitir que povos com outras culturas, outras religiões, outras identidades, substituam os povos nativos, apenas para que as grandes corporações tenham mão de obra mais barata e as sociedades percam a sua coesão, de forma a serem mais facilmente controladas e manipuladas? Perseguir politicamente a dissidência interna e sistematicamente a liberdade de expressão? Enriquecer a olímpico e obsceno ritmo as elites e empobrecer por todos os meios possíveis e imagináveis as massas? Criar estruturas tecnológicas que destituam o ser humano ao ponto de colocar a própria espécie em risco?
Quão gloriosos e universais são esses “valores”, quando à frente dos olhos vesgos (ou luciferinos) do próprio Mark Rutte cai com estrondo histórico a civilização que bestas como ele tudo fizeram para destruir?
E por último, acrescentando a cereja infecta em cima do bolo putrefacto, o comissário ainda teve o indizível desplante de falar em “democracia” e, no contexto da democracia, sobre a importância da “imprensa livre”.
Que desfaçatez. Um “jornalista” que trabalhe para aquilo que ele considera a “imprensa livre” e que revele ao público o que realmente “se passa nos bastidores” será despedido 24 horas depois, se for sobrinho de alguém, porque se for órfão de tio nunca mais voltará a trabalhar na “imprensa livre” na vida dele.
Rutte sabe perfeitamente que já ninguém vive em democracia no Ocidente. Sabe perfeitamente que aqueles que passam por jornalistas não são mais que servos pressurosos da tirania leninista-globalista de que ele é cão de fila. Sabe perfeitamente que vivemos num sistema unipartidário, com altos níveis de censura e repressão sobre o discurso, fraude eleitoral, conluio criminoso das elites. Sabe perfeitamente da enormidade falaciosa que segue empacotada nas suas palavras, mas di-las na mesma, impune e serenamente, como se a aldrabice mais suja fosse uma virtude da razão prática.
Em certo sentido, ajuda-nos a encontrar a verdade, porque essa residirá, inevitável e simetricamente, no inverso daquilo que ele diz. E assim sendo, eis o que podemos retirar do sentido estrito das suas palavras:
“…. Eu acredito firmemente que no século XXI devemos atacar a Rússia. É sensato fazer isso. É só pegar numa guião do século XIX ou do século XX e fazê-lo, como Napoleão e Hitler. É o que devemos fazer como tiranias maduras no século XXI. Isso é um aspecto, mas também porque estão em jogo valores leninistas-globalistas. E a tirania leninista-globalista não é só perseguir e prender os disssidentes, a tirania é fazer a guerra à Rússia e ter um aparelho de propaganda afinado como vocês, os lacaios da imprensa corporativa. Que possam propagar a narrativa dos poderes instituídos, que possam encobrir tanto o que se passa nos bastidores com nas frentes de guerra que estamos a abrir na Ucrânia e no Médio Oriente.”
Paulo Hasse Paixão
Publisher . ContraCultura
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