Washington prometeu usar toda a força do Tesouro dos EUA contra qualquer Estado que sirva de “tábua de salvação” ao Irão. Mas Pequim não parece dar grade credibilidade à ameaça.

 

O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Lin Jian, afirmou a 21 de Agosto que as sanções e a pressão não resolverão a guerra dos EUA contra o Irão, depois de Washington ter ameaçado corporações e Estados, incluindo aquele sediado em Pequim, com severas repercussões caso não se juntassem ao esforço para sufocar a economia iraniana.

Lin Jian afirmou, peremptoriamente, a este propósito:

“A China sempre acreditou que as acções militares, as sanções e a pressão não ajudam a resolver o problema, apenas aumentam as tensões na situação actual. Rejeitamos quaisquer sanções ilegais e unilaterais sem autorização da ONU”.

Tais medidas, disse Lin, não servem ninguém e “não servem os interesses de nenhuma das partes”, e acrescentou:

“Instamos a parte relevante a resolver o actual litígio através de negociações e diálogo.”

Na mesma conferência de imprensa, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês exortou os governos envolvidos a agirem de forma responsável e a resolverem a questão politicamente:

“A China espera que todas as partes assumam a responsabilidade de resolver as questões actuais através de um acordo político.”

 

 

Esta é a resposta de Pequim a Donald Trump, depois do inquilino da Casa Branca ter escrito no Truth Social que todo o país que oferecesse a Teerão “qualquer tipo de ajuda” enfrentaria grandes sanções, declarando a campanha como um “DIA D ECONÓMICO” e apelando aos aliados para ajudarem a isolar e derrotar o Irão.

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, disse entretanto que Washington provavelmente não reiniciará as operações militares em grande escala contra o Irão, uma vez que a Casa Branca se vira agora, depois de ver o seu potencial militar anulado no Golfo Pérsico, para a máxima pressão económica.

Dramatizando a posição americana, Bessent proclamou que o mundo ou está com os EUA ou contra os EUA, ameaçando usar toda a força do Tesouro contra qualquer Estado que movimente dinheiro iraniano, compre petróleo iraniano ou participe de alguma forma na prossecução económica do Estado persa.

Teerão rejeitou a campanha no mesmo dia, com o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, a dizer que o programa draconiano traria apenas mais derrotas para Washington.

O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Kazem Gharibabadi, afirmou que os EUA só recorreram à guerra económica após o fracasso da sua campanha militar, referindo que agora imploram por ajuda de aliados enquanto alegam que o Irão está à beira do colapso.

Não por acaso, as ameaças de Donald Trump surgem numa altura em que o Pentágono está a avaliar a redução da sua presença nos países do Golfo Pérsico, depois de ataques de retaliação iranianos terem atingido de forma devastadora as maiores bases que os Estados Unidos detinham no estrangeiro.

A China absorveu grande parte do choque de preços resultante do encerramento do Estreito de Ormuz, recusando-se a comprar crude a preços de guerra, cortando as importações marítimas em mais de 3 milhões de barris por dia e utilizando, em vez disso, um stock estratégico superior a 1,2 mil milhões de barris. Por seu lado, os Estados Unidos já estão agora no limite das suas reservas, como o ContraCultura noticiou na semana passada.

A utilização das reservas nacionais da China e dos EUA, entre outras, manteve o Brent próximo dos 85-90 dólares por barril, mesmo com 10 a 14% da oferta mundial ainda interrompida.

Mas a generalidade dos analistas têm advertido que estes preços são artificiais em relação à realidade do mercado e que vão certamente disparar uma vez que Pequim e Washington começarem a repor estas reservas, algo que acontecerá a curto prazo, necessariamente.

Antes da guerra, o Irão fornecia até 90% das suas exportações de petróleo à China. Mais cedo do que tarde, essa ruptura de fornecimento irá inflaccionar seriamente os custos energéticos em todo o mundo. E o bloqueio dos EUA à navegação no Golfo e aos portos iranianos só agrava a circunstância.