A ascensão das redes sociais transformou a mensuração da opinião pública. O que antes dependia de sondagens representativas e debates presenciais agora é dominado por algoritmos que amplificam sinais ruidosos de contas automatizadas. Entre os actores documentados que investem em operações de influência digital estão grupos e entidades ligadas a interesses sionistas ou ao Estado de Israel. Reportagens como a do New York Times e s do grupo israelita FakeReporter (2024), revelaram que o Ministério dos Assuntos da Diáspora de Israel pagou cerca de 2 milhões de dólares à empresa de consultoria política STOIC para uma campanha encoberta. Esta operação utilizou centenas de contas falsas que se faziam passar por cidadãos americanos normais no X (antigo Twitter), Facebook e Instagram, gerando comentários pró-Israel com recurso ao ChatGPT. O objectivo declarado incluía influenciar legisladores democratas dos EUA e criar sites de notícias falsos, com enquadramento favorável a Israel na guerra de Gaza.

Estas tácticas não são exclusivas de um lado — Irão, Rússia, China e grupos pró-Hamas também recorrem a farms de bots e contas inautênticas, como documentado por empresas de análise como a Cyabra após 7 de Outubro de 2023. Contudo, o investimento israelita é significativo e visa especificamente moldar o “consenso” internacional sobre o conflito no Médio Oriente. Ao amplificar vozes pró-Israel e semear narrativas que questionam a legitimidade de críticas (incluindo acusações de genocídio em Gaza), estas operações podem distorcer a percepção de onde reside a opinião pública real. Estudos sobre desinformação na guerra de Gaza mostram que contas falsas representavam uma fracção relevante das interacções, contribuindo para polarizar audiências e dificultar a identificação de consensos orgânicos.

A estratégia de criar uma “falsa ideia de divisão social” é particularmente eficaz em temas sensíveis. Na guerra no Médio Oriente, bots e contas coordenadas podem exagerar o apoio popular a Israel ou, pelo contrário, amplificar vozes extremas de ambos os lados, fazendo parecer que a sociedade está mais dividida (ou mais unida) do que as sondagens independentes indicam. O mesmo padrão aplica-se a outros tópicos sensíveis. Os ficheiros Epstein, que estão a ser parcialmente libertados desde 2024, geraram teorias da conspiração que por vezes ligam redes de tráfico a interesses israelitas ou sionistas — narrativas que circulam amplamente em rede social e que podem ser artificialmente promovidas, ou artificialmente combatidas, para semear desconfiança, discórdia e confusão.

Os problemas para a democracia são profundos e estruturais. Em primeiro lugar, a opinião pública deixa de ser um termómetro fiável. Quando 20-40% das interacções em certos tópicos provêm de contas inautênticas, algoritmos e analistas do sentimento popular produzem retratos enviesados. Decisores políticos, jornalistas e cidadãos comuns passam a agir com base numa “realidade” fabricada. Além disso, a manipulação desgasta a confiança nas instituições. Se o debate online sobre Israel, Gaza, Epstein ou violência política é percebido como controlado por interesses ocultos, o próprio conceito de “vontade popular” torna-se suspeito. Isso favorece o cinismo e a desmobilização ou, pior, a radicalização de quem, frequentemente com boas razões, acredita que “tudo é manipulado”

Em terceiro lugar, estas tácticas aprofundam a polarização ao recompensar o extremismo: contas que geram mais envolvimento dos utilizadores através da veiculação do medo, por exemplo, são amplificadas pelos algoritmos, enquanto vozes menos manipulativas são abafadas. O resultado é uma espiral de silêncio ou de radicalização artificial. Por fim, quando Estados ou grupos de interesse investem milhões em operações de influência digital a nível global, viola-se o princípio básico da soberania informacional das democracias. Cidadãos de um país passam a ter a sua percepção da realidade moldada por actores externos ou por lobbies, sem a transparência adequada.

O problema agrava-se porque neste momento as empresas de sondagens e a imprensa corporativa estão a recorrer a “sondagens” que não perguntam nada a ninguém, recorrendo a agentes de inteligência artificial que fabricam aquilo que calculam que as pessoas pensam.

A solução não passa por proibir o activismo digital legítimo. Passa por transparência (etiquetagem clara de contas automatizadas ou financiadas), auditorias independentes às plataformas, literacia mediática robusta nas escolas e regulação rigorosa de campanhas de influência estrangeira. Sem estas medidas, o espaço público digital continuará a ser um terreno fértil para quem consegue pagar mais bots, mais IA geradora de texto e mais narrativas coordenadas. A democracia depende de cidadãos informados que consigam distinguir o orgânico do fabricado. Quando essa distinção se torna impossível, o consenso popular deixa de existir — e com ele, a legitimidade do próprio sistema.

 

 

AFONSO BELISÁRIO

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Oficial fuzileiro (RD) . Polemista . Português de Sagres
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.