Embora as marchas do orgulho continuem a percorrer várias cidades do país, foi na capital que se tornou evidente uma agenda que vai muito além da “igualdade de direitos”, já consolidada em Portugal. A 27.ª Marcha do Orgulho LGBTI+, realizada em Lisboa, destacou-se pelo uso de um enorme cartaz com a frase “QUE SE F… A LEI QUE ARDA O PARLAMENTO”. Exibida ao lado de bandeiras trans e da Palestina, a mensagem simboliza na perfeição a radicalização e a subversão deste activismo. Não é um deslize. É o programa.

Em Portugal, as pessoas que se identificam como LGBTI+ têm, há muito, exactamente os mesmos direitos civis e políticos que os demais cidadãos. A Constituição, no artigo 13.º, proíbe a discriminação com base na orientação sexual. O casamento civil entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado em 2010; a adopção plena e a coadopção estão legalmente previstas; existem normas contra a discriminação no emprego, na habitação e nos serviços públicos. Portugal figura consistentemente entre os países europeus com legislação mais avançada nestas matérias.

Como cristã, contudo, não considero que estas mudanças legislativas representem a conquista de “direitos” no sentido clássico de igualdade perante a lei. Vejo-as, antes, como o resultado de um activismo que redefiniu o casamento e a família, afastando-os da instituição natural e histórica fundada na união entre homem e mulher, aberta à procriação e à educação dos filhos. Para a fé cristã, o casamento não é uma construção social arbitrária nem um contrato privado de afectos, mas uma ordenança divina (Génesis 2; Mateus 19) que reflecte a ordem da criação. Quando a lei civil passa a tratar como equivalentes realidades ontologicamente distintas, não se está simplesmente a “igualar direitos”; está-se a alterar o significado público de instituições fundamentais para a sociedade e para a formação das crianças.

Por isso, quem continua a falar em “luta por direitos” ou ignora o quadro legal já consolidado ou promove um activismo cujo objectivo original (a não-discriminação civil) já foi alcançado e que agora se desloca para a afirmação pública de uma visão de género e de sexualidade que colide com a realidade biológica e com a antropologia cristã. A igualdade perante a lei é um bem a preservar; a redefinição ideológica do casamento e da família, porém, não é um direito, mas uma escolha cultural e política que os cidadãos têm o dever de debater racionalmente, sem intimidação.

O que se viu na Avenida da Liberdade não foi uma reivindicação de igualdade perante a lei. Foi uma celebração da sua rejeição. “Que se f… a lei” não é uma metáfora poética: é um incitamento explícito à desobediência civil, ao desprezo pelas instituições democráticas e pelo Parlamento eleito pelos portugueses. Quando se cantam, ao mesmo tempo, temas de funk explícito que apelam ao lesbianismo hardcore e à pornografia (“chupar xoxota”, “vagina fantástica” e variações do género), o carácter do evento fica claro: não se trata de dignidade, mas de erotização pública e provocação. Esta não é uma marcha pela tolerância. É a afirmação de uma agenda de género ideológica que atropela a realidade biológica, a infância e o debate racional.

Vozes críticas da ideologia de género têm sido sistematicamente silenciadas ou acusadas de “ódio” por questionarem cirurgias mutiladoras em menores, a medicalização precoce ou a introdução da ideologia queer nas escolas. O lema oficial “Nem Silêncio, Nem Medo: Existimos e Resistimos” revela o que realmente incomoda: qualquer dissidência é tratada como uma ameaça existencial. Quem discorda não é um adversário político — é um herege.

O paralelo com uma seita religiosa é inevitável. Dogma inquestionável (o género como um espectro fluido e autocertificado), rituais públicos de afirmação, exigência de conversão (ou, pelo menos, de silêncio) da sociedade inteira, e recurso à intimidação moral e institucional contra os infiéis. O alvo prioritário? As crianças e os jovens. Exposição precoce à erotização, à confusão identitária e à ideia de que o corpo é matéria-prima para experimentação. Cânticos pornográficos na rua não são inclusão — são um grooming cultural normalizado.

Enquanto isso, o mesmo movimento abraça bandeiras de causas que, noutros contextos, executam ou perseguem homossexuais (como a causa palestiniana). A incoerência é total: exige protecção absoluta no Ocidente liberal e alinha-se com regimes que não toleram a sua existência. O que resta é o desejo de poder: controlar a linguagem, a educação, a lei e o espaço público. Quem elegeu um Parlamento mais conservador ou cauteloso é agora ameaçado com a “fogueira”.

A sociedade portuguesa tem o direito — e o dever — de dizer basta. Defender a realidade biológica (o sexo binário na esmagadora maioria dos casos), proteger a infância da ideologia sexualizada, exigir que o debate científico e filosófico sobre o género não seja criminalizado, e reafirmar que a lei vale para todos, inclusive para os que marcham contra ela, não é “fobia”. É sanidade.

A marcha de Lisboa (e todas as outras) não foi uma festa do orgulho. Foi a demonstração ostensiva de que uma parte significativa do activismo actual não quer direitos iguais: quer privilégios, impunidade e a transformação cultural forçada da sociedade. “Que se f… a lei” não é um grito de oprimidos. É o grito de quem já tem a lei do seu lado e, ainda assim, a quer queimada para impor a sua utopia sem contraditório.

Os portugueses que valorizam a família, a ciência, a democracia liberal e o bom senso têm de acordar. O silêncio não é neutralidade. É cumplicidade.

 

 

MARIA HELENA COSTA

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Maria Helena Costa nasceu em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas. Preside à Associação Família Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de várias obras publicadas, entre as quais: #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020), Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no Observador (2023), Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025) e Genocídio Silencioso (2026)

 

As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.