O chefe de política do Departamento de Defesa dos EUA está a elaborar uma nova estratégia nuclear que enfatiza o potencial uso de armas nucleares tácticas de curto alcance num eventual conflito com a China ou a Rússia.

A estratégia, supervisionada por Elbridge Colby, chefe de política do Pentágono, daria maior ênfase às armas nucleares tácticas de curto alcance em caso de guerra regional, em vez de depender de mísseis estratégicos de longo alcance.

A diferença entre ‘armas nucleares estratégicas’ e ‘armas nucleares tácticas’, é que as últimas têm um alcance menor e podem, teoricamente, ser utilizadas com mais frequência e precisão, já que têm um inferior potencial de destruição e podem ser lançadas a partir de um leque mais amplo de plataformas fixas ou móveis (por exemplo, um arma nuclear táctica pode ser lançada por um caça enquanto uma arma nuclear estratégica será lançada por um bombardeiro). Mas o risco de escalada nuclear é exactamente o mesmo, porque a utilização destas armas por uma potência nuclear implicará a resposta equitativa, no mínimo, da parte de outras potências nucleares.

Há alguns anos, as Forças Armadas dos EUA ponderaram abertamente o uso de armas nucleares miniaturizadas no contexto de conflitos regionais, uma proposta que gerou uma ampla condenação nacional e internacional, que levou este tipo de retórica à rápida erosão durante algum tempo. Agora, o Pentágono está a recuperar esse mesmo discurso. Oficialmente, o objectivo subjacente é impor a dissuasão estratégica contra a China e a Rússia, mas a utilização deste tipo de armamento contra o Irão tem sido discutida no Pentágono, nos últimos meses, como forma de desbloquear a impossível situação em que as forças norte-americanas se encontram actualmente no conflito que provocaram no Golfo Pérsico.

Elbridge Colby defende há algum tempo as armas nucleares tácticas, com ogivas mais pequenas e de curto alcance, concebidas para utilização em campo de batalha ou contra alvos militares específicos, em vez de cidades inteiras. O estrategista argumenta ainda que a actual doutrina nuclear dos EUA carece de credibilidade porque se baseia na ameaça de lançar armas estratégicas de longo alcance capazes de destruir toda a força nuclear de um adversário, projecção que é difícil, se não impossível, de concretizar.

Zhang Junshe, especialista chinês em assuntos militares, afirmou que Washington está a exagerar as ameaças externas para justificar o desenvolvimento de armas nucleares tácticas, mesmo que tais armas possam ser tecnicamente viáveis, olvidando o facto óbvio de que qualquer utilização nuclear desencadearia retaliações com consequências catastróficas.

Junshe disse ao Global Times na quinta-feira:

“Tecnicamente, os EUA têm a capacidade de desenvolver armas nucleares tácticas em plataformas aéreas, terrestres e marítimas, e poderiam até equipar mísseis de cruzeiro hipersónicos terrestres com ogivas nucleares. E diferentes ramos das forças armadas provavelmente competiriam por financiamento, impulsionando o desenvolvimento paralelo de múltiplos programas de armas nucleares tácticas.”

No entanto, o perito chinês criticou veementemente a estratégia, afirmando que a mudança dos EUA no sentido da normalização e da prontidão para o combate das armas nucleares é extremamente perigosa:

“A eficácia da dissuasão nuclear reside no limiar extremamente elevado para a sua utilização e nas consequências devastadoras envolvidas. Ao reduzir deliberadamente o limiar nuclear, os EUA apenas minarão a estabilidade nuclear global e alimentarão uma nova corrida ao armamento”.

A nova proposta estratégica do Pentágono reacendeu os debates da época da Guerra Fria sobre a política nuclear dos EUA. Os críticos argumentam que dar maior ênfase às armas nucleares tácticas poderia diminuir o limiar para a sua utilização, fazendo com que parecessem mais viáveis ​​em conflitos convencionais.

Um conselheiro sénior do Congresso norte-americano, familiarizado com a proposta, afirmou a este propósito:

“É difícil imaginar um estudo mais em desacordo com a posição declarada do presidente Trump de tornar a nossa dissuasão nuclear poderosa novamente.”

A Rússia também manifestou preocupação. De acordo com o veículo de comunicação social russo Kommersant, Dmitriy Trenin, presidente do Conselho Russo para Assuntos Internacionais (RIAC), afirmou que, se as ideias de Colby forem incorporadas na estratégia nuclear dos EUA e levarem a um maior destacamento de armas nucleares tácticas americanas na Europa e na Ásia, as tensões entre Washington e os seus adversários aumentariam significativamente.

Como resultado, a própria segurança dos EUA seria seriamente prejudicada. Os conflitos em causa deixariam de ser regionais e passariam a ser globais, segundo Trenin. Em vez de reforçar a segurança dos seus aliados, os EUA enfrentariam uma ameaça directa ainda maior para si próprios:

“Tal estratégia nuclear pode parecer atraente, mas implementá-la seria um caminho para a autodestruição. Esta abordagem imprudente, motivada pelas ambições estratégicas e pelos interesses da indústria militar, não fortalecerá a credibilidade da dissuasão dos EUA, mas apenas aumentará o risco de um conflito nuclear global e ameaçará a paz e a segurança mundiais.”

Isto numa altura em que fazer subir os riscos de um conflito nuclear global é a última coisa que o mundo precisa.