Dizia Karl Marx, na sua obra A Ideologia Alemã (escrita em 1845 junto com Friedrich Engels), que a ideologia funciona como uma camera obscura, uma inversão da realidade que nos faz olhar para o mundo de pernas para o ar. Ironicamente, Marx tornou-se o deus e o guia espiritual daqueles que hoje, ao defenderem a ideologia de género, agem exactamente da forma por ele descrita: fecham-se nesse espelho invertido e distorcido, onde a realidade empírica deixa de ser o critério da verdade para ser substituída pelo dogma. Há um padrão recorrente no activismo LGBTQIA+ contemporâneo que merece ser observado com frieza e lucidez: a incapacidade sistemática de confrontar, em terreno aberto e com argumentos, quem não partilha a sua visão do mundo. Não se trata de uma divergência legítima de opiniões. Trata-se de uma recusa activa de debater, acompanhada de uma retórica que transforma qualquer discordância em ódio, mentira, ameaça existencial ou até na classificação do interlocutor como um perigo público.

Recentemente, circularam convites enviados em privado para uma conversa a três — explicitamente descrita não como um “debate”, mas como uma troca guiada por ciência, amor e boa-fé — sobre as nuances das terapias de conversão, tratamentos hormonais e temas afins. O objectivo de quem convidou era simples e transparente: permitir que os seguidores de uma das partes ouvissem a outra sem o filtro de soundbites e de algoritmos enviesados, e vice-versa. Partia-se do princípio de que todos os envolvidos teriam o “coração no lugar certo” e poderiam trazer vários ângulos de empatia para cima da mesa. A resposta, contudo, revelou a total ausência dessa mesma empatia. Em vez de uma reacção cordata, os activistas LGBTQIA+ que receberam estas missivas privadas decidiram quebrar a reserva da correspondência e tornar os convites públicos, utilizando-os nas redes sociais com o único intuito de expor, insultar e ridicularizar quem teve a magnanimidade e a bonomia de os convidar para um diálogo aberto e honesto.

A partir desta exposição pública, optou-se por desqualificar as premissas na sua totalidade. Afirmou-se que “não há dois lados com o coração no sítio certo” quando se discute a possibilidade de “reverter uma lei que protege pessoas LGBT” (quando, na verdade, não se pretende reverter nenhuma lei de protecção, mas sim salvaguardar as crianças e os menores de idade diante do transactivismo da agenda LGBT). Declarou-se que o outro lado se apoia em “mentiras e mitos”, que “não há qualquer ciência” que sustente as suas afirmações, e que se trata de um discurso “obscuro, conservador, retrógrado e perigoso” que causa “sofrimento e morte”. Chegou-se mesmo a afirmar que as ideias discordantes mimetizam as do nazismo. Noutro caso, a recusa foi ainda mais directa e absoluta: não se debate publicamente com quem discorda — ponto final. E, quando se insiste na pergunta sobre se a recusa é total ou apenas sobre este tema, responde-se que se debaterá “na altura certa e no lugar próprio”, mas nunca “nestes termos”.

Este comportamento não é acidental. É o sintoma de uma cegueira ideológica profunda. Quem se apresenta como defensor incontestável da ciência e dos direitos humanos revela, na prática, um medo visceral do escrutínio. Se a posição fosse verdadeiramente sustentada por evidência robusta, por dados clínicos longitudinalmente sólidos e por argumentos racionais, não haveria qualquer problema em sentar-se à mesma mesa. A ciência, por definição, busca a luz: confronta hipóteses, testa, refuta ou confirma. A ideologia, quando se torna dogma, prefere a escuridão da eco-chamber (caixa de ressonância). Prefere expor mensagens privadas, ridicularizá-las publicamente e rotular o interlocutor de perigoso, em vez de responder ponto por ponto.

Repare-se na contradição gritante: aqueles que invocam incessantemente a “ciência” recusam-se a confrontá-la quando ela não confirma o seu credo. Aqueles que falam de “amor e boa-fé” transformam qualquer convite conciliador em prova de má-fé alheia. Aqueles que exigem empatia absoluta para o seu lado negam-na por completo a quem ousa questionar. E aqueles que dizem defender a liberdade e a autodeterminação usam a lei e a pressão social para silenciar profissionais de saúde mental que ousam exercer a sua prática clínica sem a subordinar a uma narrativa pré-aprovada.

Esta incapacidade de debater ideias não é sinal de força moral. É sinal de fragilidade. Quando uma ideologia precisa de criminalizar a mera exploração clínica de alternativas, de comparar os discordantes a regimes totalitários e de recusar sistematicamente o diálogo aberto, é porque percebe — ainda que de forma inconsciente — que a sua construção não resiste ao confronto com quem conhece o tema em profundidade. A verdade não teme o debate. O dogma, sim.

Enquanto continuar a tratar a discordância como heresia e a evidência contrária como ódio, o activismo LGBTQIA+ continuará a afastar-se da ciência que tanto invoca e a aproximar-se de uma forma de fundamentalismo secular. E a História, como sempre, acabará por julgar quem preferiu a luz da conversa honesta e quem escolheu o silêncio imposto.

 

 

MARIA HELENA COSTA

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Maria Helena Costa nasceu em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas. Preside à Associação Família Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de várias obras publicadas, entre as quais: #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020), Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no Observador (2023), Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025) e Genocídio Silencioso (2026)

As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.