O Irão mantém a sua capacidade de resistência; Washington vê-se encurralado num impasse estratégico; Netanyahu parece confortável com a evolução da crise; e as monarquias do Golfo acompanham os acontecimentos com uma inquietação cada vez mais evidente, receando uma escalada regional de consequências imprevisíveis.
Começo por afirmar que não disponho de fontes de informação privilegiadas, nem pretendo apresentar as minhas apreciações como verdades definitivas. Limito-me a analisar criticamente a informação disponível em fontes abertas — imprensa nacional e internacional, centros de estudos estratégicos, publicações especializadas e outros recursos acessíveis —, procurando cruzar dados e separar, tanto quanto possível, os factos das narrativas. Além disso, troco regularmente impressões com alguns amigos e colegas que, no passado, acompanharam profissionalmente este dossiê e cuja experiência considero relevante. As conclusões a que chegamos, embora naturalmente sujeitas a revisão perante novos desenvolvimentos, são, em larga medida, convergentes.
No essencial, o conflito entre os Estados Unidos e Israel, por um lado, e a República Islâmica do Irão, por outro, continua a resumir-se a uma alternativa clássica da teoria das relações internacionais: ou evolui para uma solução política, necessariamente assente num compromisso, ou deriva para uma solução militar, cujo desfecho permanece profundamente incerto.
A hipótese militar merece uma análise mais detalhada.
A campanha aérea conduzida pelos Estados Unidos e por Israel demonstrou, uma vez mais, a sua inequívoca superioridade tecnológica e operacional. Todavia, a experiência histórica ensina que o domínio do espaço aéreo, por si só, raramente produz uma vitória política ou estratégica. O Vietname, o Afeganistão, o Iraque e, mais recentemente, o Iémen ilustram precisamente os limites do poder aéreo quando confrontado com Estados ou organizações capazes de absorver perdas significativas e prolongar o conflito.
Se Washington entendesse que os objetivos estratégicos continuam por atingir, restariam, em teoria, apenas duas alternativas de escalada.
A primeira consistiria no emprego de forças terrestres em larga escala (“boots on the ground”). Considero, porém, que esta hipótese é extremamente improvável. O Irão possui um território vastíssimo, uma população superior a noventa milhões de habitantes, forças armadas numerosas, capacidade de mobilização interna e uma complexa rede de aliados e milícias no Médio Oriente. Uma operação terrestre exigiria um esforço militar gigantesco, dificilmente sustentável pela opinião pública norte-americana depois das experiências do Afeganistão e do Iraque. Os custos humanos, financeiros e políticos seriam potencialmente devastadores, não apenas para a Administração norte-americana, mas também para a própria coesão da Aliança Atlântica.
A segunda hipótese seria o recurso a armamento nuclear tático contra instalações militares ou nucleares iranianas. Embora esta possibilidade seja frequentemente evocada em exercícios de planeamento estratégico, considero-a politicamente remota. A utilização de uma arma nuclear, ainda que dita “tática”, quebraria um tabu internacional que vigora desde 1945 e abriria um precedente de consequências imprevisíveis para a estabilidade estratégica global. A condenação internacional seria avassaladora, a credibilidade dos Estados Unidos sofreria um dano dificilmente reparável e o risco de proliferação nuclear aumentaria significativamente. Mesmo admitindo que Donald Trump pudesse revelar menor sensibilidade ao custo político externo, seria difícil imaginar que aceitasse suportar, sozinho, o peso histórico de uma decisão dessa natureza.
Assim, atribuo uma probabilidade reduzida a qualquer destas opções de escalada militar.
Resta, portanto, a via política. Porém, é precisamente aqui que reside a maior incógnita.
Nada sabemos, em rigor, sobre o conteúdo das negociações discretas que, muito provavelmente, decorrem através de canais diplomáticos diretos e indiretos, envolvendo não apenas Washington e Teerão, mas também diversos atores regionais e potências com capacidade de mediação. É plausível admitir que estejam em discussão matérias como o futuro do programa nuclear iraniano, os mecanismos de verificação internacional, o levantamento gradual de sanções económicas, as garantias de segurança para Israel, a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, a contenção das milícias apoiadas por Teerão e o equilíbrio estratégico no Golfo. Contudo, o verdadeiro estado dessas negociações permanece desconhecido.
Acresce que os incentivos políticos das partes não favorecem um compromisso rápido.
Para o regime iraniano, qualquer concessão excessiva pode ser interpretada internamente como um sinal de fraqueza, comprometendo a legitimidade do poder. Para Israel, o objetivo estratégico continua a ser impedir, por todos os meios, que o Irão adquira capacidade nuclear militar, considerada uma ameaça existencial. Quanto aos Estados Unidos, coexistem prioridades contraditórias: evitar uma guerra prolongada, preservar a credibilidade da dissuasão, proteger os aliados regionais, impedir uma escalada que envolva outras grandes potências e, simultaneamente, reduzir o desgaste político interno.
Também a personalidade de Donald Trump introduz um elevado grau de imprevisibilidade. O seu estilo de decisão caracteriza-se por frequentes mudanças de posição, alternando declarações de grande dureza com sinais de abertura negocial. Em diversos momentos, a comunicação política parece sobrepor-se à própria estratégia, tornando difícil distinguir o que constitui verdadeira intenção política, mera pressão psicológica ou simples tática de negociação.
Do lado iraniano observa-se igualmente uma crescente radicalização do discurso político e estratégico. A liderança de Teerão procura demonstrar resiliência perante a pressão externa, reforçando simultaneamente a imagem de que não aceitará negociar sob coação. Esta dinâmica aumenta o risco de erros de cálculo e de escaladas involuntárias, fenómeno amplamente estudado na literatura sobre crises internacionais.
Existe ainda uma dimensão frequentemente subestimada: o fator tempo.
Ao contrário das democracias ocidentais, sujeitas a ciclos eleitorais e à pressão permanente da opinião pública, o regime iraniano acredita poder transformar o tempo num instrumento estratégico. A expectativa poderá ser a de que o desgaste político dos adversários, as divisões internas no Ocidente e a evolução do contexto internacional acabem por criar condições negociais mais favoráveis. Em contrapartida, Washington necessita de demonstrar resultados num horizonte político muito mais curto.
Finalmente, importa não perder de vista o principal beneficiário político da atual conjuntura. Enquanto os Estados Unidos suportam os custos diplomáticos da crise e o Irão procura sobreviver ao isolamento e às sanções, Benjamin Netanyahu vê reforçada a centralidade das preocupações de segurança de Israel e consolida a sua narrativa de que a ameaça iraniana constitui o principal fator de instabilidade do Médio Oriente.
O conflito entrou numa fase de impasse estratégico. O Irão continua a demonstrar capacidade para resistir, apesar da enorme pressão militar, económica e diplomática. Os Estados Unidos, por sua vez, não dispõem de uma solução militar decisiva que apresente uma relação aceitável entre custos e benefícios, nem conseguem, por enquanto, transformar a pressão exercida sobre Teerão numa solução política satisfatória. Enquanto este bloqueio persistir, a região continuará exposta a sucessivas crises, incidentes e escaladas controladas, sem que se vislumbre um mecanismo credível capaz de produzir uma paz estável e duradoura.
E há um factor adicional: a influência da China e da Rússia. Nenhuma das duas potências tem interesse numa derrota estratégica do Irão. Moscovo beneficia do desgaste dos Estados Unidos no Médio Oriente, enquanto Pequim depende da estabilidade energética do Golfo e vê Teerão como um parceiro importante na sua projeção euro-asiática. Esta dimensão transforma o conflito numa peça da competição sistémica entre grandes potências, aproximando-o cada vez mais de uma lógica de confronto global e afastando-o de um mero conflito regional. É um elemento que merece integrar qualquer análise geopolítica abrangente.
Em suma, o Irão mantém a sua capacidade de resistência; Washington vê-se encurralado num impasse estratégico; Netanyahu parece confortável com a evolução da crise; e as monarquias do Golfo acompanham os acontecimentos com uma inquietação cada vez mais evidente, receando uma escalada regional de consequências imprevisíveis.
FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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