A teoria encontra a sua verificação mais dura na prática quotidiana. Durante a minha experiência enquanto porta-voz dos estrangeiros em Kassel (35.000 estrangeiros), pude observar, uma certa permeabilidade inicial nas relações entre trabalhadores islâmicos (Gastarbeiter) e autóctones. Com o decorrer dos anos e com o reagrupamento familiar a posição islâmica no Conselho de Estrangeiros foi-se afirmando e a sua consciência institucional tornou mais visível uma radicalização identitária e um certo impedimento de misturas sociais. Impedia-se, discretamente, que mulheres islâmicas participassem em discussões populares, fechando-se o grupo sobre si mesmo e quando havia eventos reduziam-se à comparência dos habituais homens das associações.

Há um provérbio árabe que sintetiza esta atitude: “Eles beijam a mão que não podem cortar.” Isto significa que, enquanto são minoria frágil, adaptam-se; mas quando ultrapassam um determinado limiar demográfico, tradicionalmente referido pelos sociólogos como o patamar dos 10% da população, a estratégia muda. Organizam-se em guetos e, quando alcançam relevância política, a tolerância que lhes foi concedida vai-se transformando na exigência de submissão dos outros. O povo é muito amável, o problema mais impeditivo de uma integração intercultural vem do poder que as organizações em torno das mesquitas exercem sobre os seus correligionários.

Nestes guetos, preserva-se um totalitarismo social que, passadas centenas de anos, pode adquirir poder territorial, como aconteceu na Jugoslávia. A esperteza do Islamismo passa por assumir os vícios das populações onde se instala, enquanto o catolicismo, preso a ideais de virtude, apenas adquire apoio quando está disposto a melhorar os hábitos alheios, o que raramente acontece. Em África, de carácter animista, os chefes locais sentem que o Islão lhes dá mais oportunidades de poder e riqueza através da poligamia e da posse, seguindo a lei natural do mais forte.

Numa sociedade ocidental de carácter patriarcal mitigado, o Islão torna-se uma base de afirmação superior do homem sobre a mulher. Este apelo ao instinto machista inconsciente pode contribuir duma maneira geral para que o espírito masculino, enraizado nas instituições, acolha o Islão como benfazejo. A permissividade das autarquias europeias, que consentem a aplicação da Sharia no direito comum (como já se vê em Inglaterra) ou que fecham os olhos aos haréns no Norte de África sem questionamento feminista, favorece a decomposição da cultura europeia.

Quem recusa uma análise diferenciada do Islão e da sua estratégia intrínseca, nascida de uma antropologia tribal, não estará interessado em diálogo autêntico e construtivo. Não se trata de rejeitar o outro, mas de compreender que a democracia exige reciprocidade. A Europa precisa de acordar do seu torpor e compreender que a sua sobrevivência cultural passa por uma esperteza que recupere a ligação à terra e a consciência da sua própria identidade, sem a qual se tornará mero território arável para projetos alheios.

 

 

ANTÓNIO JUSTO
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O Islão na EuropaParte I
O Islão na EuropaParte II
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António da Cunha Duarte Justo é um pensador e viajante de culturas: filósofo e teólogo de formação, escritor por vocação e comunicador por missão, dedica a sua vida a lançar pontes entre Portugal e Alemanha. Autor do blog Pegadas do Tempo.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.