Para alimentar os centros de dados que servem os seus sistemas de IA, as tecnológicas de Silicon Valley estão a comprar livros raros em quantidades industriais, para depois os destruírem no processo de digitalização, num atentado terrorista contra o legado da humanidade.

 

Parece mentira, falsa notícia, alucinação de teórico da conspiração, mas não: algumas empresas de IA não estão apenas a digitalizar livros – estão a destruí-los. E não são aquele tipo de livros que os comuns mortais têm nas estantes e que podem ser substituídos facilmente na livraria mais próxima. Muitos são edições raras, esgotadas e de difícil acesso, às toneladas.

Como sempre fazem no que diz respeito à literatura distópica, os engenheiros de Silicon Valley leram Fahrenheit 451 como um manual de normas.

 

 

Enquanto os programadores se apressam a construir algoritmos mais poderosos e os processos judiciais sobre direitos de autor aumentam, surgiu uma actividade paralela, deveras lucrativa para o mercado livreiro, para abastecer a indústria com milhões de livros físicos que são descarnados, digitalizados para bases de dados de treino de IA e posteriormente atirados para o lixo.

 

 

Mais a mais, as empresas de IA estão a utilizar intermediários para adquirir livros à escala industrial de forma anónima. As empresas especializadas no fornecimento em massa anunciam a sua capacidade de localizar centenas de milhares de títulos, prometendo confidencialidade para os clientes de IA, facto que reflecte a plena consciência da má prática.

Os críticos afirmam que a onda de compras é impulsionada pelas tecnológicas, que se apressam a preservar o conhecimento humano antes que este seja diluído pelos subprodutos (AI slop) gerados pelos próprios sistemas de IA que colocaram no mercado. Os livros publicados antes da ascensão da IA ​​em 2023 são especialmente valiosos porque fornecem dados de treino de alta qualidade, escritos inteiramente por humanos.

O aumento da procura já está a remodelar o mercado de livros usados. Um livreiro, que preferiu não ser identificado, disse à imprensa que as vendas semanais subiram de cerca de 20 livros para várias centenas após a entrada de compradores de IA no mercado. Embora o aumento tenha sido lucrativo, disse estar preocupado com a perda permanente de livros raros e esgotados após serem digitalizados e destruídos:

“Isto beneficia-me financeiramente, além de me permitir liquidar um stock antigo que, de outra forma, dificilmente seria vendido. Tenho-me dado bem com estas vendas, graças ao meu stock de livros importados e em línguas estrangeiras. Por outro lado, não gosto do destino final e não gosto que livros raros sejam transformados em pasta de papel.”

Esta prática espelha o “Projecto Panamá” da Anthropic, que digitalizou milhões de livros através de técnicas que destroem os originais e que segundo um documento interno da empresa apresentado em tribunal tem como objectivo último “a destruição de todos os livros na Terra”.

Não falta nunca ambição, a Satanás.

 

 

No Verão passado, no processo de direitos de autor Bartz v. Anthropic PBC, um juiz federal em São Francisco decidiu que a digitalização de livros físicos adquiridos legalmente, mesmo quando os originais foram destruídos, constituía um uso justo transformativo. Os juízes federais emitiram posteriormente decisões semelhantes sobre o uso justo em casos separados de direitos de autor envolvendo a OpenAI e a Meta.

No entanto, num caso separado, um juiz federal do mesmo distrito aprovou esta semana um acordo de direitos de autor de 1,5 mil milhões de dólares, exigindo que a Anthropic pague a milhares de autores cerca de 3.000 dólares por livro, depois de a empresa ter utilizado cópias piratas das suas obras para treinar Claude.

Em resposta à crescente reacção negativa, os programadores de IA, incluindo Elon Musk, manifestaram-se contra a prática e disseram que as empresas devem preservar os livros digitalizados.

Musk escreveu no X:

“Pedi à equipa da SpaceXAI que preservasse quaisquer livros raros numa biblioteca e os digitalizasse da forma tradicional, em vez de simplesmente cortar a lombada e digitalizar.”

O facto desta prática ter sido legitimada pelos tribunais, é eloquente. Quando Silicon Valley comete actos como este, que só pode ser considerado como um crime contra a humanidade, no sentido em que devasta a sua herança histórica, literária e artística, sem uma resposta efectiva das sociedades, que outros princípios éticos elementares não serão olvidados, para benefício das tecnologias de inteligência artificial?

Tudo lhes é possível, agora. E é assustador pensar no que farão a seguir.