Para alimentar os centros de dados que servem os seus sistemas de IA, as tecnológicas de Silicon Valley estão a comprar livros raros em quantidades industriais, para depois os destruírem no processo de digitalização, num atentado terrorista contra o legado da humanidade.
Parece mentira, falsa notícia, alucinação de teórico da conspiração, mas não: algumas empresas de IA não estão apenas a digitalizar livros – estão a destruí-los. E não são aquele tipo de livros que os comuns mortais têm nas estantes e que podem ser substituídos facilmente na livraria mais próxima. Muitos são edições raras, esgotadas e de difícil acesso, às toneladas.
Como sempre fazem no que diz respeito à literatura distópica, os engenheiros de Silicon Valley leram Fahrenheit 451 como um manual de normas.
🦔AI companies are bulk-buying rare books, scanning them through high-speed machines that cut the spines off, and shredding the originals. A service called ISBNdb facilitates orders of up to a million books and keeps buyers anonymous. Pre-2022 books are premium because they’re… pic.twitter.com/0YPd8N2oi5
— Hedgie (@HedgieMarkets) July 27, 2026
Enquanto os programadores se apressam a construir algoritmos mais poderosos e os processos judiciais sobre direitos de autor aumentam, surgiu uma actividade paralela, deveras lucrativa para o mercado livreiro, para abastecer a indústria com milhões de livros físicos que são descarnados, digitalizados para bases de dados de treino de IA e posteriormente atirados para o lixo.
AI companies are buying large volumes of used, rare, and out-of-print books, scanning them for training data, and in many cases destroying the physical copies afterward.
This practice has accelerated as labs seek high-quality, pre-2022 human-written text free of AI-generated… pic.twitter.com/fa8FwXH30a
— Massimo (@Rainmaker1973) July 31, 2026
Mais a mais, as empresas de IA estão a utilizar intermediários para adquirir livros à escala industrial de forma anónima. As empresas especializadas no fornecimento em massa anunciam a sua capacidade de localizar centenas de milhares de títulos, prometendo confidencialidade para os clientes de IA, facto que reflecte a plena consciência da má prática.
Os críticos afirmam que a onda de compras é impulsionada pelas tecnológicas, que se apressam a preservar o conhecimento humano antes que este seja diluído pelos subprodutos (AI slop) gerados pelos próprios sistemas de IA que colocaram no mercado. Os livros publicados antes da ascensão da IA em 2023 são especialmente valiosos porque fornecem dados de treino de alta qualidade, escritos inteiramente por humanos.
O aumento da procura já está a remodelar o mercado de livros usados. Um livreiro, que preferiu não ser identificado, disse à imprensa que as vendas semanais subiram de cerca de 20 livros para várias centenas após a entrada de compradores de IA no mercado. Embora o aumento tenha sido lucrativo, disse estar preocupado com a perda permanente de livros raros e esgotados após serem digitalizados e destruídos:
“Isto beneficia-me financeiramente, além de me permitir liquidar um stock antigo que, de outra forma, dificilmente seria vendido. Tenho-me dado bem com estas vendas, graças ao meu stock de livros importados e em línguas estrangeiras. Por outro lado, não gosto do destino final e não gosto que livros raros sejam transformados em pasta de papel.”
Esta prática espelha o “Projecto Panamá” da Anthropic, que digitalizou milhões de livros através de técnicas que destroem os originais e que segundo um documento interno da empresa apresentado em tribunal tem como objectivo último “a destruição de todos os livros na Terra”.
Não falta nunca ambição, a Satanás.
THIS IS F*CKING DISTURBING!!!🤯
A leaked Anthropic document just came out in court. Their own words:
“Project Panama is our effort to destructively scan all the books in the world.”
Next line: “We don’t want it to be known that we are working on this.”
They planned to shred… pic.twitter.com/qKjDPxevX0
— Evan Luthra (@EvanLuthra) July 29, 2026
No Verão passado, no processo de direitos de autor Bartz v. Anthropic PBC, um juiz federal em São Francisco decidiu que a digitalização de livros físicos adquiridos legalmente, mesmo quando os originais foram destruídos, constituía um uso justo transformativo. Os juízes federais emitiram posteriormente decisões semelhantes sobre o uso justo em casos separados de direitos de autor envolvendo a OpenAI e a Meta.
No entanto, num caso separado, um juiz federal do mesmo distrito aprovou esta semana um acordo de direitos de autor de 1,5 mil milhões de dólares, exigindo que a Anthropic pague a milhares de autores cerca de 3.000 dólares por livro, depois de a empresa ter utilizado cópias piratas das suas obras para treinar Claude.
Em resposta à crescente reacção negativa, os programadores de IA, incluindo Elon Musk, manifestaram-se contra a prática e disseram que as empresas devem preservar os livros digitalizados.
Musk escreveu no X:
“Pedi à equipa da SpaceXAI que preservasse quaisquer livros raros numa biblioteca e os digitalizasse da forma tradicional, em vez de simplesmente cortar a lombada e digitalizar.”
O facto desta prática ter sido legitimada pelos tribunais, é eloquente. Quando Silicon Valley comete actos como este, que só pode ser considerado como um crime contra a humanidade, no sentido em que devasta a sua herança histórica, literária e artística, sem uma resposta efectiva das sociedades, que outros princípios éticos elementares não serão olvidados, para benefício das tecnologias de inteligência artificial?
Tudo lhes é possível, agora. E é assustador pensar no que farão a seguir.
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