De Havana a São Paulo, os arquivos liberados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelam uma rede que negociou portos, armas e garotas através da mesma agenda de contatos.
Cada época produz seu próprio escândalo e toda controvérsia, intencionalmente ou não, ensina algo sobre a civilização que a gerou. A Belle Époque teve o Caso Dreyfus, responsável por expor o antissemitismo entranhado no Estado francês. A Guerra Fria teve Kim Philby, demonstrando a altura que a alta traição podia alcançar dentro do Império Britânico. Nossa própria era tem Jeffrey Epstein e persiste, com uma obstinação quase patológica, em tratá-lo como mera fofoca de tabloide, resumindo tudo à história de um predador sexual abastado e sua depravação privada, enquanto as milhões de páginas liberadas pelo Departamento de Justiça americano desde dezembro de 2025 contam uma narrativa muito mais antiga e consideravelmente menos fotogênica, revelando a existência de uma verdadeira infraestrutura.
Trata-se exatamente disso, caro leitor. Observamos algo muito além de um degenerado rico proprietário de aeronaves particulares. Estamos diante daquilo que os gregos antigos chamavam de ponerocracia, ou seja, o governo exercido por indivíduos moralmente corruptos a partir das estruturas formais de poder. A rede de Epstein operava simultaneamente como fundo de investimento, agência de modelos, consultoria geopolítica, correio diplomático informal e, de acordo com documentos da agência antidrogas americana, possivelmente algo mais. Seus tentáculos se estendiam, com a paciência de quem cultiva pomares de citrus, desde a Havana pós-soviética até apartamentos de luxo no bairro da Vila Olímpia, em São Paulo.
Seria confortável descartar tudo isso como mera coincidência estatística. Afinal, um financista conhece um ex-presidente, que conhece um executivo portuário, que conhece um ministro, que por sua vez conhece um investidor. Ocorre que a cronologia destrói essa explicação de forma consistente. Os documentos situam Epstein diretamente em discussões sobre a infraestrutura portuária cubana, a aproximação diplomática entre Havana e Abu Dhabi, oportunidades de investimento na Venezuela de Chávez, o recrutamento de modelos na ilha e uma interação contínua com figuras da política, dos negócios, da diplomacia e das finanças. Isoladamente, nenhuma dessas atividades constitui crime, contudo, quando analisadas em conjunto, revelam um padrão cuja coerência interna se torna difícil de ignorar.
A correspondência envolvendo o Sultão bin Sulayem revela-se particularmente esclarecedora. Epstein ia além de conectar pessoas, pois recomendava estratégias, identificava intermediários, comentava o clima político de Cuba, avaliava obstáculos regulatórios e debatia quais figuras públicas americanas poderiam conferir legitimidade institucional às negociações em andamento. Ele atuava como um operador não oficial de política externa, tornando suas comissões financeiras um aspecto secundário diante do ativo real que controlava. Seu capital decisivo residia nas relações interpessoais. Comerciantes tradicionais negociam mercadorias, enquanto Epstein negociava acesso. Bancos financiam projetos, ao passo que ele financiava encontros. Diplomatas representam Estados oficialmente, porém Epstein aproximava governos de forma silenciosa sem representar nação alguma.
Talvez esta seja a transformação determinante das elites globais ao longo das últimas décadas. As teorias clássicas do poder, de Pareto a Burnham, imaginavam elites nacionais competindo dentro de suas próprias estruturas institucionais. O século XXI parece ter produzido uma aristocracia funcional inteiramente diversa, composta por indivíduos cuja verdadeira cidadania reside em suas listas de contatos. Eles transitam com facilidade dos serviços de inteligência para o mercado financeiro, das finanças para organizações internacionais, destas para corporações multinacionais e eventualmente retornam à política como consultores independentes. As credenciais mudam, contudo a rede permanece. Cargos vão e vêm, mas a circulação persiste. O poder reside cada vez menos nos Estados em si e mais nos intermediários capazes de dialogar com todos, servir a todos e comprometer a todos, mantendo-se isentos de qualquer prestação de contas.
A trajetória de Rafi Eitan ilustra esse fenômeno com extrema precisão. Em um período relativamente curto, ele reorganizou os serviços de inteligência da Colômbia, intermediou centenas de milhões de dólares em vendas de equipamentos militares israelenses, desenvolveu empreendimentos agrícolas em Cuba, construiu o Miramar Trade Center, principal polo comercial da ilha, em parceria com o governo de Fidel Castro, e tornou-se interlocutor frequente das autoridades cubanas. Todas essas atividades coexistiam harmoniosamente. Sua especialização transcendeu os limites da espionagem, da agricultura ou do comércio internacional, consolidando-se na capacidade de se mover sem esforço entre esferas que o cidadão comum julga rigidamente separadas. O intermediário moderno habita simultaneamente o fardamento e o terno, a embaixada e o banco de investimentos, a segurança estatal e a iniciativa privada, sendo justamente essa fusão que o torna indispensável.
Foi nesse ambiente que Jeffrey Epstein prosperou. Seu maior talento residia longe da gestão financeira extraordinária, visto que diversos gestores de fundos apresentavam resultados consistentemente superiores aos seus. Tampouco possuía conhecimento técnico excepcional em logística, diplomacia ou inteligência. Seu verdadeiro dom era consideravelmente mais raro, pois sabia como reunir bilionários, acadêmicos, banqueiros, políticos, executivos de empresas estatais, autoridades portuárias, oficiais de inteligência reformados e jovens recrutadas pelas agências de modelos de Jean-Luc Brunel ao redor da mesma mesa. Ele convencia cada participante de que estava envolvido apenas com o lado respeitável do empreendimento. A fragmentação do conhecimento funcionava como mecanismo de segurança coletiva, permitindo que cada integrante enxergasse somente o corredor por onde caminhava, jamais o edifício inteiro. Ninguém precisava compreender a operação completa, bastando ter informação suficiente para permanecer dentro dela.
Os predecessores iluminam esse cenário. Antes de Jeffrey Epstein existiu Robert Maxwell, o magnata britânico da mídia que saqueou fundos de pensão, manteve laços com mais serviços de inteligência do que podia admitir e se afogou em circunstâncias jamais esclarecidas nas Ilhas Canárias em 1991, poucos dias antes de a União Soviética, cujas instituições ele ajudara a infiltrar, finalmente se dissolver. Maxwell, pai de Ghislaine Maxwell, gostava de alardear em jantares que seus charutos cubanos eram produzidos por ordem pessoal de Fidel Castro, uma anedota registrada por seu biógrafo Gordon Thomas que bem poderia ser invenção de um fabulador compulsivo. Por outro lado, constitui fato documentado nas memórias do próprio protagonista a carreira de Rafi Eitan, o lendário oficial de inteligência israelense que dirigiu o departamento responsável pela operação Jonathan Pollard e a quem a literatura especializada frequentemente aponta como um dos mentores do jovem Robert Maxwell.
Após cair em desgraça devido ao caso Pollard, Eitan se reinventou como conselheiro de segurança nacional do presidente colombiano Virgilio Barco a partir de 1986. Na Colômbia, reorganizou o aparelho de inteligência estatal enquanto negociava um pacote de aproximadamente 230 milhões de dólares em caças israelenses, barcos de patrulha e equipamentos de vigilância eletrônica. A cronologia merece atenção cuidadosa, pois esses mesmos anos coincidiram com o extermínio sistemático da União Patriótica, o braço político legal da esquerda colombiana, cujos membros foram assassinados aos milhares por organizações paramilitares de extrema-direita na década seguinte. Carlos Castaño, cofundador das Autodefesas Unidas da Colômbia e arquiteto confesso de grande parte dessa tragédia, relatou posteriormente em sua autobiografia o período de um ano e meio de treinamento militar que recebeu em Israel. Munido de comissões colombianas, Eitan fundou o BM Group no Panamá antes de se transferir para Cuba durante os anos difíceis que se seguiram ao fim dos subsídios soviéticos. Na ilha, revitalizou quarenta mil hectares de lavouras cítricas abandonadas, construiu o Miramar Trade Center em parceria com o governo Castro, complexo que permanece como o principal centro comercial para corporações estrangeiras em Cuba, e jantou com o próprio Fidel Castro em pelo menos duas ocasiões, segundo seu próprio relato, enquanto a inteligência cubana monitorava cada uma de suas chamadas telefônicas. Um oficial de inteligência reformado vendendo tratores ao último governo comunista das Américas representa o tipo de enredo que até mesmo John le Carré consideraria implausível.
É precisamente nesse tabuleiro que a segunda geração entra na história. Manifestos de voo situam Jean-Luc Brunel, o agente de modelos francês apresentado a Epstein por Ghislaine Maxwell, a bordo das aeronaves de Epstein a partir de 1998. Paralelamente, materiais de investigação contidos nos arquivos do Departamento de Justiça documentam as expedições de recrutamento de Brunel a Cuba no mesmo período, momento em que a pobreza pós-soviética transformou jovens adolescentes em matéria-prima abundante. Anos mais tarde, em março de 2009, e-mails mostram Epstein escrevendo a Brunel para informar que um ex-executivo da Sony se tornaria o novo czar do entretenimento em Cuba, instruindo-o expressamente a repassar a informação a Andrés Pastrana. O Pastrana em questão é o ex-presidente colombiano, cujo nome surge cerca de trinta vezes ao longo dos arquivos e que admitiu ter voado na aeronave de Epstein em 2003, em uma viagem descrita em registros oficiais como um trajeto da Venezuela para as Bahamas, mas que Pastrana insiste ter terminado em Havana durante o que qualifica como missão humanitária. O leitor pode escolher o verbo que julgar mais apropriado para descrever um ex-chefe de Estado atuando como intermediário entre um criminoso sexual condenado e um governo sob embargo americano. O padrão amplo é o que realmente importa, visto que política externa, filantropia privada, logística comercial e o tráfego internacional de jovens vulneráveis tornam-se gradualmente impossíveis de distinguir entre si.
Naquele mesmo ano de 2009, e-mails revelam Epstein aconselhando o Sultão bin Sulayem, então poderoso presidente da DP World, gigante de logística dos Emirados Árabes, sobre uma estratégia voltada a obter o controle operacional dos portos de Cuba e da Venezuela de Chávez. Ele organizou encontros entre o ministro das Relações Exteriores dos Emirados e autoridades cubanas, propondo o ex-governador do Novo México, Bill Richardson, como figura capaz de conferir respeitabilidade institucional às negociações. O projeto acabou fracassando após a Venezuela nacionalizar seus terminais portuários, contudo gerou desdobramentos anos depois. Em fevereiro de 2026, poucas semanas após investigadores do Congresso identificarem publicamente seu nome anteriormente ocultado nos arquivos de Epstein, bin Sulayem renunciou ao comando da DP World. A agenda cubana de Epstein incluía também Pepe Fanjul, o magnata do açúcar de origem cubano-americana, financiador histórico do lobby anticastrista, defensor da Lei Helms-Burton e, mais recentemente, doador expressivo das campanhas presidenciais de Donald Trump. As evidências convidam o leitor a decidir se essas conexões são meros contatos casuais de coquetel ou os contornos visíveis de uma estrutura duradoura, sendo a última interpretação consideravelmente mais persuasiva neste estágio.
Existe ainda o capítulo químico desta história, e ele merece ser tratado com o devido rigor.
Documentos públicos revelam que a agência antidrogas americana abriu uma investigação em dezembro de 2010 sobre Epstein e outras quatorze pessoas após transferências suspeitas de aproximadamente cinquenta milhões de dólares transitarem entre a Suíça, a França, as Ilhas Cayman e Nova York. Conforme reportado pela Bloomberg, os investigadores suspeitavam que as transações estivessem vinculadas ao financiamento e à distribuição de entorpecentes sintéticos. Isso constitui fato documentado, enquanto o campo das inferências começa em outro ponto. Em março de 2012, a empresa de Epstein, Hyperion Air, adquiriu um helicóptero Bell 430 anteriormente registrado pela Aircraft Guaranty Corporation, empresa fiduciária responsável por manter o registro de mais de mil aeronaves por meio de caixas postais na cidade de Onalaska, no Texas, um município de apenas três mil habitantes sem sequer uma pista de pouso. Trata-se da mesma Aircraft Guaranty cuja proprietária, Debra Mercer-Erwin, seria posteriormente condenada a dezesseis anos de prisão por facilitar o registro de aeronaves ligadas ao narcotráfico. Trata-se também do mesmo registro cujo cliente e operador Fred Machado, empresário argentino implicado no financiamento ilegal da campanha de José Luis Espert, declarou-se culpado em maio de 2026 por fraude e lavagem de dinheiro. O fato de o helicóptero de Epstein ter passado pelo mesmo mecanismo de registro utilizado por aeronaves vinculadas ao tráfico de drogas não prova colaboração criminosa direta, e a honestidade intelectual exige dizer isso de forma clara.
O que o fato demonstra é que as finanças predatórias e o crime organizado frequentemente recorrem à mesma infraestrutura logística. Poucos pareceram considerar esse detalhe digno de atenção, embora a proximidade entre esses mundos pareça menos acidental do que estrutural.
MARCOS PAULO CANDELORO
__________
Marcos Paulo Candeloro é graduado em História (USP – Brasil), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR – Brasil). Aluno do professor Olavo de Carvalho desde 2011. É professor, jornalista e analista político. Escreve em português do Brasil.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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