No dia 23 de Julho de 2026, em Almada, uma menina de cerca de um ano e meio morreu após ter sido esquecida durante horas dentro da carrinha de transporte de uma creche, sob um calor intenso. Mais um caso trágico que se junta a uma lista cada vez mais longa de notícias sobre negligência e falhas graves em infantários. Estes episódios não são meros “acidentes”. São sintomas de uma ferida cultural profunda: a normalização do “abandono” dos filhos a estranhos desde a mais tenra idade.

Há anos que alguns de nós vêm dizendo o que muitos preferem não ouvir. Publicações recentes — como o carrossel de Lorena Rachel Barbosa dirigido a quem pensa em ter filhos — voltaram a pôr o dedo na ferida: a creche, por melhor que seja, não substitui a presença parental contínua nos primeiros anos. Doenças constantes, stresse de separação, vínculos fragmentados e a simples realidade de que o tempo precioso da infância é entregue a quem não ama a criança com o amor de pai e mãe.

As perguntas são brutais: como é que nos convencemos a entregar os nossos filhos a terceiros, a estranhos, durante a maior parte do seu dia? Quem nos convenceu de que estranhos cuidariam deles melhor do que os próprios pais? Onde é que nos perdemos?

 

A evidência científica confirma o que a intuição parental e a Escritura já sabiam

Não se trata apenas de sentimento ou tradição. Estudos longitudinais rigorosos mostram que o cuidado extensivo em creches, desde a tenra idade, acarreta riscos mensuráveis para o desenvolvimento socioemocional.

O grande estudo americano NICHD (Study of Early Child Care and Youth Development), que acompanhou mais de mil crianças desde o nascimento até à adolescência, concluiu que, quanto maior o número de horas de cuidados não-maternos (especialmente em centros colectivos) nos primeiros anos, maior a probabilidade de comportamentos externalizantes: agressividade, desobediência, impulsividade e conflitos. Estes efeitos surgiram cedo e persistiram até aos 15 anos, com relatos de uma maior apetência pelo risco.

O investigador Jay Belsky, um dos mais citados nesta área, identificou consistentemente a quantidade de cuidados não-maternos como um factor de risco para problemas de comportamento e para a qualidade do apego, especialmente quando o cuidado começa no primeiro ano de vida e ultrapassa as 20 horas semanais.

No Canadá, o estudo sobre o programa de creches universais do Quebeque (Baker, Gruber e Milligan) revelou efeitos negativos claros: um aumento significativo de ansiedade, hiperactividade e agressão física nas crianças expostas mais cedo ao sistema, além da deterioração na qualidade das relações parentais.

Os níveis de cortisol (a hormona do stresse) tendem a ser mais elevados nas crianças em ambiente de creche do que em casa. A teoria do apego, confirmada por décadas de investigação, sublinha que os primeiros anos exigem a presença consistente e sensível de uma figura primária — normalmente a mãe — para a formação de um apego seguro, base de toda a saúde emocional futura.

A ciência não diz que “toda a creche é má”. Diz, porém, que a substituição precoce e prolongada dos pais por estranhos não é neutra. E que o cuidado parental em casa, especialmente nos primeiros dois ou três anos, oferece vantagens claras no desenvolvimento do apego e no comportamento social.

 

A perspectiva bíblica

A Escritura nunca trata a criação dos filhos como uma tarefa transferível. Em Deuteronómio 6:6-7, Deus ordena aos pais: “Estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitares-te, e ao levantares-te.” Em Efésios 6:4, o apóstolo Paulo dirige-se aos pais (não ao Estado, nem à creche): “Criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor.” Provérbios 22:6 afirma: “Instrui o menino no caminho em que deve andar, e, até quando envelhecer, não se desviará dele.”

A família é a primeira esfera de autoridade e discipulado ordenada por Deus. Os filhos são herança do Senhor (Salmo 127). A vocação de pai e mãe — especialmente a presença maternal nos anos iniciais — é sagrada e insubstituível. Quando a sociedade convence os pais de que “os estranhos cuidam melhor”, está a contradizer tanto a revelação bíblica como os dados da psicologia do desenvolvimento.

 

Como chegámos aqui?

Através de uma combinação poderosa: a ideologia que elevou a carreira profissional acima da maternidade; a pressão económica que tornou o duplo rendimento quase obrigatório; a propaganda estatal e mediática que apresenta a creche como um “direito” e um “progresso”; e a perda do sentido de vocação parental. Fomos ensinados a valorizar a independência financeira e a realização profissional acima da presença física e emocional junto dos filhos. E, neste processo, desaprendemos a importância da continuidade, da constância e do amor sacrificial que só os pais podem dar de forma plena.

O mesmo espírito que normaliza o abandono dos filhos pequeninos nas creches prepara o terreno para o abandono dos pais velhinhos nos lares. Quem se acostuma a delegar o cuidado dos que não produzem (bebés) a estranhos acaba, com uma triste coerência, a delegar o cuidado dos que já não produzem (idosos) a estranhos. O quinto mandamento — “honra teu pai e tua mãe” — não é apenas para crianças. É um princípio de reciprocidade geracional.

Quando a família nuclear é esvaziada de presença e de tempo, a geração seguinte aprende a mesma lógica utilitária. O ciclo fecha-se: primeiro os filhos são “entregues” para que os pais possam “realizar-se”; depois os pais são “entregues” para que os filhos possam continuar a “realizar-se”.

 

Onde é que nos perdemos?

Perdemo-nos quando deixámos de crer que a Palavra de Deus é suficiente e normativa também para a organização da vida familiar. Perdemo-nos quando aceitámos que o “bem-estar” medido em PIB e na carreira individual vale mais do que a formação de almas sob o tecto paterno e materno. Perdemo-nos quando a igreja, em muitos casos, acompanhou o mundo em vez de o confrontar com a verdade bíblica sobre a vocação, a complementaridade e a prioridade do lar.

Não se trata de romantizar uma pobreza passada nem de ignorar que muitas mães e pais trabalham por real necessidade. Trata-se de recusar a mentira de que o arranjo actual é neutro ou progressista. Do ponto de vista bíblico, isto é fruto do pecado: a idolatria do eu, do conforto, do estatuto e do dinheiro. É a rejeição prática da ordem criada e da aliança familiar. É a confissão implícita de que Deus errou quando confiou os filhos, em primeiro lugar, aos pais.

Há um caminho de arrependimento. Começa por confessar que os estranhos, por mais competentes que sejam, não amam como os pais. Continua por reavaliar as prioridades económicas e profissionais à luz do Reino. E culmina em recuperar, na medida do possível e com a ajuda da comunidade de fé, o tempo e a presença que Deus confiou aos pais.

Porque o mesmo Senhor que julga a negligência também restaura os que se voltam para Ele. E porque os filhos — e um dia os pais idosos — não são meros projectos a gerir: são almas eternas colocadas sob a nossa responsabilidade.

A tragédia de Almada não pode ser apenas mais uma notícia. Tem de ser um espelho. Olhemos para ele com honestidade, à luz da Escritura e da evidência, e perguntemos de novo: a quem estamos realmente a entregar o que Deus nos confiou?

 

 

MARIA HELENA COSTA

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Maria Helena Costa nasceu em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas. Preside à Associação Família Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de várias obras publicadas, entre as quais: #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020), Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no Observador (2023), Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025) e Genocídio Silencioso (2026)

As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.