A Ucrânia anunciou no sábado que, nos seus ataques de longo alcance, tinha alvejado embarcações no Mar Cáspio que, segundo Kiev, estavam a ser utilizadas para transportar carga militar entre o Irão e a Rússia.

O Irão reportou que uma das embarcações visadas era um navio comercial iraniano e que um marinheiro foi morto e vários outros ficaram feridos no ataque.

Kiev afirmou também ter atacado outras rotas de longo alcance que transportavam equipamento militar russo destinado ao Irão, enquanto Zelensky alegou que Moscovo forneceu a Teerão dados de satélite para ataques contra alvos americanos no Médio Oriente.

O campo de batalha na guerra que envolve o Irão está a expandir-se e, com a sua entrada na disputa através de ataques de longo alcance contra alvos que Kiev afirma estarem ligados à transferência de equipamento militar russo para o Irão, a Ucrânia tornou-se um dos novos intervenientes no conflito do Golfo.

O presidente da Ucrânia está a forçar a narrativa de que a Rússia, ao fornecer informações de satélite ao Irão, ajudou Teerão a atacar instalações militares norte-americanas no Médio Oriente. Ou seja: ao acusar a Rússia exactamente das mesmas práticas que os EUA têm implementado na Ucrânia e imiscuindo-se na guerra do Golfo Pérsico, Zelensky está a tentar empurrar Washington para a frente ucraniana.

Convenhamos: a estratégia é tão desonesta quanto brilhante.

Numa publicação no X, o presidente ucraniano disse que, desde o início de Julho, os satélites russos têm monitorizado activamente os países do Golfo e as instalações militares norte-americanas na região, e têm passado as imagens obtidas para o Irão.

Segundo alega, existe uma “clara correlação” entre as imagens de satélite russas destes locais e os ataques iranianos: tanto as imagens captadas antes dos ataques, durante os preparativos do Irão, como as captadas posteriormente para avaliar os danos.

Zelenskyy afirmou ainda que, nos dias 19 e 20 de Julho, quatro bases aéreas, incluindo duas no Bahrein, uma na Jordânia e uma no Kuwait, estavam dentro do alcance de observação dos satélites russos.

Acrescentou ainda que esta realidade não deve ser ignorada, porque:

“As forças do mal procuram sempre piorar a situação e alargar o âmbito da crise”.

Diz isto o homem que acabou de “alargar o âmbito da crise” ao bombardear navios iranianos. Diz isto o homem que bombardeia o interior da Rússia com o apoio das tecnologia de rastreio e identificação de alvos dos satélites americanos (a ironia escapa-lhe).

 

 

Diplomacia à beira de um ataque de nervos.

No sábado, em resposta ao ataque da Ucrânia, o ministério dos negócios estrangeiros iraniano convocou o chefe da diplomacia ucraniana em Teerão para apresentar lhe manifestar um protesto formal contra o ataque.

A agência de notícias IRNA noticiou que, durante a reunião, o Irão enfatizou que

“a República Islâmica defenderá firmemente a sua segurança e os seus interesses nacionais e não deixará sem resposta os ataques contra a vida e a propriedade dos seus cidadãos”.

 

 

Ainda assim, muitos utilizadores iranianos das redes sociais criticaram o que descreveram como a “diplomacia fraca” do Ministério dos Negócios Estrangeiros do seu país, defendendo uma retaliação massiva com a utilização dos mísseis balísticos Kheibar Shekan.

Um comentário amplamente partilhado afirmava:

“Enquanto esta diplomacia fraca permanecer no governo, cada raposa será como um leão contra nós”.

Outros utilizadores destacaram o alcance e as capacidades do arsenal de mísseis do Irão, defendendo que Teerão deveria demonstrar a sua capacidade de dissuasão.

No mesmo contexto, mas com opinião distinta, o ex-parlamentar iraniano Nezameddin Mousavi reagiu ao ataque militar ucraniano contra o navio comercial iraniano, sugerindo aparentemente uma reacção russa, ao colocar a circunstância nestes termos:

“A resposta a este espectáculo pirotécnico no Mar Cáspio deve vir do Mar Negro.”

Mousavi acrescentou porém que a acção da Ucrânia deveria levar o Irão a reconsiderar o limite auto-imposto de 2.000 quilómetros para o alcance dos seus mísseis balísticos.

 

 

Entretanto, o embaixador ucraniano em Israel, Yevgen Korniychuk, reforçou a narrativa do regime Zelensky ao afirmar:

“Israel e a Ucrânia estão a lutar contra o mesmo inimigo. A Rússia e o Irão são dois países em lados opostos do mesmo eixo do mal”.

Posteriormente, o ministro dos negócios estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, condenou o ataque num telefonema com a chefe da diplomacia da UE, a insuportável Kaja Kallas, e pediu uma resposta do Conselho de Segurança da ONU, da União Europeia e da comunidade internacional.

A ligação entre Araghchi e Kallas ocorreu apenas dois dias depois de a União Europeia ter imposto uma nova ronda de sanções ao Irão por violações dos direitos humanos.

A 24 de Julho, Kaja Kallas anunciou no canal X que a União Europeia tinha introduzido novas medidas restritivas contra juízes iranianos responsáveis ​​por “graves violações dos direitos humanos”, incluindo a perseguição de opositores políticos e minorias religiosas.

 

Trump: Rússia e China não vão fornecer armas ao Irão.

Não por acaso, os comentários de Zelenskyy surgiram um dia depois de o presidente norte-americano, Donald Trump, ter afirmado que a Rússia e a China não forneceriam armas ao Irão.

Numa publicação na rede social Truth Social, Trump escreveu que o presidente chinês, Xi Jinping, lhe disse durante o recente encontro em Pequim que a China “em caso algum” daria ou venderia armas à República Islâmica do Irão; sendo que esse compromisso também se aplica às empresas chinesas.

Trump disse ainda que o presidente russo, Vladimir Putin, lhe garantiu que Moscovo também não venderia armas ao Irão, concluindo:

“Portanto, os dois países que são frequentemente mencionados em relação ao seu papel no Irão, na minha opinião, não estão envolvidos nesta questão.”

Ainda assim o presidente norte-americano advertiu, num tom que lhe é característico que, se a Rússia ou a China tomassem tal medida, “seria muito mau para eles” e “não seria do seu interesse”.

 

 

As declarações de Trump contrastam com as alegações de Zelensky de que a Rússia está a ajudar o Irão através de inteligência e detecção de alvos por satélite.

Moscovo e Pequim ainda não emitiram uma resposta oficial às declarações do presidente ucraniano.