À medida que o Pentágono multiplica opções de intervenção militar terrestre, a geografia do Irão empurra os norte-americanos não para uma vitória, mas para camadas mais profundas de envolvimento, morte e destruição.

 

Por estes dias, em Washington, a mesma lista de alvos preferenciais para o destacamento de tropas em território iraniano teima em ressurgir: Ilha de Kharg, as ilhas do Estreito de Ormuz (Abu Musa, Tunb Maior, Tunb Menor e, principalmente, a fortaleza de Qeshm), a baía de Chabahar, o Cuzistão, junto ao Iraque, e uma frente curda a norte, com entrada pelo Iraque ou pelo Azerbeijão. O debate ainda gira em torno de quais podem ser abertas pela força das armas – uma perspectiva que obscurece o problema.

Porque para além do número de tropas e da sua eficácia operacional e tecnológica, a geografia não sugere mais facilidades de saída do que os americanos terão à entrada.

É claro que dificilmente os EUA poderão colocar no terreno um número de efectivos que transcenda os 610.000 das forças armada iranianas, mais os 125.000 milicianos do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica, mas também é verdade que variáveis como o treino, a disciplina e a tecnologia podem, ou não, atenuar essa desfavorável relação de forças. Porém, o nó górdio de qualquer operação militar no Irão é que cada ponto de entrada conduzirá as tropas invasoras ainda mais para o interior do Irão, em vez de para fora dele. E, sobretudo, para um desenlace de guerra total, sem quartel nem limites éticos.

Em 1950, apenas um dos conselheiros do ex-presidente dos EUA, Harry Truman, se opôs a uma guerra terrestre na Coreia. O general Omar Bradley alertou que o Exército dos EUA não tinha escala humana para o território asiático. Seguiram-se três anos de impasse. Mais de sete décadas depois, a mesma restrição paira sobre outra costa asiática, em grande parte ignorada nos círculos políticos, que não nos livros de história.

A 8 de Julho, na cimeira da NATO em Ancara, o presidente norte-americano, Donald Trump, declarou terminado o cessar-fogo com o Irão e renovou a sua ameaça favorita: tomar a ilha de Kharg, vangloriando-se de que “não há nada que possam fazer quanto a isso”. duas semanas de ataques aéreos depois, o Estreito de Ormuz continua encerrado.

O alerta vem agora de fora dos canais oficiais. Douglas Macgregor, o coronel reformado do Exército dos EUA que comandou as forças blindadas na batalha 73 Easting, na primeira guerra do Iraque e, posteriormente, serviu como conselheiro no círculo de influência do Pentágono do primeiro mandato Trump, reiterou um ponto que Washington evita confrontar: os EUA não estão configurados como uma potência terrestre capaz de operar no Hemisfério Oriental.

Sem uma presença militar muito maior, defende o coronel, a vitória contra o Irão é “virtualmente impossível”. Desde o final de Fevereiro que as acções dos EUA se estabeleceram num ciclo de ataques a alvos militares e civis – incluindo o assassinato do líder supremo e o bombardeamento de pontes, infraestruturas energéticas e escolas de raparigas  – e na expectativa de uma abertura estratégica que nunca chega. O fecho do estreito mantém-se.

 

Um mapa que leva para dentro, um contexto que conduz ao desastre.

Quando a revista Foreign Policy analisou as opções dos EUA em Março, concluiu o que é óbvio para qualquer analista mais atento: que representavam “não uma estratégia para a vitória, mas um mapa de escalada”.

A Marinha dos EUA pode alcançar a costa do Irão, que se estende por aproximadamente 1.500 quilómetros ao longo do Golfo Pérsico e do Golfo de Omã. Manter a posição, no entanto, apresenta um desafio de outra ordem. Cada opção funciona menos como uma saída do que como um ponto de entrada mais profundo.

A ilha de Kharg, no nordeste do Golfo Pérsico, tem o tamanho de Iwo Jima. Na II Guerra Mundial, os EUA bombardearam a ilha com navios de guerra durante semanas antes de desembarcar 70.000 fuzileiros. Ainda assim perderam 7.000 vidas e somaram 19.000 feridos em apenas um mês (quase 50% de baixas).

A ilha de Qeshm, ponto crucial em pleno Estreito de Ormuz, é maior que Okinawa, cuja invasão demorou 3 meses e fez 12.000 mortos entre os soldados americanos.

O Irão teve décadas para construir túneis nestas ilhas, estudar as tácticas americanas e preparar-se precisamente para este cenário. E, ao contrário do Japão na Segunda Guerra Mundial, possui mísseis de precisão capazes de atingir cada centímetro do Golfo Pérsico.

 

 

Que acontecerá se os EUA perderem soldados a esta escala, no desembarque em solo iraniano ou posteriormente, encurralados que serão no inóspito, enrugado e escaldante interior do país? Washington não terá solução que não seja aumentar a parada militar. E que acontecerá se entretanto um míssil hipersónico iraniano atingir um porta-aviões do Pentágono, matando em segundos milhares de marinheiros americanos? A intensidade da resposta dos EUA terá, também, que aumentar significativamente. Como estas, qualquer projecção realista que se faça de uma intervenção militar americana no Irão conduz a uma escalada de agressão militar, que em última análise pode até levar a uma decisão de ataque nuclear dos EUA ou de Israel.

 

Ilha de Kharg: alvo sem resolução estratégica.

A 11 de Junho, Trump prometeu no Truth Social tomar “a Ilha de Kharg e outros pontos de infraestrutura petrolífera”.

A ilha processa cerca de 90% das exportações de crude do Irão, estando localizada a cerca de 25 quilómetros da costa e a aproximadamente 480 quilómetros do Estreito de Ormuz. Tomar Kharg pouco contribuiria para reabrir o tráfego através do Estreito.

A investigadora do MIT, Caitlin Talmadge, descreveu o conceito como “uma missão militar em busca de uma justificação estratégica”. Os americanos têm tentado provocar essa justificação, mesmo que apenas táctica: a 15 de Julho, o Comando Central dos EUA (CENTCOM) informou ter desactivado um navio-tanque que se aproximava da ilha.

Qualquer desembarque neste local corre o risco de se expandir para além do objectivo inicial, dada a proximidade da ilha com o continente, e o controlo deste alvo apenas deslocaria o foco da luta para outro ponto do teatro de operações.

 

Estreito de Ormuz: pressão sem controlo.

Esta frente tem sofrido uma pressão constante. Desde meados de julho, os ataques norte-americanos terão atingido dezenas de alvos em operações realizadas numa só noite. Os militares iranianos afirmam ter desactivado dois superpetroleiros, os Emirados Árabes Unidos dizem que os mísseis atingiram dois dos seus navios, e o Brent registou a sua maior subida diária em seis anos.

Em Março, Trump admitiu que estava a “pensar em assumir o controlo” do Estreito, embora tenha reconhecido que 150 lançadores móveis de mísseis anti-navio sobreviveram a semanas de bombardeamentos. Para suprimir a capacidade balística iraniana os EUA teriam que tomar o controlo da costa.

Bandar Abbas, uma cidade com quase 600 mil habitantes, é o ponto central desta costa. É defendida por sistemas complexos, incluindo mísseis anti-navio Khalij Fars e uma extensa capacidade de minagem naval. O empenhamento nesta região desloca o foco da pressão marítima para o confronto urbano, um pesadelo para a infantaria.

 

Qeshm: a fortaleza subterrânea.

O óbvio alvo estratégico do Estreito será a ilha de Queshm. Os iranianos chamam-lhe “Cidade dos Mísseis”, de tal forma consiste numa fortaleza subterrânea inexpugável, de solo granítico e imensa capacidade balística. Mas mesmo que a invasão deste território insular fosse bem sucedida, Queshm está tão perto da costa iraniana que as forças americanas lá estacionadas seriam um alvo fácil para a artilharia iraniana.

 

Abu Musa e as Ilhas Tunb: território disputado, ganho limitado.

As discussões de planeamento dos EUA terão incluído opções envolvendo Abu Musa, Tunb Maior e Tunb Menor, três ilhas sob controlo iraniano, mas reivindicadas pelos Emirados Árabes Unidos desde 1971. A sua localização faz parte do arco defensivo avançado do Irão ao longo do Estreito de Ormuz.

O antigo chefe dos serviços de informação do Comando do Pacífico, Carl Schuster, estima que a manutenção destas ilhas exigirá até 2.000 soldados. Para o coronel Macgregor, porém, sem o controlo da costa continental, a ocupação das ilhas mais pequenas torna-se rapidamente insustentável.

Também neste caso, o Irão poderia permitir um desembarque e depois concentrar fogo contínuo nas ilhas, deixando as forças americanas numa posição exposta e isolada do continente. Os meios de comunicação iranianos referem que o ‘arco de bombardeamento’ da república islâmica está a alargar-se para ilhas próximas, incluindo Qeshm, Kish, Hengam e Abu Musa.

E de que serviria a ocupação militar destas ilhas? Abu Dhabi beneficiaria de uma acção que não pode realizar a sós, arrastando as forças americanas para uma disputa territorial de longa data e, possivelmente, de longa duração. Sem que nada disto implicasse qualquer resultado prático: o Irão continuaria a dominar o Estreito, graças ao seu potencial balístico.

 

Chabahar: o constrangimento da distância.

O porto de Chabahar situa-se na costa sudeste do Irão, fora do teatro de operações imediato do Golfo. A distância a que se encontra do Estreito de Ormuz limita o seu impacto estratégico imediato. Qualquer operação ali realizada exigiria um avanço sustentado pelo interior do Irão, para ter efeito.

O porto também envolve questões internacionais. O seu terminal principal foi desenvolvido com investimento e gestão indianos, através da India Ports Global. Os ataques na cidade portuária já suscitaram preocupações sobre uma escalada para além do eixo imediato EUA-Irão. A geografia, neste caso, dificulta a logística sem resolver as questões fundamentais que o Pentágono tem que enfrentar no Golfo Pérsico.

 

Cuzistão: o precedente que se mantém.

O Cuzistão, no topo norte do Golfo, oferece o corredor terrestre mais directo para o coração energético do Irão. É também o mais testado historicamente. A invasão iraquiana de 1980 seguiu um eixo semelhante, chegando a Khorramshahr antes de se deparar com feroz resistência iraniana e colapsar. O mesmo aconteceu com o ISIS em 2014:

 

 

O terreno continua altamente disputado e politicamente carregado. Os relatórios indicam que as Unidades de Mobilização Popular (PMU) iraquianas se posicionaram ao longo de passagens importantes, como Shalamcheh, alargando a necessidade de criar profundidade defensiva. Qualquer avanço encontraria tanto a geografia como o precedente. As tentativas anteriores de forçar esta via não produziram resultados decisivos.

 

A frente curda: alavancagem que une o inimigo.

A opção final centra-se na expansão da pressão através de facções curdas ao longo da fronteira noroeste do Irão. Mas o próprio Canal 12 de Israel noticiou que as fugas de informação, a pressão dos aliados e as exigências curdas por garantias acabaram por inviabilizar o plano.

Acresce que uma frente curda proporciona a Teerão vantagens políticas e de mobilização – a defesa territorial contra uma tribo sunita, com quem os xiitas mantêm ancestral inimizade, iria unir ainda mais o país. O que aparenta ser um meio de fragmentação pode, na verdade, reforçar a coesão iraniana.

E dificilmente as milícias curdas, apesar da sua brava reputação, seriam em número e capacidade operacional capazes de representar uma ameaça que Teerão não resolvesse, a não ser que o ataque se desencadeasse concomitantemente com a abertura de outros pontos de conflito.

 

A curva de custos

Antes do cessar-fogo de Abril, o Irão e os seus aliados lançaram cerca de 4.400 drones unidireccionais – aproximadamente 120 por dia. Mais de 90% foram interceptados, o que constitui, ironicamente, um problema para o Pentágono.

Um relatório da JINSA observa que os sistemas mais baratos do Irão estão a sobrecarregar os interceptores mais caros em utilização nos países do Golfo. Como afirmou Macgregor em Fevereiro, “estão em terra, podem reabastecer-se rapidamente, podem continuar a fabricar munições”. Um dos lados luta no seu próprio território e reabastece-se localmente, enquanto o outro transporta tudo através do Atlântico e do Mediterrâneo. A vantagem logística é flagrante e todo o esforço bélico depende, mais do que de qualquer outra variável, da boa prossecução logística.

O impacto económico da guerra nos países do Golfo tem sido brutal, sobretudo nos sectores energético e turístico. Os números de baixas, sofridas principalmente nas bases regionais americanas, são ainda limitados em comparação com os conflitos de grande escala, e geridos pelo Pentágono de forma a escamotear a realidade no teatro de operações. Mas já começaram a ser registados com preocupação na Jordânia e no Iraque. O vocabulário operacional também mudou, de “ataques limitados” a “campanhas prolongadas”, reflectindo uma tendência de intensificação das hostilidades no médio prazo, sem um ponto final definido.

 

Uma guerra sem saída.

Aquilo que começou como uma ofensiva de curta duração, já se arrasta há meses. Cada opção militar calculada pelo Pentágono levará os EUA ainda mais para o mesmo padrão de escalada do conflito, com maior exposição, exigências mais pesadas e menos clareza sobre como vai terminar.

Duas condições definem o limite externo desta equação. Uma delas é a escala de força necessária para impor o controlo em todo o território iraniano, que terá que ser massiva e implicará, provavelmente, o recrutamento obrigatório nos EUA. A outra é o limiar político para abandonar a escalada. Mas nenhuma delas parece estar ao alcance imediato de Washington. O Irão não parece inclinado a ceder. E Donald Trump, junto com o seu circo de falcoaria, é excessivamente pesporrente para sair do Golfo humilhado.

O que resta é um intricado quadro que puxa qualquer intervenção ainda mais para o coração das trevas, onde cada movimento estreita, em vez de expandir, as opções disponíveis.

 

 

AFONSO BELISÁRIO

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Oficial fuzileiro (RD) . Polemista . Português de Sagres
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.