Numa era em que Hollywood se apresenta ao mundo como uma descarada máquina de propaganda liberal, trabalhando desesperadamente contra as suas audiências, Project Hail Mary surge como um objecto singular e dissidente, espécie de penetra na orgia DEI, ópera espacial aos trambolhões, carregada de um optimismo que recusa desculpas de joelho no chão.

Realizado pela dupla Phil Lord e Christopher Miller, com argumento de Drew Goddard adaptado do bestseller de Andy Weir, o épico de ficção científica tem Ryan Gosling no papel de Ryland Grace, um simpático, esperto e acomodado professor de ciências do ensino básico que será lançado para os confins do espaço, como a última esperança de um planeta ameaçado por um indecifrável microrganismo galáctico, que está a enfraquecer o Sol e a ameaçar toda a vida na Terra, e cuja origem se localiza no sistema solar Tao Seti, a 12 anos luz de distância.

Gosling oferece uma interpretação de topo de carreira como Grace. Ao acordar sozinho, amnésico e meio aparvalhado a bordo da nave espacial Hail Mary (o resto de tripulação morre no congelador), tem de reconstruir a sua missão e resolver a crise. O actor, tanto como o personagem, estão à altura da epopeia: resmungando e tropeçando pelos corredores da geringonça que o vai levar ao seu destino, Grace faz recurso da sua natural curiosidade e treinada veia científica para se ir desenrascando, enquanto somos entretidos pela comédia de tudo aquilo.

Project Hail Mary é uma espécie de The Martian (ambos baseados em novelas de Weir), mas ao contrário: enquanto Ridley Scott está interessado no drama, a dupla Lord/Miller está interessada no melodrama. Ao invés do que se pede no primeiro caso a Matt Damon – a determinação, a seriedade e a racionalidade de um homem que faz o que é preciso para sobreviver -, a Gosling é exigido um difícil artefacto emocional e humorístico, com cambalhotas e anedotas por entre a matemática da situação. Também ao contrário do referido marciano, Grace não é um herói impecável; as suas dúvidas são autênticas, as reticências que coloca à odisseia astronáutica são claras e compreensíveis e todos concordamos que este género de tarefa homérica não é para um recatado professor de uma obscura escola do Midwest. É precisamente isso que torna os seus triunfos profundamente gratificantes. Para o astronauta e para o espectador.

O elenco secundário também parece competente. Sandra Hüller traz intensidade férrea e humanidade discreta a Eva Stratt, a líder implacável que orquestra o projecto na Terra. No entanto, o coração do filme é a amizade improvável, mas absolutamente deliciosa, entre Grace e Rocky, o engenheiro alienígena com voz e interpretação de James Ortiz (um trabalho magistral de marionetismo e motion capture). A ligação entre espécies diferentes de sapiens – construída sobre colaboração científica, troca cultural e sacrifício mútuo – é genuinamente comovente. E, claro, é de gargalhada, amiúde: as barreiras linguísticas e biológicas servem lindamente o propósito de divertir o espectador, como os momentos eureka! partilhados pelos dois improváveis amigos servem a intenção de o compensar emocionalmente. E apesar da estranha e granítica e aracnídea morfologia de Rocky, que nem um rosto podemos dizer que tem, o alienígena enche o ecrã e encanta o espectador com bom senso e bom humor em certas vezes, com boa engenharia e boa vontade, noutras.

A arquitectura da narrativa é do género clássico, com um arco onde personagens racional e emocionalmente justificados evoluem material e moralmente no contexto do vencimento das adversidades que lhes são propostas, e em função da prossecução última de um objectivo transcendente. Os realizadores recorrem a uma também canonizada técnica de cruzamento cronológico da acção, com flashbacks da fase de recrutamento e treino de Grace a interromperem sincopadamente a aventura cósmica, técnica que permite ganhar e manter intensidade no ritmo da acção enquanto deixa o espectador em suspenso, tanto sobre o que se vai passar a seguir, como sobre o que se passou antes. O belo desenlace da história deriva muito da forma parcimoniosa como a informação sobre o passado de Grace transita para o espectador, que só no fim do filme consegue perceber o trajecto integral do herói.

A ciência por de trás do enredo parece tecnicamente rigorosa, mas ainda assim acessível ao leigo, e tanto o enredo como a cinematografia respeitam a fidelidade científica que Andy Weir coloca nas suas novelas. Os espectadores aprendem astrofísica e biologia com Grace e Rocky, tanto como são ensinados na difícil arte de resolver problemas, saindo deste mestrado inspirados em vez de doutrinados. Os valores que se elevam são os que qualquer épico deve elevar: engenho, determinação, resiliência, trabalho de equipa (mesmo que entre espécies diferentes!), lealdade e amizade.

Em surpreendente contraste com grande parte da produção actual de Hollywood, Project Hail Mary surge como uma refutação refrescante às tendências “woke” dominantes. Enquanto os ditos blockbusters (muitos deles já não rebentam com bilheteiras nenhumas) nos tentam enfiar doutrina ideológica pela goela a baixo, inserindo a despropósito sessões obrigatórias de política identitária (e culpabilizando o público pelo fiasco), este filme simplesmente quer sensibilizar, divertir e elevar os espectadores. Entretém sem insultar a inteligência, não aborrece ninguém com sermões e não humilha nenhuma demografia ao serviço da agenda leninista-globalista. Não há quotas de diversidade forçadas que minem a lógica das personagens, nem desconstrução cínica do heroísmo, nem repreensões ambientais ou sociais que afastem metade do público. Em vez disso, celebra virtudes humanas (e alienígenas) universalmente consagradas: o engenho sob pressão, a alegria da descoberta e o poder de alianças improváveis.

Esta abordagem, contrária à corrente, manifesta confiança na arte de contar histórias. Não por acaso, porque Lord e Miller criam de facto um espectáculo sólido, vibrante e imersivo, que une em vez de dividir. O Grace de Gosling encarna o homem comum, com as suas insuficiências e as suas glórias, não um paradigma perfeito ou um arquétipo falhado destinado a envergonhar o público. O enorme sucesso de bilheteira do filme sinaliza o cansaço das massas face a obras pseudo-moralizadoras; as pessoas procuram desesperadamente o género de evasão que as deixe bem dispostas consigo e com o mundo, esperançosas e optimistas. Em vez de humilhadas e entristecidas. Num tempo de polarização cultural, Project Hail Mary lembra-nos que o cinema pode fomentar espanto e riso e lágrimas, e que podemos até estar todos de acordo sobre o que nos surpreende, o que nos diverte e o que nos emociona. O elogio que a fita ousa fazer ao poder redentor da inteligência e da consciência (sejam humanas, sejam o que forem), tanto como da amizade e da lealdade, não pode ser mais bem-vindo, num momento da história em que valem valores nenhuns.

Numa indústria que por vezes parece determinada em ofender o seu público, este Avé Maria acerta em cheio no que queremos afinal de Hollywood: arrepios, gargalhadas, lágrimas, suspiros e a crença inexpugável no potencial da humanidade.

Project Hail Mary conta a história de uma missão espacial lançada para salvar o planeta. Nessa viagem, salva também o cinema.