Vivemos dias em que um simples vídeo nas redes sociais expõe uma realidade dolorosa: gerações inteiras de jovens parecem flutuar sem âncora. Sem valores morais sólidos, sem regras claras e sem referências verdadeiras. O que vemos não é um mero “problema de geração”, mas o fruto amargo de uma cultura que rejeitou a autoridade de Deus. Até hoje, a sociedade tem-se aconselhado com supostos experts, recorrendo a métodos, técnicas e a toda a sorte de instruções para tentar mudar este cenário. Contudo, o resultado foi o fracasso total. Como cristãos reformados, não podemos limitar-nos a lamentar ou a insistir nessas mesmas soluções humanas. Chegou a hora de deixar de lado quaisquer preconceitos e, finalmente, olhar para esta realidade à luz das Escrituras.
A realidade observada.
Muitos jovens crescem hoje num vácuo espiritual e moral. A família desestruturada, a escola relativista, as redes sociais como principal educadora e a ausência de autoridade legítima criaram uma geração que “faz o que é recto aos seus próprios olhos” (Juízes 21:25).
Uma das causas mais profundas é a terceirização precoce da educação. Colocar os filhos na creche desde muito cedo significa, na prática, entregar as primeiras e mais formativas referências a outros adultos e, principalmente, aos pares. Em muitos casos, esses adultos são mais permissivos e chegam até a criticar abertamente os pais que tentam impor limites ou valores. Em vez de os pais e avós serem as principais vozes de autoridade e amor, a criança passa a ter como modelo de comportamento os colegas de creche e educadores que, muitas vezes, não partilham da mesma visão moral e espiritual dos pais.
Acresce ainda outra decisão aparentemente “neutra”, mas profundamente danosa: a convicção de que não se deve criar os filhos “na religião dos pais”, mas deixá-los livres para, mais tarde, escolherem por si mesmos. O resultado é uma geração sem bases seguras e firmes. Sem uma cosmovisão cristã sólida, transmitida desde a infância, o jovem fica vulnerável a qualquer vento de doutrina, ideologia ou prazer passageiro.
Não se trata apenas de uma rebeldia passageira. É a manifestação prática da depravação total descrita na Bíblia: o coração humano, ferido pelo pecado, inclina-se naturalmente para a autonomia e rejeita qualquer limite externo (Romanos 3:10-18; Jeremias 17:9).
A incoerência cultural.
Nos Estados Unidos, a Bíblia, que já tinha sido a base do currículo escolar e acabou banida há anos, começa agora a ser novamente reintegrada. Pelo menos um estado decidiu reintroduzir as Escrituras, reconhecendo o seu valor histórico, literário e moral. Esta medida levanta uma pergunta incómoda e reveladora: porque é que a Bíblia não tem lugar na escola, mas tem-no nas prisões?
Ensinamos aos jovens que a Palavra de Deus é irrelevante para a formação do carácter, mas, quando o fruto amargo do relativismo se manifesta em crime, violência e desespero, corremos a oferecer Bíblias nas celas. Que hipocrisia! A Bíblia não é apenas um livro de conforto para o fim da linha; é o fundamento para uma vida recta desde o princípio.
A diagnose bíblica: o homem sem Deus é um náufrago.
A tradição cristã, fiel à Palavra de Deus, afirma que o problema não é primariamente cultural ou educacional, mas teológico. O ser humano é criatura, não é autónomo. Quando rejeita o Criador, perde o sentido de tudo o mais (Romanos 1:18-32).
Sem valores — porque abandonaram o padrão da lei moral de Deus.
Sem regras — porque desprezaram a autoridade ordenada por Deus: pais, igreja e magistrado civil.
Sem referências — porque trocaram os pais, avós e a igreja por influenciadores, educadores permissivos e pares.
A Bíblia é clara quanto à responsabilidade dos pais: “E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás diligentemente a teus filhos, e falarás delas quando te assentares em tua casa, e quando andares pelo caminho, e quando te deitares, e quando te levantares” (Deuteronómio 6:6-7). A educação dos filhos não é opcional nem deve ser terceirizada. É um mandato divino.
A resposta cristã: graça soberana e autoridade da Palavra.
A solução não está em programas motivacionais, leis mais rígidas ou “valores humanistas”. A única esperança é o evangelho da graça soberana. Deus não espera que a juventude se recupere sozinha. Ele mesmo intervém:
A Palavra de Deus como referência absoluta – “Lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho” (Salmos 119:105).
A família piedosa como primeiro e principal bastião – Os pais são chamados a educar “na disciplina e admoestação do Senhor” (Efésios 6:4), não como amigos, mas como autoridades amorosas que apontam para Cristo desde os primeiros anos de vida.
A igreja visível como comunidade formadora – Uma igreja que confessa os grandes credos reformados e vive a comunhão dos santos é o antídoto contra o individualismo e o relativismo.
A soberania de Deus no meio da crise – Mesmo nesta escuridão, Deus está no controlo. Ele elege, chama, regenera e santifica quem Ele quer.
Chamado prático aos cristãos de hoje.
Pais: Não terceirizem a educação moral e espiritual dos vossos filhos para a creche, escola ou telemóvel. A creche precoce pode ser uma necessidade em alguns casos, mas deve ser uma excepção bem ponderada, nunca a regra. Os primeiros anos de vida são cruciais para formar referências. Sejam vocês mesmos as principais referências dos vossos filhos. Ensinem a Palavra de Deus em casa, desde pequeninos. Não tenham medo de criar os filhos na fé que vocês professam. A neutralidade religiosa é uma ilusão: ou se transmite uma cosmovisão ou se deixa a criança à mercê das influências do mundo.
Igrejas: Priorizem o discipulado de famílias inteiras, com ensino bíblico para crianças e apoio prático aos pais. Ensinem a doutrina, a cosmovisão cristã e a responsabilidade paterna.
Jovens: Se se reconhecem nesta descrição, saibam que há um caminho melhor. “Buscai ao Senhor enquanto se pode achar” (Isaías 55:6). Cristo oferece perdão, uma nova natureza e um propósito eterno.
Sociedade: Embora a graça comum permita alguma ordem, a verdadeira transformação só virá pela pregação do evangelho e pela restauração da família segundo o desígnio de Deus.
A juventude sem valores, regras e referências não é um caso perdido. Ela é o campo missionário que Deus colocou diante de nós. Que o Senhor levante, nesta geração, jovens como Daniel e como Timóteo — jovens que desde a infância conheceram as Sagradas Escrituras e não se contaminaram com os manjares do rei.
Soli Deo Gloria.
MARIA HELENA COSTA
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Maria Helena Costa nasceu em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas. Preside à Associação Família Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de várias obras publicadas, entre as quais: #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020), Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no Observador (2023), Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025) e Genocídio Silencioso (2026)
As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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