Vivemos um tempo em que se tornou quase um sinal de distinção afirmar que se é espiritual, mas não religioso. A frase, repetida até à exaustão, parece oferecer uma síntese elegante da sensibilidade contemporânea. A espiritualidade surge como experiência livre e autêntica e a religião, como sinónimo de instituição, norma e poder. Esta oposição, porém, mais do que descrever a realidade, revela uma construção ideológica que empobrece ambas e revela segundas intenções.
É verdade que a dimensão espiritual não depende necessariamente da pertença a uma religião (e além disso também dentro da religião há diferentes nuances de espiritualidade). Muitos experimentam transcendência na natureza, na arte ou no amor, sem se identificarem com qualquer tradição. Contudo, reconhecer esta evidência não implica transformar espiritualidade e religião em conceitos rivais.
A cultura contemporânea favorece uma espiritualidade à la carte, moldada segundo preferências individuais, como se o indivíduo pudesse construir sozinho todo o sentido da sua existência. O ser humano, porém, nunca existe isoladamente. Somos constituídos pelo Eu, pelo Tu e pelo Nós. A nossa identidade nasce do encontro e amadurece na pertença. Nenhuma comunidade perdura sem instituições vivas que lhe deem continuidade, memória e estabilidade.
Apresentar a espiritualidade como algo exclusivamente inato e independente de qualquer aprendizagem constitui uma simplificação antropológica errónea. A disposição para a transcendência pode ser constitutiva, mas toda a potencialidade necessita de desenvolvimento. Também a linguagem é inata, mas ninguém nasce a falar; aprende-se no diálogo. O mesmo acontece com a espiritualidade: cresce através da educação, da cultura, da reflexão e, para muitos, da vida religiosa. Facto é que o inato e o adquirido completam-se.
As grandes tradições religiosas representam este património acumulado de sabedoria. Os seus símbolos, ritos e narrativas não são convenções exteriores porque constituem linguagens que ajudaram milhões a interpretar a existência, a enfrentar o sofrimento e a abrir-se ao mistério. Sem estas mediações, a experiência espiritual corre o risco de perder profundidade histórica e ficar prisioneira do instante; sem as instituições já teriam desaparecido.
A antiga máxima latina, “haec oportuit facere et illa non omittere”, exprime este equilíbrio. Não se trata de escolher entre espiritualidade e religião, mas de reconhecer que ambas se enriquecem mutuamente. A espiritualidade oferece à religião a vivência mística interior que impede o formalismo e, por seu lado, a religião oferece à espiritualidade uma memória viva, uma ética e uma comunidade que a preservam do subjetivismo absoluto.
É importante resistir à tentação das falsas alternativas ao serviço de segundas intenções para criarem um mundo caótico favorável ao relativismo que tudo justifica, como se observa no wokismo. Espiritualidade e religião não são inimigas naturais, como pretendem os seus predadores. Quando permanecem unidas, uma alimenta a interioridade e a outra preserva a comunhão e a responsabilidade ética. Separadas artificialmente, ambas empobrecem, pois a espiritualidade dissolve-se num individualismo sem raízes, e a religião degenera num formalismo sem alma.
Ultrapassar esta oposição é reconhecer que o ser humano vive sempre entre a mesmidade e a alteridade, entre a liberdade pessoal e a pertença comunitária. É nessa tensão fecunda que amadurece uma espiritualidade verdadeiramente humana que se torna suficientemente livre para procurar a verdade e suficientemente humilde para reconhecer que ninguém percorre sozinho o caminho do mistério.
ANTÓNIO JUSTO
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António da Cunha Duarte Justo é um pensador e viajante de culturas: filósofo e teólogo de formação, escritor por vocação e comunicador por missão, dedica a sua vida a lançar pontes entre Portugal e Alemanha. Autor do blog Pegadas do Tempo.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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