1. Introdução: para lá do tabu político

As democracias liberais europeias enfrentam um debate cada vez mais intenso sobre imigração, integração e transformação demográfica. Para alguns movimentos identitários, a incapacidade de formular respostas fora dos princípios do individualismo e da inclusão universal contribuiu para uma perda de coesão cultural e nacional.

É neste contexto que surge o conceito de “remigração”. Longe de ser uma expressão neutra, tornou-se um dos termos mais controversos da política europeia contemporânea. Na Alemanha, foi escolhida como “despalavra do ano” em 2023. Os críticos veem nela um eufemismo para políticas de exclusão em massa; os defensores apresentam-na como uma resposta àquilo que consideram ser o fracasso da integração e da assimilação.

 

2. O que significa remigração?

A remigração é uma proposta política associada sobretudo a movimentos identitários e nacionalistas. Defende a reversão, parcial ou ampla, de fluxos migratórios recentes.

É importante distingui-la de outros conceitos:

– Emigração: saída de pessoas do seu país de origem, por decisão própria ou por necessidade.
– Repatriação: regresso voluntário ou assistido de uma pessoa ao seu país natal.
– Remigração: regresso compulsório e em larga escala de imigrantes e, nas versões mais extremas da proposta, também de alguns dos seus descendentes.

Os opositores do conceito alertam para o risco de violações de direitos fundamentais e de aproximação a lógicas de limpeza étnica. Os seus proponentes, por sua vez, defendem-no como um instrumento de soberania territorial e de preservação identitária.

 

3. A crítica à imigração “escolhida”

A ideia de uma imigração seletiva, orientada para captar trabalhadores qualificados e talento, é também alvo de contestação. Alguns analistas argumentam que esta estratégia permite aos países de acolhimento suprir carências imediatas sem investirem suficientemente na formação das suas próprias populações.

Do lado dos países de origem, a crítica centra-se na fuga de cérebros: a saída de profissionais qualificados pode fragilizar sistemas públicos, economias e capacidades de desenvolvimento local. Romain Petitjean (pensador da ‘Nova Direita’, autor da revista ‘Elements’) sustenta que esta dinâmica priva os países de partida de parte das suas “forças vivas”.

 

4. O “método do funil”

Os defensores da remigração afirmam que a sua aplicação não começaria por medidas indiscriminadas, mas por uma sequência assente em critérios jurídicos e administrativos. Esta abordagem é frequentemente designada por “método do funil”.

As prioridades seriam:

1. Pessoas em situação migratória irregular;
2. Estrangeiros condenados por crimes graves;
3. Casos de abuso de vistos temporários ou de pedidos de asilo fraudulentos.

Segundo os proponentes, a finalidade seria reforçar a credibilidade das fronteiras e transmitir a ideia de que a permanência num país depende do cumprimento da lei. Na prática, porém, estas medidas enfrentariam limites legais, diplomáticos e operacionais significativos.

 

5. Externalização e dissuasão

Philippe Randa (autor, cronista e editor conotado com a direita radical) defende uma política de reenvio sistemático de imigrantes em situação irregular para os respetivos países ou regiões de origem. Para ele, essa estratégia teria um forte efeito simbólico e dissuasor, reduzindo simultaneamente os lucros das redes de tráfico de seres humanos.

Esta visão assenta na ideia de que a fronteira deve recuperar valor político e prático. Os críticos respondem que soluções deste tipo podem entrar em conflito com o direito internacional, os mecanismos de proteção de refugiados e a obrigação de avaliar individualmente cada caso.

 

6. Cidadania e integração

Outra proposta associada a este debate defende que a cidadania adquirida deve permanecer sujeita a condições durante um período prolongado, por exemplo, 15 anos. Nesse modelo, condenações por crimes graves poderiam levar à perda do estatuto adquirido.

A proposta questiona a noção de cidadania como direito estável e defende-a como um compromisso contínuo com as leis e a cultura do país de acolhimento. Os seus opositores alertam, contudo, para o risco de criar cidadãos com direitos desiguais e de enfraquecer princípios de igualdade perante a lei.

 

7. Vontade política e capacidade do Estado

O debate sobre remigração também expõe uma questão prática: até que ponto os Estados têm capacidade para executar deportações em grande escala? Randa critica aquilo que considera ser falta de vontade política e firmeza institucional na aplicação das leis migratórias.

A execução de expulsões depende, porém, de fatores concretos: decisões judiciais, acordos com países de origem, recursos administrativos, segurança, documentação e respeito pelas garantias legais. Por isso, mesmo os defensores de políticas mais restritivas reconhecem que existe uma distância considerável entre a ambição política e a capacidade operacional.

 

8. Conclusão: um debate em aberto

A remigração deixou de ser um tema marginal e passou a ocupar um lugar central no debate europeu sobre imigração, identidade e soberania. Para uns, representa uma resposta necessária ao que entendem ser uma crise de integração; para outros, constitui uma ameaça direta aos direitos humanos, à igualdade cívica e à própria democracia liberal.

Mais do que uma simples palavra, o conceito obriga as sociedades europeias a confrontarem uma questão decisiva: como conciliar controlo migratório, coesão social, Estado de direito e respeito pela dignidade humana?

 

 

FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.