A recente troca de ideias no X entre a denunciante Jamie Reed e o jornalista Benjamin Ryan trouxe de novo ao debate uma questão central e urgente: existe uma categoria de “crianças verdadeiramente trans” que justifica intervenções médicas precoces?
Reed, que trabalhou quase cinco anos numa clínica pediátrica de género nos EUA e acompanhou cerca de 1.500 casos, é clara: não. O que ela viu foram, na sua maioria, crianças com não-conformidade de género ou com traços que apontavam para uma futura homossexualidade — “proto-gay children”, nas suas palavras. Em vez de uma identidade inata e imutável, tratava-se frequentemente de crianças que, sem intervenção, teriam seguido o seu desenvolvimento natural.
Esta perspectiva — que rejeita a ideia de que o sexo biológico pode ser “afirmado” ou alterado em crianças — alerta para um caminho perigoso que começa muitas vezes com a chamada transição social e avança, em muitos casos, para intervenções médicas irreversíveis em corpos saudáveis. Os dados e as experiências de clínicos como Reed, aliadas a revisões sistemáticas independentes, mostram que este percurso não é neutro nem reversível.
O aumento explosivo de casos e o perfil dos pacientes
Nas últimas décadas, assistimos a um aumento dramático de diagnósticos de disforia de género em menores, especialmente em raparigas adolescentes. O que antes era raro e predominantemente observado em rapazes pré-púberes tornou-se um fenómeno de grupos sociais (clusters), frequentemente ligado a redes sociais, grupos de pares e influências culturais. Reed relatou que, na sua clínica, a esmagadora maioria dos casos envolvia comorbilidades significativas: autismo, trauma, problemas de saúde mental e, em muitos casos, sinais de que a criança poderia crescer para ser homossexual.
Ignorar estas realidades e “afirmar” imediatamente a identidade de género significa saltar por cima de uma avaliação holística. Em vez de se tratar a causa do sofrimento (ansiedade, depressão, rigidez cognitiva associada ao autismo ou confusão em torno da sexualidade), medicaliza-se o corpo.
A transição social: um primeiro passo com consequências duradouras
A transição social — o uso de nomes e pronomes do outro sexo, roupas e o tratamento como membro do outro sexo — é frequentemente apresentada como “reversível” e inofensiva. A evidência sugere o contrário. Estudos mostram que crianças que passam por uma transição social precoce apresentam taxas de persistência da identidade trans muito superiores às históricas. Um estudo acompanhou crianças que transitaram socialmente por volta dos 6-7 anos: cinco anos depois, 97,5% continuavam a identificar-se como trans ou não-binárias, contrastando com as taxas históricas de desistência de 60-90% em crianças com disforia de género sem essa intervenção.
A Cass Review (Reino Unido, 2024), a revisão sistemática mais abrangente realizada até hoje, concluiu que a evidência sobre os efeitos da transição social é de baixa qualidade e não demonstra benefícios claros na saúde mental. Pelo contrário, pode reforçar e fixar uma identidade que, de outra forma, poderia resolver-se naturalmente com o tempo e o apoio psicológico adequado. A transição social não é um acto passivo: é uma intervenção psicossocial que altera o ambiente da criança e pode dificultar a desistência posterior.
Do social para o médico: riscos irreversíveis em corpos saudáveis
Quando a transição social não alivia o sofrimento (ou quando a pressão social e clínica empurra nesse sentido), muitos avançam para bloqueadores de puberdade, hormonas cruzadas e, mais tarde, cirurgias. Estas intervenções actuam sobre órgãos e sistemas saudáveis: supressão de uma puberdade normal, mastectomias em adolescentes, histerectomias, cirurgias genitais com riscos elevados de complicações, infertilidade permanente, disfunção sexual, perda de densidade óssea e possíveis impactos no desenvolvimento cognitivo.
A Cass Review foi contundente: a qualidade da evidência para os bloqueadores de puberdade é muito baixa. Não há demonstração robusta de que os benefícios superem os riscos a longo prazo. Vários países europeus (Reino Unido, Suécia, Finlândia, Noruega) restringiram ou abandonaram o modelo de “afirmação” precoce precisamente por esta razão. O que se observa é a medicalização de um sofrimento psicológico em vez de uma abordagem que explore as causas subjacentes.
Arrependimentos e detransição: um sinal de alerta crescente
Embora alguns estudos antigos em adultos com triagem rigorosa reportassem taxas baixas de arrependimento, o cenário actual com jovens — muitas vezes com início rápido na adolescência, comorbilidades não tratadas e transições sociais precoces — é diferente. As taxas reais de detransição e arrependimento são difíceis de quantificar com precisão devido à perda de seguimento nos estudos, a períodos curtos de acompanhamento e a pressões sociais que desincentivam o relato de arrependimento.
Análises recentes indicam que estas taxas podem estar subestimadas e que o número de pessoas que interrompem o processo ou se arrependem está a aumentar visivelmente, com relatos de sofrimento adicional, infertilidade, alterações corporais permanentes e necessidade de cuidados de reversão
Casos como os acompanhados por Reed e outros clínicos mostram que muitas destas crianças, se tivessem recebido apoio psicológico exploratório em vez de afirmação imediata, poderiam ter resolvido a disforia sem intervenções irreversíveis. A sobreposição histórica entre a disforia de género em crianças e a futura homossexualidade está bem documentada: muitas teriam crescido para viver vidas plenas como homossexuais (gays ou lésbicas) sem mutilar corpos saudáveis.
Uma perspectiva crítica: proteger o desenvolvimento natural das crianças
A perspectiva crítica de género defende que o sexo é binário e imutável, determinado pela biologia reprodutiva, e que a disforia de género em crianças é frequentemente um sinal de distress psicológico ou de um desenvolvimento atípico que merece exploração, e não uma afirmação imediata. Tratar crianças como se tivessem “nascido no corpo errado” e proceder a intervenções médicas equivale a medicalizar uma condição mental em corpos saudáveis — algo que a sociedade rejeitaria noutros contextos (como, por exemplo, amputações electivas por dismorfia corporal).
As crianças não têm maturidade cognitiva nem experiência de vida para consentir em alterações permanentes à sua fertilidade, sexualidade e saúde óssea. O papel dos adultos — pais, clínicos, educadores — deve ser o de proteger o seu desenvolvimento natural, tratar comorbilidades e oferecer apoio psicológico baseado em evidência, não em ideologia.
A denunciante Jamie Reed e a Cass Review convergem num ponto essencial: a pressa em diagnosticar e medicalizar está a falhar a muitas crianças. O caminho responsável passa pela cautela, pela investigação rigorosa e pela prioridade ao princípio de “não fazer mal” (primum non nocere). As crianças merecem crescer sem serem transformadas em cobaias de uma experiência social e médica cujos danos a longo prazo ainda estamos a descobrir — e cujos arrependimentos já são visíveis.
Este não é um debate sobre direitos de adultos. É sobre proteger a geração mais vulnerável de intervenções irreversíveis baseadas em evidência fraca e pressões ideológicas. A ciência e a experiência clínica de quem viu de perto o fenómeno apontam para a mesma conclusão: menos afirmação precipitada, mais protecção e mais tempo para o desenvolvimento natural.
MARIA HELENA COSTA
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Maria Helena Costa nasceu em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas. Preside à Associação Família Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de várias obras publicadas, entre as quais: #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020), Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no Observador (2023), Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025) e Genocídio Silencioso (2026)
As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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