I

– Boa tarde.
– Boa tarde, cidadão.
– Um bilhete para Ponta Delgada, por favor.
– Desculpe cidadão, mas a companhia não oferece transporte para Ponta Delgada.
– Não? Mas ali no monitor das partidas indicam que sai uma composição às 10h30, para Ponta Delgada.
– Lamento, cidadão, mas permanece o facto de que não lhe posso vender um bilhete de comboio para Ponta Delgada. Será preciso articular sobre essa impossibilidade?
– Será. Será preciso, na medida em que a indicação é bem clara. Composição 12-43, Com partida às 10h30 de Santa Apolónia, e escala na Ilha do Pessegueiro. Está ali escrito, vê-se daqui.
– Cidadão, nesta estação vendemos bilhetes de viagens ferroviárias supra-sónicas para todas as capitais de distrito de Portugal continental e para a maior parte das grandes capitais europeias. Recentemente a companhia inaugurou a linha Lisboa-Funchal, é certo. Mas não temos qualquer ligação a Ponta Delgada, por todos os deuses da galáxia! Sobre o que mostra o painel das partidas nada lhe posso dizer. Terá que se dirigir ao Gabinete de informação electrónica da Companhia.
– Muito bem. Assim farei. E onde fica esse gabinete?
– Na Gare Ferroviária de Ponta Delgada.

 

II

– Muito boa tarde.
– Boa tarde, cidadão.
– Pretendo enviar uma carta para Deus.
– Com certeza, cidadão. Suponho que se trata do Deus Católico?
– Perdão?
– Pergunto-lhe cidadão, se o destinatário da sua carta é o Deus Católico, Apostólico Romano.
– Creio num só Deus, uno e indivisível.
– A companhia envia correspondência para 36 deuses, 148 semi-deuses, 89 apóstolos, 282 santos, 1357 fúrias, 44 profetas e 3 messias. Sobre a unicidade e indivisibilidade de Deus terá que contactar o Gabinete de Orientação Metafísica.
– O senhor está a dizer-me que existem 36 deuses?
– Não. Estou apenas a enumerar caixas postais. Pode de facto dar-se a hipótese de existir apenas um Deus, que mantém 36 caixas postais activas.
– Caixas postais? Quer dizer que a minha carta não será entregue na residência de Deus?
– Infelizmente, não, caro cidadão. De acordo com o decreto operacional 320045 Secção B200 da lei orgânica dos correios, a companhia respeita o Protocolo de Protecção da Privacidade e Salvaguarda do Sigilo Domiciliário relativamente aos Serviços Postais com Divindades e Fúrias. Este protocolo protege todas as entidades metafísicas do incómodo dos crentes, como da ameaça dos hereges.
– Bom, seja, quero então enviar esta carta para a caixa postal do Deus Católico Apostólico Romano.
– Muito bem. São 420 imperadores de ouro.
– 420 imperadores para entregar uma carta numa caixa postal?
– De ouro. Aceitamos imperadores em espécie ou visados. Se quiser pagar com cheque, haverá uma demora de 48 horas a 8 dias não úteis, para os devidos inquéritos de provisão. Neste caso o preçário será acrescido da taxa de inquérito no valor de 12 imperadores de prata.
– Mas trata-se de um roubo!
– Se o cidadão suspeita que está a ser alvo de um acto ilegal, terá que preencher o formulário 428A e entregá-lo, devidamente lacrado, no Gabinete de Apoio à Vítima de Actos ilegais.
– Voltemos à missiva. Quanto tempo demorará a chegar?
– A correspondência com entidades divinas é entregue nas respectivas caixas postais no espaço de 48 horas em correio normal, e em 24 horas por correio azul (acresce a tarifa de dois imperadores de ouro), mas isso não quer dizer que a divindade receba a correspondência em tempo real, claro. Temos registo de missivas que foram recolhidas pelo destinatário 25.000 anos depois de entregues na respectiva caixa postal.
– 25.000 anos? O senhor está a brincar comigo?
– De todo. Mas também pode demorar muito menos tempo. Bem vê, depende das rotinas de cada divindade. O cidadão compreenderá que, para os imortais, não há pressas. Passar pela caixa postal amanhã ou daqui a 20.000 anos é a mesmíssima coisa. Para uma mais clara determinação desta questão, aconselho o envio com aviso de recepção. Neste caso o preço será acrescido de 55 imperadores de prata.
– Assim sendo, desisto. Passe bem.
– Vá em paz, cidadão, e se me permite, expresso votos que o Deus Católico Apostólico Romano o acompanhe. Em tempo real.

 

III

– Viva, bom dia.
– Muito bom dia, em que posso ser de serviço?
– Recebi esta notificação de uma multa de 150 imperadores de ouro, por ter passado na Hiper-Via Marte-Saturno sem ter pago a portagem.
– Ah, muito bem, acontece. Como deseja proceder ao pagamento?
– O caso é que não desejo proceder a pagamento algum.
– Como lhe aprouver, cidadão, mas devo alertá-lo para as coimas acrescidas e a subida da taxa de juro, caso não respeite o prazo de pagamento estabelecido.
– Oiça, trata-se com certeza de um equívoco. Eu nunca transitei nesta via.
– Talvez o cidadão não o tenha feito, de facto. Pelo que informa a notificação, a ocorrência deu-se com a viatura intra-estelar ligeira de passageiros de matrícula 45-OS-32. Talvez a sua esposa tenha usado a viatura nesse dia?
– Meu amigo, eu sou viúvo. Não tenho filhos. Vivo sozinho e não possuo qualquer viatura intra-estelar. Desloco-me de bicicleta.
– Certo, certo, e pode por favor indicar-me a matrícula da sua bicicleta?
– Com certeza. É 45-0Z-32. Mas não vejo como…
– É muito simples cidadão. O instrumento de leitura óptica da portagem instalada na Hipervia Marte-Saturno registou equivocamente um S no lugar do correcto Z. Como disse que desejava liquidar a coima?
– Vamos lá ver se nos entendemos: eu não transitei na hipervia em questão nem de viatura intra-estelar nem de bicicleta, da qual sou, aliás, o único proprietário e utilizador. E, assim, não vejo porque devo pagar qualquer multa.
– Cidadão, estou apenas a tentar ajudar. Os factos permanecem: o cidadão foi notificado. É necessário liquidar a coima. As regras são para cumprir. A companhia é muito rigorosa na igualdade do cidadão perante a lei. E vice versa. Penso que, se o cidadão admitir que se fazia transportar de bicicleta, poderemos reduzir em cerca de 30% o valor da coima, ao abrigo da Acta Para os Cidadãos Ciclo-Turistas em Trânsito no Sistema Solar. Embora isto nos levante um outro problema.
– Que é…
– O cidadão que viaja de bicicleta na Hiper-Via Marte-Saturno deve transitar pelo ciclo-eixo dedicado. Ora, parece-me que a notificação diz respeito a uma portagem de veículos intra-estelares ligeiros. Esta situação é passível de uma coima que pode atingir os 32.000 imperadores de prata.
– Deuses de toda a galáxia, mas se eu nunca transitei nessa maldita via!
– Não estou a colocar em dúvida a palavra do cidadão, que é seguramente honorável. Porém o facto permanece. Aceitamos cheques, mas há custos de inquérito de provisão que acrescem…
– Se não há remédio, pago. Mas vou recorrer.
– Com certeza cidadão, é um direito devidamente consagrado pela Carta dos Direitos do Utilizador das Hiper-Vias Celestes, mas devo alertá-lo que o Tribunal da Circulação Cósmica está neste momento paralisado devido ao excesso de processos com origem no colapso do Nó de Plutão.