A partir de ontem, as mensagens privadas deixaram de ser privadas, numa multitude de canais digitais usados diariamente pelos utilizadores europeus, sem que para essa ruptura com o antigo quadro legislativo seja sequer necessário mandato judicial ou até suspeita prévia.
O Parlamento Europeu votou a favor da prorrogação de uma excepção temporária às regras de privacidade da UE, que permite às plataformas online verificar a presença de material relacionado com o abuso sexual de crianças (CSAM). A medida, frequentemente mencionada em debates públicos como parte da discussão mais ampla sobre o “Controlo de Chat”, vigorará agora até 3 de Abril de 2028.
A decisão diz respeito à chamada derrogação ePrivacy (por vezes designada por Chat Control 1.0), originalmente introduzida em 2021 como Regulamento (UE) 2021/1232 e permite, mas não exige, que os serviços e plataformas de mensagens verifiquem as comunicações em busca de CSAM já identificado, principalmente imagens e vídeos.
Esta é a narrativa oficial, obscena até pelo seu argumento: a segurança das crianças. Porque na verdade e como Patrick Breyer, ex-eurodeputado do ‘Partido Pirata’, adverte assertivamente, as empresas tecnológicas norte-americanas estão agora autorizadas a verificar mensagens privadas sem mandado judicial ou suspeita prévia. Isto afecta as mensagens directas em plataformas como o Instagram, o Discord, o Snapchat e a Xbox, bem como os e-mails através do Gmail da Google e do iCloud da Apple.
Uma moção para rejeitar a prorrogação não obteve a maioria absoluta necessária na segunda leitura.
Dia negro para a democracia da União Europeia. Temos efectivamente de repensar a nossa permanência nesta organização mafiosa.
314 deputados votaram contra o Chat Control, 276 a favor, 17 abstiveram-se. A maioria dos eurodeputados que votaram rejeitou a lei. E a lei passou na…— Bruno Fialho (@BrunoARFialho) July 9, 2026
Se bem que a lei votada tem um carácter temporário e voluntário, ou seja, as tecnológicas não são obrigadas a violar as promessas de privacidade que garantem aos seus utilizadores, a verdade é que as absolvem desse incumprimento contratual. A lei também não dá aos governos acesso directo a mensagens privadas, mas considerando o regime corporativo, promíscuo, corrupto e permissivo entre as elites políticas e empresariais que hoje se vive no Ocidente, qualquer objecção a esta iniciativa legislativa é mais que justificada.
É também verdade que as aplicações de “encriptação ponta a ponta”, como o Telegram ou o Whatsapp, não estão neste momento integradas nesta iniciativa, mas a proposta permanente de Controlo de Chats, mais controversa e defendida por Bruxelas (o Regulamento completo sobre o Abuso Sexual de Crianças), que poderá impor obrigações mais amplas e integrar estas aplicações, levantando preocupações significativas sobre a criptografia e a vigilância em massa, continua a ser negociada separadamente para ser adoptada a curto prazo.
O Parlamento Europeu tem sublinhado repetidamente a necessidade de medidas direccionadas aos grupos de conversação encriptados.
A prorrogação ocorre após o termo das regras temporárias anteriores, a 3 de Abril de 2026, depois de os eurodeputados terem rejeitado uma prorrogação a 26 de Março por 311 votos a favor, 228 contra e 92 abstenções. A medida segue manobras processuais polémicas que levaram o assunto de volta ao plenário em carácter de urgência antes das férias de Verão.
🚨🇪🇺The European Parliament has just voted IN FAVOR of ending freedom of speech!
The EU will now crush citizens’ privacy pushed through Chat Control!
Brussels will be able to massively scan private messages and legalize the monitoring of citizens’ communications. pic.twitter.com/TDLhXxRNMl
— Mario ZNA (@MarioBojic) July 9, 2026
Os grupos de defesa dos direitos digitais criticaram o processo, argumentando que limitou o debate completo sobre as implicações a longo prazo. Os críticos, incluindo alguns eurodeputados e grupos de defesa dos direitos digitais, defendem que a medida prejudica o escrutínio democrático e levanta preocupações sobre a privacidade e as comunicações encriptadas, afirmando acrescidamente que a derrogação, apesar de ser mais limitada do que o Chat Control 2.0, suspende um direito fundamental. Breyer declarou a este propósito:
“O facto de o Chat Control estar a avançar contra a vontade da maioria dos eurodeputados votantes é uma farsa e prejudica a democracia. Os nossos filhos são os verdadeiros perdedores neste processo antidemocrático. A aprovação de uma regulamentação genuína e permanente de protecção da infância está agora seriamente ameaçada. O Conselho nunca concordará com a tão necessária mudança de paradigma enquanto puder simplesmente agarrar-se à velha abordagem de varrimento indiscriminado, ao sabor dos caprichos da indústria tecnológica.”
E da ideologia regimental.
Breyer afirmou que, no fundo, esta legislação tem uma abordagem de vigilância em massa.
“Tentar proteger as crianças com vigilância em massa indiscriminada é como tentar limpar o chão freneticamente com a torneira aberta. O controlo indiscriminado das conversas online é tão inaceitável como abrir indiscriminadamente a correspondência física de todos. Durante cinco anos, este sistema defeituoso serviu de cortina de fumo para atrasar acções concretas, ao mesmo tempo que sobrecarregava a polícia com alarmes falsos. Precisamos de mais protecção para a infância, não menos — mas precisamos de protecção eficaz, não da ilusão de segurança.”
De acordo com dados da Comissão Europeia citados por Breyer, a varredura em massa de chats privados representou apenas 36% das denúncias de abuso em 2024, sendo a maioria proveniente de publicações públicas e armazenamento em cloud. O Departamento Federal da Polícia Criminal da Alemanha (BKA) apurou que 48% dos alertas não têm relevância criminal, enquanto 40% das investigações resultantes têm como alvo menores de idade.
Além disso, 99% das denúncias feitas pela Meta sob controlo de chats envolvem material já conhecido, o que pouco contribui para o activo combate ao abuso.
A própria Comissão Europeia admite que não há provas de que a varredura de mensagens privadas sem suspeita prévia tenha aumentado as condenações ou resgatado mais crianças. Breyer sublinha que as ferramentas mais eficazes de aplicação da lei — escutas telefónicas autorizadas judicialmente e denúncias de utilizadores — nunca estiveram em risco e permanecem totalmente intactas.
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