A chamada “corrida da IA” é uma história de dois extremos. De um lado está o modelo de Silicon Valley, onde o desenvolvimento de IA poderosa e com grande consumo de recursos causa danos humanos, ambientais e financeiros, impulsionado por aquela que é, sem dúvida, a maior consolidação de poder corporativo que alguma vez existiu. Do outro lado do Pacífico, a história é outra, onde a intensa concorrência e a regulamentação da IA centrada nas pessoas e nos interesses da nação preside ao desenvolvimento do sector. Considerando que as duas estratégias procuram resultados muito diferentes, pode ser difícil determinar se os EUA ou a China estão na frente num determinado momento. Uma pista que pode oferecer uma visão mais clara do que os indicadores de desempenho ou os registos de patentes: o que o resto do mundo realmente pensa sobre o assunto.
De acordo com um novo inquérito global realizado pela empresa britânica Public First e divulgado pelo Politico, os inquiridos em 11 dos 15 países da amostra acreditam agora que a China ultrapassou os EUA em capacidade e inovação em IA — restando apenas os inquiridos do Japão, Índia, Vietname e dos próprios EUA a permanecerem do lado de Silicon Valley.
Mesmo dentro dos Estados Unidos, o cenário não é animador. Segundo a sondagem, apenas 51% dos cidadãos norte-americanos consideram o seu próprio país dominante na corrida da IA. Isto não significa necessariamente que acreditem que a China está à frente — 24% dos residentes nos EUA responderam que “a China está a liderar”, enquanto 25% responderam “não sei” —, mas o facto de quase metade de todos os inquiridos americanos terem uma visão negativa das capacidades de IA do seu próprio país é revelador.
Talvez ainda mais reveladoras sejam as opiniões dos vizinhos dos EUA. No México, apenas 36% dos inquiridos acreditam que os EUA estão à frente, enquanto 49% dizem que a China lidera. A opinião canadiana é um verdadeiro massacre: 27% preferem o vizinho do sul, enquanto 40% pensam que é a República Popular da China.
É claro que estas tendências são também moldadas por opiniões que nada têm a ver com tecnologia, e mais com rivalidades históricas e geográficas (tudo o que é chinês é odiado no Japão, tudo o que é americano é odiado no Canadá), bem como com convicções ideológicas (anti-Trump, anti Regime Epstein, anti-comunismo, etc.). Mas os aliados típicos dos EUA também não parecem impressionados com Silicon Valley: a opinião dos Franceses está exactamente em sintonia com a dos canadianos, e o Reino Unido regista 26% de pareceres favoráveis aos EUA e 44% em relação à China.
É difícil discernir se esta mudança de opinião mundial reflecte uma crescente repulsa pelo modelo americano ou uma genuína admiração pela abordagem chinesa (pode até resultar de uma espécie de sinofobia, na verdade, que tem sido propagada por Silicon Valley). O que é claro é que, se a indústria tecnológica dos EUA continuar a investir na sua estratégia transhumanista, enfrentará uma grave crise de legitimidade, muito para além do que qualquer empresa individualmente possa esperar resolver.
Tanto mais que a indústria continua a operar em falência técnica: até o epsteiniano banco Goldman Sachs afirmou em Março deste ano que, pelo menos até 2025, a inteligência artificial não promoveu o crescimento económico, nem a produtividade das empresas, e o Banco de Inglaterra já alertou que uma bolha alimentada pelo sector pode desencadear uma “correcção súbita” nos mercados financeiros globais.
Acresce que este assunto destaca ainda uma das questões mais controversas da Inteligência artificial: as centrais de dados. A China, liderando ou não o sector, está seguramente num nível performativo semelhante ao norte-americano, mas tem neste momento apenas 500 data centers em actividade. Os EUA têm 5.000 e planeiam colocar em operação outros 2.000 a curto prazo. Considerando o abismal consumo de recursos energéticos e aquíferos e o impacto ambiental destas infra-estruturas, bem como os investimentos astronómicos que implicam, e que aparentemente estão a ser pagos pelas massas e não pelas elites, há que perguntar: servem afinal para quê?
Só podemos especular. E a especular continuaremos, com recorrência, enquanto não nos explicarem as razões objectivas para o surto destes templos luciferinos.
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