O filósofo, poeta e músico alemão Hans-Eckardt Wenzel, que viveu metade da sua vida na RDA e a outra metade na Alemanha unificada, enuncia, na entrevista concedida a Patrik Baab que deixamos na conclusão deste texto, um diagnóstico devastador da civilização ocidental que não deixa espaço para conforto. Estamos já mergulhados num sofisticado golpe que desmantela direitos e silencia a oposição sem que uma única pistola seja disparada.

O mesmo público que outrora questionava o poder por questões muitas vezes menores aceita agora autoritarismos de toda a ordem, ameaças existenciais e comportamentos dantescos das elites; e a divisão, o medo e a censura como ruído de fundo normal, enquanto o longo domínio do Ocidente se desmorona sob a sua própria arrogância. Porque é que ninguém reage?

 

Anatomia do golpe de estado 2.0.

Wenzel descreve o “suave” golpe de Estado perpetrados pelas elites contemporâneas: nada de tanques nas ruas, nada de tomada de poder violenta, apenas um bloqueio mediático e eleitoral da oposição e a marginalização e perseguição da dissidência por decreto.

No âmbito da UE, as sanções são utilizadas como arma contra qualquer nação, contra qualquer político que tenha uma opinião diferente, suspendendo efectivamente as leis fundamentais e o Estado de direito para aqueles que se recusam a seguir regras e narrativas.

Estas são versões actualizadas de disposições especiais da década de 1930, executadas com mais habilidade para parecerem quase legais, enquanto eliminam as protecções constitucionais.

O guião foi ensaiado durante Covid-19 e depois intensificado com a guerra na Ucrânia, onde a Alemanha e a UE não lançaram qualquer iniciativa séria para a paz, pelo contrário, trabalhando activamente para transformar um conflito regional numa guerra global.

O resultado é um golpe permanente que opera à vista de todos, mas permanece invisível para uma população treinada para não o ver, e castrada por uma aparente ideia de prosperidade material.

 

O mistério da passividade das massas. 

Os protestos foram sistematicamente desacreditados e fragmentados através de tácticas de dividir para reinar, que foram aperfeiçoadas durante a pandemia. A sociedade foi dividida entre submissos e insubmissos, rompendo elos familiares, corroendo a confiança dos indivíduos em si próprios, mas também nas instituições e na ciência, e aniquilando a própria possibilidade de resistência unificada.

O medo é mobilizado pela ressurreição dos fantasmas do passado, enquanto o questionamento sobre a guerra é rotulado como simpatia pelo inimigo, a discordância sobre a política interna é catalogada como extremismo, a crítica aos mandatos científicos atribuída à ignorância. Mesmo aqueles que sabiam que o conflito na Ucrânia poderia ter sido evitado desde o início permaneceram em silêncio, porque falar parece agora perigoso ou tabu. As pessoas foram treinadas para ver a sua própria resistência como a maior ameaça, deixando o golpe sem contestação e o público estranhamente calmo.

 

Declínio e queda do Ocidente: no fim da cultura, o silêncio.

A civilização europeia atingiu o seu ponto final cultural, nascida no Renascimento da crença de que era superior a todas as outras culturas e tinha o direito de as dominar, a sua arrogância ontológica cegou o Ocidente à sua própria decadência, enquanto o verdadeiro ímpeto civilizacional escapa agora à esfera ocidental.

Wenzel, que viveu o fim da RDA, reconhece aqui a mesma erosão dialéctica, e uma progressiva separação entre a propaganda e a realidade, mas com uma diferença crucial: desta vez não haverá uma transição suave para a democracia, o Estado de direito, o bom senso – a razão.

A verdadeira catástrofe, como observou Walter Benjamin, não é que o desastre chegue de repente, mas que tudo continue como antes enquanto a carnificina passa despercebida ou é aceite passivamente pelas massas.

 

Conclusão.

Wenzel mostra uma sociedade que se encontra às portas do inferno, mas que ainda assim se convence de que é o paraíso, dividida por definição, desprovida de identidade e logos, e convencida de que nada pode ser feito quanto ao seu terminal e sinistro destino.

É assim que as civilizações terminam: não com um estrondo, mas com a rendição silenciosa daqueles que foram ensinados a sacrificar a liberdade pela segurança e a confundir a obediência com a paz.