Nota introdutória: No caso do conflito Ucrânia-Rússia há quem condene a invasão russa, mas não condene a sabotagem, dos gasodutos Nord Stream 1 e 2 É deveras surpreendente que alguns que se apresentam  como arautos da ética e da moralidade revelem uma tão evidente duplicidade de critérios. Não defendem princípios; defendem conveniências. E quando a conveniência prevalece, a moral desaparece.

Não é admissível condenar uma violação do direito internacional e, simultaneamente, relativizar ou justificar outra apenas porque serve determinados interesses geopolíticos. A destruição deliberada de infraestruturas essenciais não muda de natureza consoante a identidade de quem a pratica.

Os princípios são universais ou deixam de o ser. A ética não pode funcionar como arma contra os adversários e escudo para os aliados. Quando é aplicada com dois pesos e duas medidas, deixa de ser ética para se tornar mera conveniência política.

 

1. O Suicídio Industrial: O Evento que Redesenhou o Mapa Estratégico

A destruição dos gasodutos Nord Stream 1 e 2, em setembro de 2022, não foi um mero incidente de percurso num conflito regional; foi a demolição controlada do modelo industrial alemão e, por extensão, da estabilidade económica europeia. Estas infraestruturas representavam o cordão umbilical que garantia energia a preços competitivos, o alicerce da competitividade germânica. A sua neutralização forçada configura um dos atos de sabotagem mais graves da história moderna, precipitando uma fratura na ordem europeia que expõe a fragilidade das soberanias nacionais perante agendas externas. O que testemunhamos não foi apenas um desastre económico, mas um “aprisionamento estratégico” que desafia as alianças tradicionais e obriga a uma revisão fria de quem realmente beneficia com a cinza dos gasodutos. É imperativo rasgar o véu da complacência e identificar os autores desta quebra de tabu.

 

2. A Quebra do Tabu: da “Conspiração” à Verdade Judicial

Durante meses, qualquer análise que desviasse do guião oficial era prontamente asfixiada com os rótulos de “conspiracionismo” ou “propaganda putinista”. Hoje, o “eu bem avisei” deixa de ser um exercício de retórica para se tornar uma constatação fáctica. A investigação da Procuradoria-Geral da Alemanha operou uma mudança tectónica: a hipótese de que elementos ucranianos ordenaram a operação transitou da marginalidade para a centralidade da “verdade judicial”. Contudo, este desfecho é politicamente cómodo: culpar exclusivamente Kiev permite salvar as aparências na relação Berlim-Washington, evitando uma crise diplomática de proporções existenciais entre aliados da NATO.

A possível responsabilidade ucraniana levanta questões que as elites europeias tentam desesperadamente ignorar:

– Financiamento e Armamento: Como justificar o apoio militar e financeiro contínuo a um Estado que sabota infraestruturas vitais dos seus próprios financiadores?
– Traição Estratégica: Estaremos perante uma punhalada nas costas contra o continente que serve de retaguarda logística e humanitária a Kiev?
– Conivência de Alto Nível: É credível que uma operação desta complexidade técnica ocorra sem o aval das mais altas esferas do poder ucraniano ou a assistência de serviços de inteligência ocidentais

 

3. O Contexto Geopolítico: O Eixo Washington-Londres e a Pista da CIA

A sabotagem não ocorreu num vácuo, mas num cenário de pressões intensas para forçar a Europa a um divórcio energético com a Rússia. A declaração solene de Joe Biden, garantindo que o Nord Stream 2 “deixaria de existir” se Moscovo avançasse, ressoa hoje como uma confissão prévia. Somam-se a isto as alegações do jornalista de investigação Seymour Hersh sobre uma operação encoberta da CIA com apoio britânico, desenhando um quadro onde o objetivo não era apenas punir a Rússia, mas garantir que a Alemanha nunca mais pudesse recuar na sua dependência transatlântica, o que faz sentido

Conforme apontado pelo senador norte-americano do Missouri Josh Hawley, o governo norte-americano teria sido avisado antecipadamente, e há indícios de que as forças ucranianas envolvidas podem ter recebido treino direto da CIA.

 

 

4. O Suicídio Económico Europeu: A Ironia das Sanções

O fim do gás russo barato não foi uma transição; foi uma decapitação económica. A estrutura de custos da Europa foi alterada de forma permanente, transformando a robustez industrial numa crise existencial. A ironia é devastadora: a Europa endivida-se para financiar um conflito que destrói a sua própria base competitiva. Pior: enquanto pregam a “superioridade moral”, muitos Estados europeus continuam a importar hidrocarbonetos russos através de intermediários e esquemas de contorno, revelando uma hipocrisia sem limites.

Podemos identificar Três Vagas de Choque Económico:

– Desindustrialização Acelerada: Empresas alemãs e europeias, incapazes de competir com os custos energéticos dos EUA ou da Ásia, enfrentam o encerramento ou a deslocalização.
Erosão do Poder de Compra: Uma inflação estrutural que transfere o custo da “geopolítica de bastidores” diretamente para a fatura das famílias.
– Endividamento Estratégico: O sacrifício da competitividade futura em troca de uma dependência energética mais cara e politicamente condicionada.

 

5. Repercussões Políticas: Sobrevivência de Elites e a Ascensão da AfD

timing da reabertura deste dossier não é inocente. Para muitas lideranças europeias, a manutenção da narrativa de guerra tornou-se um mecanismo de sobrevivência política, uma forma de evitar prestar contas pelo declínio económico que provocaram. No entanto, o silêncio e a perceção de traição dos interesses nacionais estão a alimentar forças como a Alternativa para a Alemanha (AfD), que capitaliza sobre o vazio deixado por elites que parecem agir como vassalos de interesses externos.

“Enquanto Biden e Boris Johnson abandonam o cenário político, deixando para trás o caos energético na Europa, as elites que permanecem usam a ‘ameaça russa perpétua’ como um dogma imune ao debate para ocultar a sua própria incompetência e cumplicidade.”

 

6. Ética, os Média e o Estado de Direito: A Moral de Conveniência

O papel dos grandes órgãos de comunicação social tem sido deplorável, mantendo uma interpretação monolítica e marginalizando o espírito crítico. Vivemos tempos caricatos onde a moralidade é usada como arma de arremesso: condena-se a invasão russa — com toda a justiça — mas olha-se com complacência para a sabotagem de infraestruturas civis aliadas, rotulando-a como “objetivo estratégico legítimo”. Esta duplicidade de critérios corrói a confiança nas instituições e no Estado de Direito.

Tem de se exigir a realização de investigações totalmente independentes que não se detenham perante conveniências geopolíticas. É inadmissível que o silêncio cúmplice proteja mandantes e executores de um crime contra a economia europeia. A transparência não é uma opção; é um direito inalienável dos cidadãos que pagam a conta desta guerra. Responsabilizem-se os culpados, independentemente do cargo, ou assumam que o Estado de Direito na Europa é uma ficção para consumo público.

 

7. Conclusão: O Perigo da Credulidade no Altar da Decadência

Os factos são teimosos: os maiores prejudicados pela sabotagem do Nord Stream e pela opacidade que a rodeia são os cidadãos europeus e o povo ucraniano, ambos sacrificados por uma estratégia de “terra queimada” económica. A verdade sobre este evento é o único pilar que pode restaurar alguma legitimidade à democracia europeia.

Se permitirmos que a conveniência política substitua os princípios universais e que a justiça seja seletiva conforme a conveniência do eixo Washington-Kiev, a Europa deixará de ser um projeto de Estados soberanos para se tornar uma nota de rodapé na história das potências imperiais. Atualmente, o palco político europeu nunca teve tantos palhaços em cena fingindo ser estadistas. Quando a credulidade substitui o espírito crítico, a sociedade torna-se cúmplice da sua própria decadência.

 

 

 

FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
____________
Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.