Em Novembro de 2023, o CEO da OpenAI, Sam Altman, foi abruptamente despedido da empresa após uma dramática disputa de poder.

Desde a saída de Altman — e a sua eventual recontratação — que o debate em torno da ética na indústria da IA ​​se tornou ainda mais polarizado. A OpenAI, que antes era um laboratório de investigação “livre de obrigações financeiras” e supostamente dedicado ao aperfeiçoamento da humanidade através da IA, transformou-se numa empresa com fins lucrativos, captando quantias exorbitantes de capital e, ao mesmo tempo, traindo as suas raízes sem fins lucrativos. Entretanto, as preocupações éticas, ambientais e sociais foram postas de lado, à medida que as empresas de IA pressionam para a construção de enormes e poluentes centros de dados, mesmo perante uma forte oposição das comunidades onde são construídos.

Depois de ter angariado centenas de milhares de milhões de dólares, a OpenAI — juntamente com os seus concorrentes mais próximos, a Anthropic e a SpaceX (empresa-mãe da xAI) — está prestes a entrar em bolsa este ano, aumentando ainda mais a pressão ao expor-se à influência de investidores individuais. A obrigação fiduciária das empresas de gerar valor poderá em breve minar ainda mais qualquer compromisso remanescente com o desenvolvimento ético da IA, provavelmente preparando o terreno para que os seus líderes abandonem qualquer pretensão de uma bússola moral corporativa.

Além disso, existem preocupações constantes com a segurança da IA. Já vimos empresas a agir de forma irresponsável na tentativa de obter vantagem competitiva e lucros para os accionistas anónimos, uma abordagem que levou a resultados trágicos.

Kevin Roose, do New York Times, afirmou a este propósito:

“Na OpenAI, houve uma espécie de conflito de governação que resultou, entre outras coisas, na demissão e readmissão de Sam Altman. Na Anthropic, transformaram-se numa espécie de empresa de benefício público para tentar diminuir a influência do capital dos acionistas e da obrigação fiduciária na sua capacidade de tomar decisões relacionadas com a segurança. Mas penso que tudo isto se torna muito mais difícil num mundo onde estas são empresas cotadas em bolsa, nas quais os grandes investidores, os detentores de fundos e os reformados investem. Nessa altura será difícil abrandar o lançamento de novos modelos, dados os enormes montantes de dinheiro que estas empresas angariaram”.

Por outro lado, outros prevêem que a onda massiva de financiamento poderá levar a um aumento dos gastos altruístas, uma “terceira onda de filantropia”. Todos os sete co-fundadores da Anthropic prometeram doar 80% da sua riqueza, com o CEO Dario Amodei a defender que “o que nos deve preocupar é um nível de concentração de riqueza que pode destruir a sociedade”.

Mas só quem anda a dormir na curvatura da terra ou sofre de ingenuidade crónica é que credita como válidas estas promessas e expectativas, vindas de onde vêem  E muito menos credíveis são quando os líderes destas empresa abrirem o capital ao investimento anónimo, que tem o lucro por único objectivo.