O Paradoxo da Pluralidade dá-se quando a Opinião substitui o Argumento.

A observação que me proponho neste artigo é tão lúcida como incómoda! De facto, pensando um pouco mais além da normalidade, a democracia representativa, na sua prática corrente, parece assentar numa ficção funcional. A soberania popular é invocada, mas o seu exercício efetivo traduz-se na escolha periódica de elites que, uma vez investidas, transformam a diversidade de opiniões num mecanismo de autolegitimação. O cerne do problema que enuncio não reside na existência de vozes divergentes, porque isso seria o oxigénio do sistema, mas sim na forma como essa divergência é gerida! O busílis da questão vem do facto da pluralidade de opiniões ser confundida com pluralidade de argumentos e do facto de ser dessa confusão que a sociedade retira a sua seiva.
Do ponto de vista epistemológico, o que se verifica é uma inversão subtil. Em vez de se partir de premissas para se alcançar uma conclusão, parte-se de uma conclusão socialmente hegemónica (muitas vezes moldada por escolas de especialistas expoentes, no sentido de formadores de opinião) e procuram-se, seguindo a corrente, os argumentos que a justifiquem. Os contra-argumentos, quando surgem, não são refutados na sua estrutura lógica ou factual; são, antes, categorizados. São atribuídos a motivações psicológicas, a interesses corporativos, a uma suposta ignorância ou a um alinhamento ideológico suspeito de esquerda ou de direita. Esta categorização substitui a resposta e esvazia o debate real.
Esta dinâmica revela uma estrutura de poder que opera pelo controlo do enquadramento interpretativo. A impressão de diversidade é mantida, pois é útil à legitimação, mas a moldura na qual essa diversidade pode exprimir-se é estritamente delimitada. As perguntas cruciais a colocar seriam: os pontos de vista opostos são apresentados de forma justa? Os factos são separados dos juízos de valor? O ponto de vista oposto mais forte é considerado? Estas questões fundamentais são, na prática, sistematicamente negligenciadas. O debate deixa de ser um diálogo dialético para se tornar num ritual de pertença. A posição política não se define pelo que se diz, mas pelo grupo a que se pertence ou pela moralidade que se exibe.
O que emerge, então, é uma sociedade que vive da contradição sem a resolver. A orientação política deixa de ser um estado de conhecimento, um saber objetivo sobre o bem comum, para se transformar num pragmatismo partilhado, constantemente relegitimado pelo próprio processo institucional. A razão, neste modelo, não é descoberta porque se reduz apenas a uma lógica produzida pela correção contínua e pela experiência acumulada, num ciclo que, pela sua própria natureza, nunca chega a um ponto final universal nem a um empenho comum no bem comum. Viver com esta contradição, como se nota ao observar a sociedade e o seu discurso, exige do cidadão uma distância irónica, um “humor” que impede o indivíduo de ser tragado pela voragem do poder. Sem essa distância, o cidadão ou o intelectual sucumbe à lógica binária do “nós” contra “eles”, perdendo a capacidade de estranhar o seu próprio campo.
Também o relativismo cultural seguido na governação se transforma em faca de dois gumes que nem ata nem desata porque não mantém coerência interna nem externa, o que provoca em muitos sentimentos de impotência e noutros uma reação de autodefesa nacionalista por lhe faltar fundamento lógico.
A transição de um sistema geopolítico unipolar para uma ordem marcadamente pluripolar, integrada pela Europa, Estados Unidos, China, Rússia, Índia, Brasil e pelas nações árabes, reclama uma nova epistemologia das relações internacionais. Torna-se premente estabelecer um diálogo profundo entre civilizações que viabilize um consenso fundamental em torno da realização do bem comum.
ANTÓNIO JUSTO
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António da Cunha Duarte Justo é um pensador e viajante de culturas: filósofo e teólogo de formação, escritor por vocação e comunicador por missão, dedica a sua vida a lançar pontes entre Portugal e Alemanha. Autor do blog Pegadas do Tempo.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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