Há uma cena memorável na série Trotski, exibida na Netflix — uma produção que a extrema-esquerda odiou profundamente por expor as entranhas sanguinárias da utopia socialista. Entre tantas barbaridades ali retratadas, capazes de fazer qualquer pessoa de bom senso abominar o comunismo e o trotskismo, ficou-me gravada uma frase profética do próprio Lev Trotski:

“Quem tem a comunicação social, tem o povo.”

Num ecossistema moldado por narrativas oficiais, quem controla as palavras passa a controlar as mentes. É a actualização perfeita da velha máxima distópica de George Orwell na sua obra 1984:

“Não percebe que todo o objectivo da Novilíngua é estreitar o âmbito do pensamento? No fim, tornaremos o crime de pensamento literalmente impossível, porque não haverá palavras para o exprimir.”

É exactamente este espartilho mental que hoje nos tentam impor.

Portugal acaba de ganhar mais um manual. Não é um manual de como pagar impostos sem chorar, nem de como sobreviver à burocracia socialista que nos sufoca. É um “Manual de Apoio e Glossário contra o Discurso de Ódio”, lançado pela APAV com pompa e circunstância no Dia Internacional de Combate a Não Sei Quantas Coisas. O objectivo? Ensinar-nos, pobres ignorantes, a identificar o ódio “nem sempre explícito” e a calar-nos educadamente antes que o Estado tenha de o fazer por nós. Que progresso.

Do ponto de vista de quem ainda acredita que a liberdade de expressão não é um privilégio concedido por comissários do politicamente correcto, isto cheira a importação barata do pior que a Europa woke tem para oferecer. E os exemplos não faltam.

No Reino Unido – esse farol da “tolerância” progressista – o medo de ser acusado de “discurso de ódio” permitiu durante anos que gangs paquistaneses muçulmanos violassem sistematicamente milhares de raparigas britânicas, maioritariamente de famílias pobres. Rotherham, Rochdale, Telford, Oxford. Relatórios oficiais, inquéritos parlamentares e números assustadores (estimativas que chegam às centenas de milhares ao longo de décadas) mostram o padrão: predadores de origem paquistanesa a tratar as “white girls” como “lixo branco” – um termo que usavam para complementar o prazer racial e cultural de abusar de infiéis. As autoridades sabiam. A polícia sabia. Os serviços sociais sabiam. Mas ficaram paralisados pelo terror de serem chamados racistas ou islamofóbicos. Melhor deixar violar crianças do que “estigmatizar” uma comunidade. Este é o resultado concreto de priorizar o combate ao “discurso de ódio” em detrimento da protecção real das vítimas.

Enquanto isso, o mesmo Estado britânico prende cidadãos comuns por causa de tweets. Registaram-se mais de 12 mil detenções em 2023 só por mensagens “ofensivas” online. Pessoas presas por expressarem opiniões sobre imigração, islamismo, biologia do sexo ou até por fazerem piadas. Uma mulher foi condenada a mais de um ano de prisão por uma publicação. Comediantes, activistas, mães preocupadas – todos na mira.

O “discurso de ódio” tornou-se a arma preferencial para silenciar dissidentes. Quem questiona o wokismo, a agenda trans ou a imigração descontrolada é automaticamente rotulado de extremista. A liberdade de expressão, outrora pilar da civilização ocidental, virou um luxo reservado aos que se ajoelham perante a nova religião.

E agora Portugal quer o seu manualzinho. Um glossário para detectar narrativas “de ódio e discriminação” cada vez mais presentes no espaço público e digital. Tradução: uma ferramenta para estigmatizar, denunciar e, eventualmente, criminalizar quem não alinhar com a narrativa dominante sobre género, raça, imigração, islamismo ou qualquer totem sagrado do progressismo. Porque o ódio, claro, é sempre unidireccional. O ódio contra o Ocidente, contra a família tradicional, contra o cristianismo, contra o homem branco ou contra quem defende fronteiras controladas? Esse é apelidado de “activismo”, “justiça social” ou “resistência”.

Os conservadores não defendem o ódio. Defendemos a verdade incómoda. Dizer que a imigração em massa de culturas incompatíveis gera problemas de coesão social não é ódio – é observação empírica. Apontar que a ideologia de género nega a biologia não é transfobia – é ciência. Criticar o islamismo radical que oprime mulheres, homossexuais e apóstatas não é islamofobia – é defesa da civilização. Silenciar estes debates com manuais, leis vagas e o medo do “discurso de ódio” não elimina os problemas. Apenas os agrava, como o Reino Unido demonstrou com o sangue de crianças nas ruas.

Este manual não protege vítimas. Protege narrativas. Protege o establishment que falhou na integração, na segurança e na defesa dos valores que construíram Portugal e a Europa. É o instrumento perfeito para o novo autoritarismo soft: não te prendem logo (ainda), mas marcam-te, isolam-te e tornam-te intocável no debate público.

A verdadeira defesa contra o ódio real – violência, discriminação injusta, incitamento ao crime – já existe no Código Penal. O resto é censura disfarçada de virtude. Enquanto celebram o lançamento deste manual, lembrem-se: em nome da luta contra o “ódio”, enterram a liberdade. E quando a liberdade morre, o ódio verdadeiro – o daqueles que não aceitam ser calados – acaba por encontrar outras formas de se expressar. Formas menos civilizadas.

Portugal, acorda antes que o teu manual se transforme no manual de instruções da tua própria submissão. A liberdade de expressão não é negociável. Quem a condiciona com glossários e comissários está do lado errado da História. Sempre esteve.

 

MARIA HELENA COSTA

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Maria Helena Costa nasceu em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas. Preside à Associação Família Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de várias obras publicadas, entre as quais: #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020), Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no Observador (2023), Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025) e Genocídio Silencioso (2026)

As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.